• Lai Dantas

“Sou uma fraude”: Por que a Síndrome da Impostora é comum entre as mulheres?

Atualizado: Mar 19

Lai Dantas e Mônica Gizele


Como explica a professora e socióloga Andréa Vasconcelos, isso se deve à forma como a sociedade vem diferenciando os gêneros ao longo do tempo, estabelecendo “o que é coisa de mulher e o que é coisa de homem”.

Foto: Istockphoto

“Já recebi propostas profissionais incríveis e não me dei sequer a chance de tentar, por achar que não seria capaz. Recusei todas após receber o convite. Pensava que de alguma forma eu não era merecedora e digna. Então, para me poupar da vergonha quando descobrissem que se equivocaram e que eu era uma fraude, eu recusava com antecedência”.

Larissa Gonçalves é jornalista e publicitária. Fluente em dois idiomas, já atuou como repórter, apresentadora de TV, e hoje trabalha como cerimonialista em uma das maiores entidades privadas de apoio a micro e pequenas empresas do país. Ainda assim, como Michelle Obama, Emma Watson e outras mulheres bem-sucedidas profissionalmente, ela não escapou de se sentir uma impostora.


“Isso faz parte da minha trajetória profissional até hoje. Vejo ela presente em inúmeros momentos em que eu tive oportunidades que julguei boas demais para mim e recusei todas. Na época eu não tinha consciência de que essa síndrome existia”, acrescentou.


O termo Síndrome do Impostor foi utilizado pelas psicólogas americanas Pauline Clance e Suzanne Imes em 1978 para definir o conjunto de sintomas, incluindo baixa autoestima e autoexigência, que afetava indivíduos que não conseguiam reconhecer sua competência para exercer determinados cargos e funções. Em vez disso, se sentiam uma fraude.

Andréa Vasconcelos, professora e socióloga, fala sobre a Síndrome da Impostora.


No entanto, embora até hoje qualquer pessoa esteja sujeita a passar por esse problema, ele acomete, predominantemente, as mulheres. Como explica a professora e socióloga Andréa Vasconcelos, isso se deve à forma como a sociedade vem diferenciando os gêneros ao longo do tempo, estabelecendo “o que é coisa de mulher e o que é coisa de homem” através de suas normas e estereótipos:


“O mundo do trabalho é dividido entre produtivo e reprodutivo, ou doméstico. O trabalho produtivo, de preferência dos homens, vale mais, enquanto o trabalho doméstico, de preferência das mulheres, vale menos. É um trabalho gratuito, sem reconhecimento social e sem valor na sociedade. Uma de suas características é que ele é realizado como se fosse o destino das mulheres. Ele é naturalizado, é uma obrigação. Sem tempo para acabar e solitário”.


De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), as mulheres roraimenses continuam sendo as principais responsáveis pelos afazeres domésticos. Dedicam 18,7 horas semanais nos cuidados com o lar, em comparação a 11,2 horas por parte dos homens. A nível nacional, essa desigualdade sobe praticamente o dobro: 21,4 horas contra 11 horas por semana.

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As mulheres têm dupla, tripla jornada. Estamos nos piores empregos, com os menores salários, sem direitos. E junto a isso, com as responsabilidades domésticas. O resultado é que as mulheres não têm tempo. Não têm tempo para fazer política e para desenvolver novas capacidades, então as desigualdades se estendem para outros campos”, explicou Andréa.


A pesquisa Estatísticas de Gênero: Indicadores sociais das Mulheres do Brasil, divulgada na última semana (5) pelo IBGE, confirma. Em 2020, as mulheres brasileiras eram 14,8% dos deputados federais, a menor proporção da América do Sul e o 142° lugar em um ranking com 190 países.


Em Roraima, esse número é ainda menor. Na Câmara dos Deputados, apenas 25% das cadeiras a que o estado tem direito estão preenchidas por mulheres. Além disso, em 2020, das 157 cadeiras distribuídas pelos 15 municípios do estado, 134 foram ocupadas por homens. Isso significa dizer que, de todos os vereadores eleitos e reeleitos, as mulheres responderam por apenas 14,6%.


“Existe um pensamento enraizado em nossa sociedade, sobre o que se espera de uma mulher. Definitivamente, não é que elas estejam no mercado de trabalho ou liderando equipes. Quando se fala de um homem, socialmente, não existem cobranças tão grandes quanto a quando se referem a nós”, concluiu Larissa.


Não por acaso, um estudo da Universidade Estadual da Geórgia, nos Estados Unidos, apontou que mulheres tendem a atribuir suas conquistas a fatores passageiros ou externos, como sorte, e o insucesso, à falta de habilidades para desempenhar funções. Já os homens, atribuem o sucesso a suas competências, e as derrotas, a contratempos e problemas no trabalho.

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Para Andréa, a Síndrome da Impostora acaba sendo uma das consequências de uma sociedade que sempre desencorajou a mulher em seu processo de sociabilidade, desde a infância dando a ela o papel de “princesa doce e frágil à espera de um príncipe”, destruindo sua autoestima e criando o estereótipo de que mulheres não têm capacidade suficiente para estarem no mercado de trabalho.


“Passamos a vida inteira ouvindo ‘você não pode’. Não pode sair sozinha, não pode se vestir ‘assim’, não pode exagerar, não pode beber, não poder isso, não pode aquilo. Os impactos dessa socialização tão desigual têm reflexos por toda a nossa vida”, finalizou a professora.

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