Por entre a Floresta e a Universidade: UFRR lança formação inédita de comunicadores Yanomami com presença de Davi Kopenawa
- Amazoom

- há 2 dias
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Parceria entre CCJ, PPGCOM e organizações indígenas inaugura programa que une saberes acadêmicos e cosmologias da floresta para formar comunicadores Yanomami e Ye’kwana.

No dia 30 de abril, às 18h, no Salão Nobre da Reitoria da Universidade Federal de Roraima (UFRR), algo mais profundo do que uma aula inaugural vai acontecer. Nesse dia brota oficialmente o programa de extensão “A palavra que nasce na floresta”, uma iniciativa que pretende formar comunicadores indígenas Yanomami e Ye’kwana. O evento, que contará com a presença do Xamã Davi Kopenawa, responde a uma demanda histórica por autonomia narrativa dos povos originários e coloca a universidade no centro dessa travessia.
A proposta é direta, mas potente: formar, ao longo de três anos (2026–2028), seis comunicadores indígenas vindos de diferentes regiões da Terra Indígena Yanomami, em Roraima e no Amazonas. Mas o “como” revela a ousadia do projeto. A formação será dividida em módulos que alternam o tempo da cidade e o tempo da floresta – um modelo que rompe com a lógica acadêmica tradicional e reconhece que o conhecimento também pulsa fora da sala de aula.
Essa articulação não surge do nada. É fruto de uma aliança estratégica entre o Curso de Jornalismo (CCJ), o Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM) da UFRR e a Hutukara Associação Yanomami (HAY). Trata-se de uma engrenagem institucional e política que conecta universidade e território, teoria e prática, pesquisa e vivência. Aqui, o jornalismo deixa de ser apenas técnica e se torna ferramenta de disputa simbólica.
“O valor está na confluência”, aponta o coordenador do Curso de graduação em Jornalismo, Felipe Collar Berni. Não é apenas sobre ensinar a operar câmeras ou editar vídeos. É sobre garantir que esses comunicadores possam produzir e circular suas próprias narrativas, sem depender dos filtros, muitas vezes distorcidos, da mídia comercial. O “por quê” do projeto está exatamente aí: preencher um vazio histórico na representação das cosmologias indígenas.
Entre os participantes está Kátia Yanomami, da região do Demini. Sua fala sintetiza o espírito da iniciativa: aprender mais da comunicação, para ela, é aprender a defender. Defender a floresta, o território e o próprio povo. Em outras palavras, transformar linguagem em território de resistência.
A presença de Davi Kopenawa na aula inaugural não é apenas simbólica, é quase um manifesto. Reconhecido internacionalmente, ele encarna a ponte entre mundos que o programa busca consolidar: principalmente àquela entra da oralidade ancestral e a comunicação contemporânea.
Para quem está começando no jornalismo, fica o alerta: essa não é apenas uma pauta universitária. É um laboratório vivo sobre o futuro da comunicação – um futuro em que a pergunta não é só “quem conta a história?”, mas de onde essa história nasce e a quem ela serve.




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