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Quando as paredes reconhecem quem chega: PLAC colore espaço da Comissão de Heteroidentificação da UFRR

  • Foto do escritor: Amazoom
    Amazoom
  • há 1 dia
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Em mais uma ação do Coletivo PLAC, mural produzido no espaço da Comissão de Confirmação Complementar à Autodeclaração Étnico-Racial reúne grafismos indígenas, adinkras africanos, flores roraimenses e personagens que celebram a presença negra, indígena e parda na universidade.

Mural produzido no espaço da Comissão de Confirmação Complementar à Autodeclaração Étnico-Racial. Foto: Amazoom.
Mural produzido no espaço da Comissão de Confirmação Complementar à Autodeclaração Étnico-Racial. Foto: Amazoom.

Na Universidade Federal de Roraima (UFRR), há paredes que já não aceitam mais ficar caladas. Algumas, quando tocadas por tinta, flores, grafismos e memórias, começam a falar. Foi assim na sala da Comissão de Confirmação Complementar à Autodeclaração Étnico-Racial da UFRR, no Bloco VII, onde o Coletivo PLACPoéticas e Linguagens Artísticas Contemporâneas – realizou mais uma ação de intervenção artística, transformando o espaço institucional em um território visual de acolhimento, identidade e reparação histórica.

 

A atividade reuniu integrantes do Coletivo, estudantes, artistas e professores em torno da criação de um mural dedicado à diversidade étnico-racial de Roraima. A pintura foi construída coletivamente, em uma jornada de trabalho, partilha e criação, coordenada pela professora Leila Baptaglin. A proposta buscou integrar personagens da composição étnico-racial do estado com elementos da flora regional, como o jenipapo, flores do Monte Roraima, grafismos indígenas e símbolos adinkras africanos.

 

O mural foi produzido em um espaço de forte significado político e institucional: é ali que ocorrem as aferições fenotípicas e documentais ligadas aos processos de confirmação complementar à autodeclaração étnico-racial na Universidade. Em outras palavras, àquela é uma sala atravessada por histórias, expectativas, pertencimentos e direitos. Agora, ao entrar no ambiente, quem chega já não encontra apenas uma parede neutra, mas uma narrativa visual que acolhe antes mesmo da primeira palavra.



Para o professor Francisco Alves, presidente da Comissão de Heteroidentificação da UFRR, a ação do PLAC foi “potente” justamente por tornar visível o sentido profundo daquele espaço. Segundo ele, a pintura “testifica visualmente o trabalho da Comissão por reparação histórica aos povos negros e indígenas”. O professor destaca ainda que os três personagens adornados por flores roraimenses, emoldurados por grafismos indígenas e adinkras africanos, criam “uma aura de acolhimento e escuta dialógica” para todas as pessoas que passam pela Comissão.

Mais do que ornamentação, a obra se apresenta como documento sensível na Universidade. Uma espécie de ata colorida, escrita não com carimbo e protocolo, mas com linhas, cores e símbolos. Para Francisco Alves, o trabalho estético realizado pelo PLAC na UFRR contribui para a criação de uma memória visual que articula ensino, pesquisa e extensão em uma prática de arte urbana “polifônica e em sintonia com a identidade local”.

 

A professora Leila Baptaglin, coordenadora do Coletivo PLAC, explica que a composição nasceu do desejo de aproximar o mural da cultura regional e das presenças que formam Roraima. A criação, segundo ela, “tentou integrar a composição étnico-racial do estado de Roraima com elementos da flora regional (o jenipapo, fruto e flor, flores do Monte Roraima) junto com os grafismos indígenas e adinkras africanos”. A proposta, inicialmente simples, ganhou corpo pelas mãos do grupo, que acrescentou detalhes, texturas e sentidos ao longo do processo.

A ação também trouxe o tom afetivo que acompanha os trabalhos coletivos do PLAC. Entre pincéis, tintas, lanches compartilhados e almoço preparado para acolher os participantes, a pintura foi se fazendo como experiência estética e comunitária. Ao final, Leila celebrou o resultado e agradeceu aos integrantes envolvidos: “Vivi, Maria, Lean, Franklin e Will, muito obrigada por hoje. Vocês são ótimos. Parabéns para nós”.

 

Para o artista e estudante Franklin Jorge da Silva Sousa, participar da ação foi motivo de alegria e orgulho. Diante do mural concluído, ele afirmou que a obra lembra “o poder transformador que a arte e a cultura têm dentro do ambiente acadêmico”. Para Franklin, o mural não é apenas tinta na parede: “Ele é identidade, é representação e é um manifesto visual da nossa diversidade”.

 

A fala do estudante sintetiza o espírito da intervenção. A pintura não pede licença para existir; ela chega, abre passagem e diz que a universidade também se constrói com ancestralidade, juventude e pertencimento.

“Ela traz a força das nossas origens, a beleza dos nossos povos e a energia da nossa juventude”, afirmou Franklin. Para ele, ver traços indígenas, pretos e ancestrais ocupando o espaço universitário reafirma que “a UFRR é, e sempre deve ser, um lugar de todos”.

 

A ação do PLAC aconteceu como parte de uma série de intervenções artísticas desenvolvidas pelo coletivo dentro da UFRR. O objetivo é aproximar arte, formação acadêmica, vida universitária e comunidade, criando espaços mais vivos, mais sensíveis e mais conectados com os territórios amazônicos. Em vez de tratar os corredores, salas e paredes como simples estruturas físicas, o coletivo os transforma em lugares de memória, encontro e imaginação pública.


No caso da Sala de Heteroidentificação, o gesto ganha ainda mais força. Ali, onde a universidade reconhece trajetórias e direitos historicamente negados, a arte ajuda a compor um ambiente de escuta. Os personagens pintados parecem guardar a porta. As flores parecem respirar. Os grafismos parecem lembrar que ninguém chega sozinho a uma autodeclaração: chegam também os antepassados, os territórios, as línguas, as marcas do corpo, as histórias de luta e os futuros que ainda estão sendo desenhados.

 

Com mais essa ação, o PLAC reafirma que a arte na Universidade não é enfeite. É presença. É pedagogia. É política de permanência simbólica. É uma forma de dizer, com cor e delicadeza, que a UFRR pode ser também uma casa colorida por muitas mãos, onde a diversidade não apenas entra pela porta, mas permanece nas paredes.

 

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