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Quando a tinta vira gesto: PLAC colore o abandono e empresta vida ao Complexo das Artes

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    Amazoom
  • há 13 minutos
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Ação de pintura mural na UFRR mobiliza estudantes e professores para transformar um espaço negligenciado em território de criação, encontro e resistência.

 

Profa Leila, Maria e Lean - integrantes do Coletivo PLAC. Foto: Coletivo PLAC.
Profa Leila, Maria e Lean - integrantes do Coletivo PLAC. Foto: Coletivo PLAC.

Há lugares que vão sendo esquecidos devagar. Não de uma vez, mas aos poucos – no silêncio dos corredores vazios, na poeira acumulada, na ausência de gente. O Complexo das Artes da UFRR, por muito tempo, caminhou nessa direção. Até que a tinta chegou.


Em mais uma ação promovida pelo Coletivo PLAC – Poéticas e Linguagens Artísticas Contemporâneas, estudantes e professores decidiram não esperar por reformas institucionais para agir. Fizeram o que artistas sabem fazer melhor: interviram.


A proposta foi simples na forma, mas profunda no gesto: pintar para reexistir. Para a professora Leila Baptaglin, coordenadora do coletivo, a ação ultrapassa o campo estético e se inscreve no político:

“A pintura no Complexo das Artes é um processo de revitalização do espaço, muito além de apenas pintura. Aquele espaço tem sido constantemente negligenciado pela instituição e nós resolvemos fazer o que é possível para torná-lo vivo, com arte.”

A fala não é apenas diagnóstico é tomada de posição. Em vez de esperar a estrutura, o coletivo constrói presença. E presença, aqui, é estratégia. Durante a ação, o espaço foi sendo reocupado em camadas: cores surgindo nas paredes, conversas circulando entre pincéis, risos que quebram o silêncio do abandono. Para quem participou, a experiência não se resume ao resultado visual.


Giovanna Mendes, integrante do coletivo, descreve o processo como uma espécie de respiro necessário: “É sempre bom pintar. É uma atividade terapêutica, ajuda a sair um pouco das telas, descontrair e deixar o lado criativo fluir. E quando junta isso com a melhoria do espaço em que convivemos? Não tem preço.” A observação de Giovanna aponta para um fenômeno mais amplo: em tempos de hiperconexão digital, o corpo volta a ser central na experiência artística. Pintar, ali, é também desacelerar.


Essa dimensão sensível da arte aparece ainda mais forte no relato de Sarah Chagas, que viveu a ação em um momento pessoal delicado: “Recentemente, passei por um procedimento cirúrgico que me exigiu pausa e paciência. Nesse período de recuperação, minha participação no PLAC foi muito mais do que um exercício artístico; foi uma experiência profundamente restauradora. A pintura serviu como um refúgio, transformando o tempo de repouso em um momento de conexão e expressão. Ver as cores ganhando vida nas paredes me ajudou a focar na atividade e no meu bem-estar, provando que a arte é, de fato, um bálsamo para o corpo e para a alma.”


O depoimento desloca a ação para outra camada: a arte como cuidado. Não apenas do espaço, mas das pessoas que o habitam. Mas há uma camada ainda mais estrutural no problema. O Complexo das Artes não é apenas pouco utilizado ele é, fisicamente, deslocado. Está fora do eixo central da universidade, o que dificulta o acesso cotidiano dos estudantes.



Lean Sena, acadêmico de Artes Visuais e integrante do PLAC, explicita essa tensão: “A utilização do Complexo das Artes (ou a falta dela) é um diálogo recorrente no colegiado. O prédio fica fora da universidade, longe do centro do curso, e isso é muito triste. Mas com a ação em coletivo a gente consegue fortalecer o uso desse espaço. Precisamos ocupar, devolver vida a ele.”


A fala de Lean desloca o debate: não se trata apenas de infraestrutura, mas de política de ocupação. Um espaço vazio não é neutro, ele comunica abandono. Um espaço ocupado, ao contrário, produz sentido.

E é exatamente isso que o PLAC vem fazendo ao longo de sua trajetória. Formado por alunos e ex-alunos do curso de Artes Visuais da UFRR, o coletivo atua com muralismo, arte urbana e ações comunitárias que tensionam o uso dos espaços públicos e institucionais. Cada intervenção é, ao mesmo tempo, prática artística e gesto pedagógico.

Ao pintar, o grupo ensina (e aprende) que a universidade não se limita às salas de aula. Ela também se constrói nas paredes, nos encontros, nas decisões coletivas. No fim do dia, o que fica não é apenas o mural. É a mudança de atmosfera.


O que antes era silêncio ganha voz. O que era abandono vira presença. O que parecia esquecido começa, lentamente, a ser habitado de novo. E, talvez, seja isso que mais importe: entender que, às vezes, uma parede pintada não resolve tudo, mas inaugura outra coisa.

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