A palavra que nasce na floresta entra na universidade
- Amazoom

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Com aula inaugural na UFRR, Programa de Extensão se articula com organizações indígenas para formar comunicadores Yanomami e Ye’kwana, fortalecendo narrativas próprias em defesa da floresta, do território e da vida.

No dia 30 de abril de 2026, o Salão Nobre da Reitoria da Universidade Federal de Roraima deixou de ser apenas um espaço institucional para se tornar lugar de encontro, escuta e travessia. Foi ali, no campus Paricarana, que a UFRR realizou a aula inaugural do programa de extensão “A palavra que nasce na floresta”, iniciativa voltada à formação de comunicadores indígenas Yanomami e Ye’kwana, construída em parceria entre o Curso de Jornalismo (CCJ), o Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM) e a Hutukara Associação Yanomami (HAY).
Mais do que uma cerimônia acadêmica, o encontro marcou a entrada simbólica de outras formas de narrar no coração da universidade pública. A atividade reuniu comunicadores indígenas, lideranças, professores, estudantes e convidados em torno de uma questão que atravessa o presente e o futuro do jornalismo: quem tem o direito de contar a floresta? E, mais ainda, com quais palavras, em quais línguas, a partir de quais mundos?
O programa nasce para formar, ao longo de três anos, entre 2026 e 2028, comunicadores indígenas vindos de diferentes regiões da Terra Indígena Yanomami, em Roraima e no Amazonas. A formação será organizada em seis módulos, com dois encontros por ano, articulando o tempo da cidade e o tempo da floresta. Na prática, isso significa que os participantes terão períodos de estudo na universidade e momentos de retorno às comunidades para adaptação, circulação e multiplicação dos conhecimentos construídos coletivamente.
A primeira turma reúne comunicadores das regiões da Missão Catrimani, Demini e Auaris. Entre eles estão Laura Yanomami, Kátia Yanomami, Aida Yanomami, Edmar Yanomami, Jair Kedeniwa e Priscila Ximenes. A proposta é que se aprofundem em práticas de comunicação sem apagar seus modos próprios de ver, escutar, registrar, narrar e defender o território. O objetivo não é simplesmente traduzir a floresta para a linguagem da cidade, mas permitir que a floresta fale também desde suas próprias tecnologias, línguas, memórias e imagens.
A aula inaugural contou com a presença de Dário Vitório Kopenawa, vice-presidente da Hutukara Associação Yanomami, que representou também a força espiritual e política de seu pai, Davi Kopenawa. Dário iniciou sua fala em língua Yanomami e, depois, traduziu generosamente suas palavras ao público. O gesto, por si só, já dizia muito: comunicar não é apenas emitir uma mensagem; é construir uma ponte onde antes havia distância.

Dário explicou que Davi Kopenawa não pôde estar fisicamente no evento por questões logísticas de deslocamento, já que se encontrava na Terra Indígena Yanomami. Mas fez questão de afirmar que sua presença estava ali de outro modo. “Meu pai está ouvindo. Ele está na escuta. Está sentado aqui espiritualmente. Está vendo os comunicadores Yanomami”, disse Dário – lembrando que, para os povos da floresta, presença não se limita ao corpo visível. Às vezes, ela chega pelo espírito, pela escuta, pela memória e pela responsabilidade partilhada.
Em sua fala, Dário destacou que a chegada dos comunicadores indígenas à universidade não deve ser vista como simples acesso a um curso, mas como parte de uma luta maior por reconhecimento, respeito e preservação das línguas, dos pensamentos e dos patrimônios culturais dos povos Yanomami e Ye’kwana. Para ele, a comunicação indígena precisa ser diferente porque nasce de outra relação com o mundo. “Não basta colocar palavras bonitas no papel. É preciso que a universidade aprenda a registrar, respeitar e compreender o espírito da floresta”.
Essa foi talvez uma das mensagens mais fortes da noite: a comunicação indígena não pode ser tratada apenas como conteúdo. Ela é também modo de vida, forma de percepção, relação com os seres, com os rios, com os xapiri, com os parentes, com a memória e com o território. Dário lembrou que é preciso gravar nas línguas indígenas, registrar as línguas, reconhecer esse patrimônio cultural e abrir espaço para que a universidade não apenas ensine, mas também aprenda.
O evento contou ainda com a participação de Aldernir Cadete Wapichana, um dos nomes fundamentais da comunicação indígena em Roraima. Sua presença deu ao encontro uma camada histórica importante, porque lembrou que a comunicação indígena no estado não começou agora. Ela foi forjada em assembleias, retomadas, conflitos, denúncias; câmeras improvisadas, fitas, registros e coragem. Foi feita muitas vezes no calor da ameaça, no meio da poeira, diante da violência, quando filmar também significava proteger a memória.

Aldernir recuperou sua experiência no registro de conflitos ligados ao processo de demarcação das terras indígenas em Roraima, especialmente no caso da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, homologada em 2005. Ele lembrou o episódio conhecido como o Caso dos Dez Irmãos, ocorrido em 5 de maio de 2008, quando indígenas foram baleados durante um ataque na região do Surumu. O vídeo feito por Aldernir se tornou documento histórico de denúncia e resistência. Ao trazer essa memória para a aula inaugural, ele também cobrou justiça e lembrou que, quase duas décadas depois, a dor permanece aberta para muitos parentes.
A fala de Aldernir funcionou como uma aula dentro da aula. Para os estudantes de jornalismo presentes, ficou uma lição difícil e necessária: a câmera nunca é neutra quando há corpos ameaçados. O registro pode ser prova, abrigo, denúncia e arma de memória. Em contextos de violência contra povos indígenas, comunicar é também impedir que o esquecimento faça o segundo ataque.
A articulação entre o CCJ, o PPGCOM e as organizações indígenas foi um dos eixos centrais do encontro. O programa de extensão é resultado de um trabalho conjunto entre professores, estudantes, lideranças e comunicadores, com destaque para a parceria com a Hutukara Associação Yanomami. Essa aproximação consolida uma história de vínculos entre a UFRR e os povos originários da Amazônia, mas também aponta para uma etapa mais madura: não se trata apenas de pesquisar sobre povos indígenas, e sim de construir processos com eles, a partir de suas demandas e formas próprias de produzir conhecimento.
O professor José Tarcísio de Oliveira Filho, coordenador do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFRR, destacou que o PPGCOM participa como parceiro direto na execução do programa de extensão. Ele lembrou que, desde a primeira turma do mestrado, em 2019, o programa já titulou 44 mestres e mestras, sendo que 12 dissertações envolveram povos indígenas como sujeitos de pesquisa ou como parte de fenômenos midiáticos, comunicacionais e culturais analisados. Em outras palavras, “(...) a cada quatro pesquisas defendidas no PPGCOM, pelo menos uma dialogou com a temática indígena.
Mas Tarcísio chamou atenção para um ponto ainda mais importante: a presença indígena não deve aparecer apenas como tema de pesquisa. Ela precisa estar também na autoria, na reflexão, na sala de aula, na pós-graduação, nas bancas, nas metodologias e nas perguntas. O coordenador lembrou que o PPGCOM já titulou mestras indígenas e conta atualmente com outra estudante indígena em formação. Para ele, isso expressa a própria identidade do programa, cuja área de concentração é Comunicação, Territorialidades e Saberes Amazônicos.
Essa fala ajuda a compreender por que “A palavra que nasce na floresta” é mais do que um projeto isolado. O programa se conecta a uma vocação institucional da UFRR e, em especial, do campo da comunicação na Amazônia: pensar os processos comunicacionais sem arrancá-los dos territórios, das línguas, das cosmologias e das lutas concretas. O PPGCOM entra nessa articulação não apenas como instância acadêmica, mas como espaço de pesquisa comprometido com os saberes amazônicos e com a presença de pesquisadores indígenas na produção de conhecimento.
Pelo Curso de Jornalismo, o professor Felipe Collar Berni destacou que a formação chega em um momento especialmente simbólico pois o curso inicia, em 2026, as celebrações de seus 35 anos. Segundo ele, a parceria com a Hutukara foi sendo construída desde o ano anterior, a partir de um desejo já presente entre lideranças Yanomami e Ye’kwana: “criar um espaço de formação em comunicação que reconhecesse a universidade como aliada possível”.
Felipe dirigiu parte de sua fala aos estudantes de jornalismo. Para ele, projetos e programas de extensão têm a potência de colocar a universidade em contato com grupos sociais que produzem outras sabedorias e outras formas de compreender o mundo. É nesse contato que a formação jornalística se desloca, se desacomoda e aprende a sair da bolha. O encontro com os comunicadores indígenas, afirmou, representa uma oportunidade rara para estudantes e professores pensarem a comunicação como campo de disputa, escuta e responsabilidade.
A mensagem é direta para quem está começando no jornalismo: aprender a entrevistar, fotografar, filmar, editar e escrever é fundamental, mas não basta. É preciso aprender também a reconhecer quando o outro não cabe nos nossos formatos prontos. A floresta, muitas vezes, não responde no ritmo do deadline. A memória indígena nem sempre obedece à ordem linear da notícia. A tradução exige paciência. A escuta exige humildade. E a pauta, quando nasce do território, pode desmontar as certezas da redação.
A professora Lisiane Aguiar, docente do CCJ e do PPGCOM e uma das coordenadoras do programa de extensão, ressaltou o caráter coletivo da iniciativa. Segundo ela, o projeto não nasceu de uma decisão individual nem de uma “canetada”, mas de uma construção feita por muitas mãos. Em sua fala, Lisiane deslocou o olhar para uma dimensão muitas vezes invisibilizada nos espaços institucionais: a presença das mães, das crianças, dos corpos que cuidam e aprendem ao mesmo tempo.
Ela destacou as mulheres Yanomami que participam da formação levando seus bebês, amamentando e ocupando a universidade com suas existências inteiras. Esse detalhe, que poderia passar despercebido em uma ata burocrática, revela uma das forças mais bonitas do programa: ele obriga a instituição a rever seus padrões. Para Lisiane, o curso não é apenas uma formação técnica. É um momento de aprender a desterritorializar aquilo que a universidade naturalizou como regra, inclusive suas ideias sobre tempo, produtividade, presença e aprendizagem.
Nesse ponto, a aula inaugural deixou evidente que formar comunicadores indígenas não significa apenas adaptar conteúdos. Significa também adaptar a própria universidade. Se a formação considera o tempo da cidade e o tempo da floresta, ela precisa considerar também o tempo do cuidado, da maternidade, da tradução, da escuta, da alimentação, do corpo e do deslocamento. A comunicação, nesse projeto, não aparece como técnica fria, mas como uma prática atravessada pela vida.
Já a professora Vângela Morais, decana do Curso de Jornalismo e também coordenadora do programa de extensão, recuperou a trajetória do curso e da universidade para situar a importância histórica da iniciativa. Ela lembrou que o curso de Jornalismo completa 35 anos em 26 de novembro de 2026 e que esse intervalo de décadas permite observar transformações importantes na relação entre universidade, povos indígenas e sociedade roraimense.
Para Vângela, nada melhor do que celebrar essa trajetória com uma iniciativa construída pela parceria entre saberes acadêmicos e saberes indígenas. Sua fala também trouxe à memória as manchetes recentes e dolorosas sobre a situação dos povos Yanomami e Ye’kwana, marcadas por crises humanitárias, invasão territorial, garimpo ilegal, adoecimento e violência. Diante desse cenário, a comunicação produzida pelos próprios comunicadores indígenas não é apenas desejável: é urgente.
A professora lembrou que a crise Yanomami ganhou maior evidência pública nos últimos anos, mas não começou quando virou manchete. Ela está ligada a um processo contínuo de ocupação, invasão e violência contra o território e as pessoas que lá habitam. Por isso, formar comunicadores indígenas é também fortalecer a capacidade de denúncia, documentação, mobilização e tradução política das comunidades. É permitir que a narrativa não chegue sempre atrasada, filtrada por olhares externos, muitas vezes incapazes de compreender a profundidade do que está em jogo.
O “por quê” do programa, portanto, aparece com nitidez: porque a comunicação comercial e institucional, sozinha, não tem dado conta de traduzir as cosmologias indígenas, defender a floresta e acompanhar as complexidades do território. Porque os povos indígenas não querem apenas ser entrevistados; querem produzir suas próprias imagens, seus próprios registros, seus próprios filmes, seus próprios textos, seus próprios arquivos. Porque narrar é também existir politicamente.
A Palavra da Floresta
O programa “A palavra que nasce na floresta” pretende trabalhar exatamente nesse ponto de encontro entre autonomia comunicacional e formação universitária. A metodologia alternada entre cidade e floresta reconhece que o conhecimento não está concentrado em um só lugar. A universidade oferece ferramentas, laboratórios, professores, estudantes, técnicas e repertórios. As comunidades oferecem território, memória, língua, cosmologia, experiência, urgência e horizonte ético. Quando essas dimensões se encontram sem hierarquia, a extensão universitária deixa de ser “atividade complementar” e passa a ser uma forma concreta de transformação institucional.

Para o CCJ, a iniciativa reposiciona o ensino de jornalismo diante de seus desafios contemporâneos. Em um tempo de desinformação, crise climática, violência territorial e disputas narrativas, formar jornalistas e comunicadores exige muito mais do que ensinar formatos. Exige discutir poder, escuta, autoria, representação e justiça comunicacional. O contato com comunicadores Yanomami e Ye’kwana pode ajudar estudantes a compreender que a pauta amazônica não é paisagem exótica, nem cenário distante, nem ilustração de relatório ambiental. É vida em disputa.
Para o PPGCOM, o programa reforça o compromisso com uma pós-graduação situada na Amazônia e atravessada por seus saberes. Ao participar da formação, o programa aproxima pesquisa, extensão e compromisso público. Também reafirma que os saberes indígenas não são objetos periféricos de estudo, mas campos legítimos de teoria, método e produção de conhecimento. Quando comunicadores indígenas entram na universidade, a universidade também precisa se perguntar que tipo de conhecimento está disposta a reconhecer.
Para a Hutukara Associação Yanomami, a formação amplia uma luta que já vem sendo travada em várias frentes: defesa do território, proteção da vida, denúncia do garimpo ilegal, valorização das línguas, fortalecimento das comunidades e circulação de narrativas próprias. A comunicação aparece aí como ferramenta estratégica, mas também como dimensão cultural. Não se trata apenas de aprender a manejar equipamentos; trata-se de fortalecer uma palavra que já existe na floresta e que agora também ocupa a universidade.
A presença de Dário Vitório Kopenawa e Aldernir Cadete Wapichana deu ao encontro duas linhas de força complementares. Dário trouxe a palavra Yanomami como espiritualidade, tradução e futuro. Aldernir trouxe a memória da comunicação indígena como registro de luta, denúncia e prova histórica. Entre os dois, aparece uma pedagogia poderosa para o jornalismo: comunicar é escutar o invisível e registrar o que não pode ser apagado.
Jornalismo como Prática de Aliança
A aula inaugural também foi um convite para os estudantes repensarem o próprio imaginário sobre a profissão. Jornalismo não é só correr atrás de aspas, fechar matéria, publicar rápido e disputar cliques. Jornalismo pode ser também uma prática de aliança. Pode ser uma forma de cuidar da memória coletiva. Pode ser um gesto de restituição. Pode ser uma escuta que não captura, mas acompanha. Pode ser uma técnica a serviço da autonomia de quem historicamente foi narrado por outros.
O evento respondeu, assim, às perguntas básicas do jornalismo de maneira clara e densa. O que aconteceu foi a aula inaugural de um programa de extensão voltado à formação de comunicadores indígenas Yanomami e Ye’kwana. Quem participou foram comunicadores indígenas, lideranças como Dário Vitório Kopenawa e Aldernir Cadete Wapichana, professores do CCJ e do PPGCOM, estudantes e representantes da Hutukara Associação Yanomami. O evento ocorreu no dia 30 de abril de 2026, às 18h, no Salão Nobre da Reitoria da UFRR, no campus Paricarana. Como: por meio de uma parceria entre universidade e organizações indígenas, com formação modular ao longo de três anos, alternando atividades na cidade e na floresta. Por quê: para fortalecer a autonomia comunicacional dos povos Yanomami e Ye’kwana, valorizar suas línguas e cosmologias, formar multiplicadores nas comunidades e disputar narrativas sobre floresta, território e vida.
Mas, para além do lead, há algo que só aparece quando a matéria respira um pouco mais. Naquela noite, a universidade não apenas abriu suas portas. Ela foi atravessada por outras presenças. A presença espiritual de Davi Kopenawa, evocada por Dário. A memória dos parentes feridos na Raposa Serra do Sol, lembrada por Aldernir. A força das mães que chegaram com seus bebês, lembrada por Lisiane. A trajetória de 35 anos do curso de Jornalismo, evocada por Felipe e Vângela. A construção de uma pós-graduação amazônica, sublinhada por José Tarcísio. E, sobretudo, a presença dos comunicadores indígenas que carregam, em seus corpos e línguas, a tarefa de fazer circular uma palavra que não nasceu para permenecer pequena.
“A palavra que nasce na floresta” não é só o nome de um programa. É uma imagem precisa do que aconteceu. A palavra nasce na floresta, atravessa rios, pistas, estradas, esperas, traduções e chega à universidade. Mas ela não chega para ser domesticada. Chega para ensinar outro ritmo, outro enquadramento, outra ética. Chega para lembrar que a comunicação pode ser câmera, microfone, texto, filme e rede social; mas também pode ser escuta, presença, sonho, língua, território e espírito.
Para estudantes de jornalismo, a lição é grande. Talvez uma das maiores da formação: antes de perguntar “qual é a pauta?”, é preciso perguntar “quem tem sido impedido de falar?”. Antes de editar a imagem, é preciso entender o mundo que ela carrega. Antes de publicar a notícia, é preciso saber se ela devolve dignidade ou se apenas repete a velha pressa de transformar a dor dos outros em conteúdo.
Na UFRR, no encontro entre CCJ, PPGCOM e organizações indígenas, a extensão universitária mostrou sua face mais viva. Não como ponte de mão única, em que a universidade leva conhecimento para fora, mas como caminho de ida e volta, onde a floresta também entra, ensina, desloca e transforma. E, nessa travessia, a palavra indígena não pede licença para existir. Ela chega, senta no Salão Nobre, fala em sua língua, traduz quando quer, lembra seus mortos, chama seus vivos e anuncia: a comunicação do futuro talvez comece exatamente ali, onde a floresta nunca deixou de falar.




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