top of page

Quando a Universidade vai ao Colégio: UFRR percorre outros caminhos do saber junto à comunidade da Escola Indígena Tuxaua Luiz Cadete

  • Foto do escritor: Amazoom
    Amazoom
  • há 11 minutos
  • 5 min de leitura

Doutorandos do Educanorte (UFRR) realizaram oficinas de literatura, histórias em quadrinhos, inclusão, esportes adaptados, inteligência artificial e educomunicação na Escola Estadual Indígena Tuxaua Luiz Cadete, fortalecendo o diálogo entre pós-graduação, educação escolar indígena e saberes da Comunidade Canauanim, no Cantá – RR.

Dança do Parixara para acolhimento na Escola Estadual Indígena Tuxaua Luiz Cadete. Foto: Amazoom.

A manhã de 3 de junho de 2026 começou cedo para a equipe do Educanorte (UFRR). Ainda antes de o sol esquentar de vez a estrada, doutorandos, professores e colaboradores se reuniram na Universidade Federal de Roraima para seguir, em ônibus da instituição, até a Escola Estadual Indígena Tuxaua Luiz Cadete, localizada na Comunidade Canauanim, Região Serra da Lua, no município do Cantá, em Roraima. A proposta era simples e imensa ao mesmo tempo: levar atividades pedagógicas, culturais, inclusivas e tecnológicas para a escola, mas também escutar, aprender e construir pontes com a comunidade.


A ação foi realizada por doutorandos do Programa de Pós-Graduação em Educação na Amazônia (PGEDA), Polo Roraima, com apoio da coordenação do curso e participação de professores da universidade, docentes da escola, estudantes e membros da comunidade. A ação ocorreu das 8h às 12h e reuniu literatura, artes visuais, práticas inclusivas e tecnologia, incluindo apresentação de livro, oficinas de histórias em quadrinhos, vivências de atletismo paralímpico, futebol de cegos, goalball e uma oficina sobre inteligência artificial e educomunicação no ensino e aprendizagem.


A programação começou com acolhimento da comunidade escolar e apresentação cultural. Na quadra, que não é apenas quadra, mas uma espécie de praça coberta onde a comunidade respira junto, estudantes e professores receberam a equipe da UFRR com a dança tradicional Parixara. Para Claudinero Reis de Lima, professor indígena da escola e doutorando na UFRR, o encontro teve um sentido especial.

“Hoje foi um dia muito especial para nossa comunidade e para a nossa Escola. Tivemos a alegria de receber os colegas do Doutorado em Educação na Amazônia da UFRR, acompanhados pelo professor Vilso Santi e pela professora Leila Baptaglin, para a realização de atividades que envolveram estudantes, professores e toda a comunidade escolar”, destacou.

 

Atividades diversas


As atividades foram pensadas para diferentes públicos. Com os estudantes dos anos iniciais, houve apresentação do livro da professora Sony Ferseck e oficinas de criação de histórias em quadrinhos, com construção de personagens, elaboração de narrativas e desenhos inspirados na própria realidade da comunidade. A proposta, mais do que ensinar uma técnica, convidou as crianças a transformar memória, território e imaginação em linguagem. A escola, por algumas horas, virou também ateliê, página em branco, terreiro de histórias e lugar onde a vida cotidiana pôde ganhar traço, fala e cor.


Turma 2026 do Doutorado em Rede em Educação na Amazônia (PGEDA). Foto: Amazoom.
Turma 2026 do Doutorado em Rede em Educação na Amazônia (PGEDA). Foto: Amazoom.

A professora Leila Baptaglin, coordenadora do Polo Roraima do Doutorado em Rede em Educação na Amazônia, ressaltou o caráter aberto e coletivo da iniciativa. Segundo ela, “todas as atividades foram propostas e disponibilizadas para que todos, de forma facultativa, e todos os estudantes puderam participar, bem como os membros da comunidade”. A fala sintetiza um ponto central da ação: a universidade não chegou para impor uma agenda, mas para propor experiências possíveis, em diálogo com a escola, os professores, os estudantes e a comunidade.


Um dos momentos de maior envolvimento ocorreu nas oficinas inclusivas. Os estudantes vivenciaram práticas de goalball, atletismo adaptado, futebol de cinco e atividades de reconhecimento espacial com os olhos vendados. A doutoranda Ana Késia Neves de Sousa explicou que o objetivo ultrapassava a dimensão esportiva: tratou de sensibilizar os participantes, promover empatia, inclusão e valorização da diversidade. No goalball, os alunos precisaram aprender a escutar o guizo da bola e respeitar o silêncio necessário ao jogo. No atletismo adaptado, correram em duplas, com um estudante vendado e outro atuando como guia. No futebol de cinco, a atividade foi adaptada para cobranças de pênaltis, permitindo que a experiência se ajustasse às condições reais da escola.


Para Ana Késia, o conjunto das práticas criou “um espaço singular para a construção de uma vivência inclusiva e integradora”, aproximando alunos, professores regentes, doutorandos e estagiários. A vivência também permitiu discutir acessibilidade, barreiras arquitetônicas e o modo como o espaço escolar é percebido por pessoas com deficiência visual. Ana destacou ainda que as práticas corporais adaptadas mobilizaram a percepção auditiva, cooperação, confiança mútua e empatia entre os estudantes.


Enquanto as crianças experimentavam outras formas de sentir o espaço, os professores participaram de uma oficina sobre inteligência artificial, educomunicação e pensamento computacional desplugado. A proposta trabalhou conceitos tecnológicos sem depender exclusivamente de equipamentos digitais, utilizando cartazes, jogos, dinâmicas e discussão pedagógica. Para Ogaciano dos Santos Neves, doutorando do PGEDA, a oficina foi marcada por troca de experiências sobre cultura digital, inclusão digital e práticas de pensamento, que permitem desenvolver conceitos computacionais com recursos acessíveis, mesmo em contextos onde as tecnologias digitais ainda chegam de forma desigual.


Ogaciano também destacou que os professores compartilharam dificuldades de suas realidades educacionais e discutiram a criação de um jornal escolar, no qual os alunos possam narrar sua própria comunidade, suas vivências e seu cotidiano.

“A oficina proporcionou momentos de reflexão, troca de conhecimentos e construção coletiva de estratégias pedagógicas voltadas à inovação e à inclusão no ambiente escolar”, afirmou.

Nesse ponto, a inteligência artificial deixou de ser apresentada como uma coisa distante, fria ou mágica, e passou a ser discutida a partir do chão da escola indígena, onde tecnologia só faz sentido quando conversa com território, cultura e aprendizagem.

 

Desafios importantes


A presença do Educanorte na Escola Estadual Indígena Tuxaua Luiz Cadete também revelou desafios importantes. O relato produzido após a ação observa que a quadra da escola funciona como espaço pedagógico e social da comunidade, sendo usada em eventos culturais, políticos e festivos. Ao mesmo tempo, ficou evidente as fragilidades de infraestrutura, como banheiros desativados, ausência de bebedouros na área da quadra, estruturas inacabadas e salas improvisadas, evidenciando a necessidade de políticas públicas mais consistentes para a educação escolar indígena.



Para Claudinero, a ação fortaleceu a parceria entre universidade, escola e comunidade.

“Como professor da comunidade e doutorando da UFRR, foi uma grande satisfação receber meus colegas e professores do doutorado e proporcionar esse momento de troca de conhecimentos. Essas ações fortalecem a parceria entre a universidade, a escola e a comunidade, aproximando os conhecimentos acadêmicos dos saberes locais e contribuindo para uma educação mais contextualizada e significativa”, afirmou.

No fim da manhã, quando as oficinas se encerraram, ficou a sensação de que ninguém voltou para casa exatamente igual. A universidade atravessou a estrada, mas também foi atravessada pela Comunidade Canauanim. Os estudantes aprenderam sobre inclusão, histórias, corpo, tecnologia e cooperação. Os doutorandos reencontraram, fora dos muros acadêmicos, a razão mais profunda da pesquisa em educação na Amazônia. E a escola mostrou, mais uma vez, que conhecimento não nasce apenas nos livros: nasce também na quadra pintada de grafismos, no silêncio atento ao som de uma bola com guizo, na dança do  Parixara, no desenho de uma criança e na palavra de uma comunidade que ensina enquanto acolhe.

Comentários


bottom of page