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Arte que brota da terra: coletivos celebram o Dia dos Povos Originários em Roraima

  • Foto do escritor: Amazoom
    Amazoom
  • há 2 dias
  • 3 min de leitura

Na Comunidade Indígena do Campinho, no Cantá (RR), PLAC, MacuX e Canoa das Artes transformam o 18 de abril em território vivo de cultura, resistência e pertencimento.

Da esquerda para direita: Vilso, Tomás, Stephanie, Raissa, Isabelle, Leila, Flora, Angelo, Franklin, Beatriz, Folha, Wilson, Lean e Camile.
Da esquerda para direita: Vilso, Tomás, Stephanie, Raissa, Isabelle, Leila, Flora, Angelo, Franklin, Beatriz, Folha, Wilson, Lean e Camile.

No coração da Serra da Lua, onde a paisagem respira memória e futuro ao mesmo tempo, a Comunidade Indígena do Campinho virou palco, e protagonista, de um encontro que foi além de um evento: foi experiência. No dia 18 de abril, arte, educação, espiritualidade e convivência se misturaram como cores em um mural coletivo, construído por mãos diversas e intenções comuns.


A Ação Cultural do Dia dos Povos Originários, organizada pelo coletivo Canoa das Artes em parceria com o PLAC (Poéticas e Linguagens Artísticas Contemporâneas) e o MacuX (Movimento Artístico e Cultural Urbano), ancorou no território com uma programação que não apenas “aconteceu”, mas se viveu. Era arte espalhada pelas casas, pela comida compartilhada, pelas conversas que surgiam sem roteiro.


José Tomás, coordenador do Canoa das Artes, reforça que a proposta nasceu justamente dessa necessidade de integração entre linguagens e vivências:

 “É um encontro que une arte, educação e espiritualidade. A gente acredita na cultura como ferramenta de fortalecimento da identidade, do pertencimento e da preservação da Amazônia” - Tomás, coordenador do Canoa das Artes.

E isso se via (ou melhor, se sentia) em cada canto da comunidade. Crianças correndo entre oficinas, artistas trocando técnicas e histórias, anciãos compartilhando saberes. Não havia plateia passiva: todos eram parte do acontecimento.


Na mesa de abertura, um dos momentos simbólicos do evento, a presença de diferentes vozes marcou o tom coletivo da iniciativa. Entre elas, a de Ricardo Rodrigues de Aguiar (o Ricks), artista do grafite e coordenador do Coletivo MacuX, que destacou a potência desse encontro entre culturas:

“Pra mim foi muito inspirador participar. É um evento de grande relevância quando a gente fala de cultura indígena e povos originários. Ainda mais hoje, com tantas discussões sobre políticas públicas. A gente está num estado com muitos povos originários; eu digo ‘somos muitos’ porque eu sou do povo Macuxi e estar ali, representando também a cultura urbana, foi muito significativo” - Ricks, artista do Coletivo MacuX.

Ricks aponta para um detalhe que faz diferença: o diálogo entre o tradicional e o contemporâneo. No evento o grafite, linguagem urbana, encontra o território indígena não como contraste, mas como continuidade, como outra forma de contar histórias. E talvez seja essa a chave do Campinho: a ideia de que cultura não é algo fixo, mas um fluxo.


Ao longo do dia, a comunidade virou um organismo vivo de trocas. Houve partilha de alimentos, encontros entre artesãos locais e artistas visitantes, momentos de celebração e de introspecção. Para muitos, não foi apenas um evento, foi uma experiência transformadora. “Foi um momento de vivência muito forte, de muita troca. A gente cria uma relação com o ambiente e com as pessoas que viram quase família”, resume Ricks.


Do lado do PLAC, coletivo que reúne estudantes e artistas, o sentimento é de construção contínua. A professora Leila Baptaglin, coordenadora do grupo, observa o crescimento do coletivo ao longo dos anos:

“Esses momentos são cansativos, mas são muito bons. Fico feliz em ver o grupo crescendo e ampliando as ações. É difícil caminhar em coletivo, mas quando a gente ajusta o passo, se torna gratificante” - Profa. Leila, coordenadora do PLAC.

Quase sete anos de trajetória do PLAC desembocam em ações como essa, que extrapolam o espaço acadêmico e se enraízam nos territórios. No fim das contas, o Campinho não foi apenas cenário. Foi autor. Foi corpo. Foi voz.

Coletivo PLAC em atuação na comunidade Campinho. Pintura mural durante o evento em alusão ao Dia dos Povos Originários. Produção: @rafaantunes.fotografia

E para quem estava lá (seja criando, organizando ou simplesmente vivendo) ficou a sensação de que certos encontros não se repetem. Eles permanecem. Como um grafite na memória. Como uma história contada ao redor do fogo. Como arte que, uma vez compartilhada, nunca mais volta a ser só de quem fez.


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