Reunião aproxima territórios tradicional e do ensino para discutir mudanças na alimentação escolar indígena
- Amazoom

- há 4 dias
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Encontro na UFRR reuniu lideranças, projeto MerendaRR, da OPIRR e do STR visando fortalecer participação indígena em edital nacional e reconectar escola, comunidade e território.

Na sala 622 do Educanorte, Bloco VI da Universidade Federal de Roraima (UFRR), em Boa Vista-RR, a tarde de 17 de abril foi ocupada por uma conversa que misturava chão de terra, política pública e urgência educacional. Em torno da mesa, diferentes trajetórias se cruzavam com um objetivo comum: transformar a educação indígena a partir de dentro, com mais autonomia, articulação e presença comunitária.
A reunião problematizou a Chamada Educação para o Bem Viver 2026, iniciativa que busca fortalecer organizações indígenas e quilombolas na luta por equidade na educação. Mas o que poderia ser apenas mais um edital ganhou densidade nas vozes presentes, especialmente na de Esley Barroso Tenente, presidente da Organização dos Professores Indígenas de Roraima (OPIRR), que trouxe para o centro do debate um diagnóstico direto e inquietante.
Professor em exercício e liderança recém-eleita, Esley representa um movimento simbólico e político. Ele mesmo destacou o caráter inédito de sua posição: um educador que vive o cotidiano da sala de aula agora ocupa a presidência de uma organização que reúne cerca de dois mil professores indígenas em Roraima. Sua fala desenhou um cenário de desafios estruturais: escolas sem sede própria, perda gradual das línguas indígenas e um distanciamento crescente entre instituição escolar e comunidade.
“Fortalecer essa articulação entre escola e comunidade foi central na minha eleição”, afirmou Esley, ao lembrar que foram os próprios Tuxauas que o procuraram diante dessa ruptura.
O relato não veio como queixa isolada, mas como um chamado à reorganização coletiva. Foi nesse ponto que a contribuição da professora Leila Baptaglin, do Projeto MerendaRR, encontrou terreno fértil. Com olhar voltado à alimentação escolar como política estruturante, ela destacou a necessidade de preparar as comunidades para acessar editais como o PNAE e o próprio Fundo Casa. Mais do que incentivar a participação, sua fala apontou para desigualdades já existentes, como o maior número de contemplados em municípios específicos, resultado de apoio e divulgação mais consistentes.
Ao lado dela, o bolsista Heitor Magno acompanhava o encontro com atenção que ia além da escuta técnica. Sua percepção traduzia o impacto formativo daquele espaço: não se tratava apenas de produção de alimentos ou de preencher formulários, mas de construir autonomia e fortalecer redes locais. A experiência, ali, funcionava como aula viva.
Já a presença de Lúcia Glória Magalhães (Presidente do STR) revelava outra camada essencial da cena - a capacidade de mobilização. Foi por meio de sua articulação que o contato com Esley Tenente se concretizou, conectando universidade, sindicato e organização indígena. Sua atuação, discreta na forma, foi decisiva no resultado.
O debate avançou trazendo exemplos concretos dos territórios. Esley falou dos “retiros”, áreas produtivas nas comunidades onde a criação de animais já é consolidada, mas onde ainda há baixa diversidade agrícola, especialmente de hortaliças. Destacou também experiências promissoras, como a mobilização de jovens na Comunidade do Araçá e iniciativas como a Escola Viva, no Surumu, que integra ensino e comunidade de maneira mais orgânica.
A reunião seguiu sem formalidades excessivas, mas com densidade política. Ao final, um gesto simples sintetizou o encontro: Leila entregou o roteiro do edital a Esley, oferecendo apoio direto para que a OPIRR participe da Chamada Educação para o Bem Viver 2026. Não foi apenas a entrega de um documento, mas a abertura de um novo caminho possível.

Tais encontros revelam mais do que encontros institucionais. Mostram como boas práticas podem nascer de processos silenciosos, onde articulação, escuta e território se entrelaçam. E talvez seja justamente aí que reside sua força: na capacidade de transformar conversa em ação e ação em futuro.




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