Entre o barro e a esperança: Vicinal 16 resiste e se organiza para existir
- Amazoom

- há 1 dia
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Visita técnica em comunidade rural de Iracema-RR revela desafios históricos e aponta caminhos coletivos para o desenvolvimento sustentável.

A estrada já anunciava a pauta antes mesmo de qualquer pergunta ser feita. No dia 18 de abril de 2026, por volta das três da tarde, o acesso à Vicinal 16, na região da 14 Roxinho, em Iracema, transformou-se em metáfora viva do que significa viver à margem das políticas públicas. O barro vermelho, encharcado pela chuva, fazia a caminhonete 4x4 deslizar com insistência, obrigando o motorista a reduzir a velocidade e redobrar a atenção. Não era apenas um trajeto difícil, era o retrato físico do isolamento enfrentado por quem vive ali.
Foi nesse cenário que uma visita técnica reuniu moradores, lideranças locais, representantes institucionais e pesquisadores na casa de Rubstem Magalhães da Silva (o Seu Carpinteiro). A reunião, articulada pelo Centro de Apoio aos Municípios (CAM), contou com a presença de Simone Nascimento, além dos bolsistas da UFRR Joseph Ataíde e Ionara T. Magalhães, integrantes do projeto MerendaRR, vinculado ao CEACAM. O objetivo era direto, mas nada simples: auxiliar no processo de regularização da associação comunitária, condição essencial para que a localidade possa acessar recursos, políticas públicas e programas de incentivo à agricultura familiar.
A proposta apresentada durante o encontro foi clara: formalizar a associação, com registro em cartório, obtenção de CNPJ e abertura de conta bancária, é o primeiro passo para que a comunidade deixe de depender apenas da própria resistência. O processo, estimado em cerca de 40 dias, exige organização interna e divisão de custos entre os associados, o que, para muitos, já representa um desafio. Ainda assim, a ideia de sair da invisibilidade institucional mobilizou os cerca de dez moradores presentes.
Enquanto a equipe técnica explicava caminhos burocráticos, a comunidade respondia com relatos concretos. Falou-se de plantações de banana e macaxeira que se perdem por falta de transporte, da ausência total de assistência técnica, de um sistema de água improvisado com poços rasos que secam no verão e da inexistência de escola e posto de saúde. No período de chuvas, como o que marcou o dia da visita, o transporte escolar simplesmente não consegue chegar e as crianças ficam sem aula.
Mas, em meio às dificuldades, havia também construção de sentido. Para os bolsistas do projeto MerendaRR, o encontro ultrapassava o campo técnico e se aproximava de uma dimensão simbólica e política.
“A universidade precisa estar onde a vida acontece. Aqui, o alimento não é só produção, é cultura, é identidade. Nosso papel é somar conhecimento à sabedoria local”, afirmou Joseph Ataíde, olhando ao redor como quem tenta registrar cada detalhe daquele território.
Ionara T. Magalhães reforçou a potência do coletivo: “Quando a comunidade se organiza, ela ganha voz. E quando ganha voz, começa a escrever sua própria história”.

A reunião seguiu entre explicações, escuta e planejamento. Como encaminhamento, foi proposta a realização de um levantamento socioeconômico detalhado, capaz de transformar as necessidades locais em dados concretos para reivindicações formais. Com a associação regularizada, abrem-se possibilidades reais: acesso a programas como o PNAE e o PAA, aquisição de equipamentos agrícolas e até a implantação de uma casa de farinha - uma demanda antiga dos moradores.
Quando o encontro terminou, pouco depois das cinco da tarde, a chuva ainda marcava presença. O retorno repetiu o desafio da ida, com a estrada escorregadia impondo cautela e paciência. Mas algo havia mudado no percurso de volta. Entre o barro e o esforço coletivo, a Vicinal 16 começava a deixar de ser apenas um ponto isolado no mapa para se afirmar como território em movimento.
E talvez seja esse o ponto que mais interessa: entender que, às vezes, a notícia não está apenas no que acontece, mas no que começa a ser possível.




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