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Projeto do Amazoom sobre comunicação indígena na Pan-Amazônia é recomendado em chamada de Bolsas Produtividade do CNPq

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    Amazoom
  • há 2 dias
  • 3 min de leitura

Resultado preliminar da Chamada CNPq nº 23/2025 reconhece proposta do professor Vilso Junior Santi, em seleção nacional que marca os 50 anos das bolsas de produtividade e aponta renovação na pesquisa brasileira.

A Região Norte ainda é a que menos Bolsistas Produtividade tem no país, com 3,5% das bolsas concedidas. Fonte: CNPq.
A Região Norte ainda é a que menos Bolsistas Produtividade tem no país, com 3,5% das bolsas concedidas. Fonte: CNPq.

O resultado preliminar da chamada de Bolsas de Produtividade do CNPq trouxe uma boa notícia para a pesquisa em Comunicação feita a partir da Amazônia. A proposta Por uma outra Comunicologia possível: análise das Práticas Comunicacionais do Movimento dos Povos Indígenas na Pan-Amazônia”, coordenada pelo Prof. Dr. Vilso Junior Santi, da Universidade Federal de Roraima (UFRR), foi aprovada no processo de avaliação da Chamada CNPq nº 23/2025. O professor atua no Curso de Jornalismo, no Programa de Pós-graduação em Comunicação da UFRR, no Doutorado em Rede em Educação na Amazônia (PGEDA) e coordena o AMAZOOM – Observatório Cultural da Amazônia e do Caribe.


A chamada contempla as modalidades Produtividade em Pesquisa (PQ), Produtividade em Pesquisa Sênior (PQ-Sr) e Desenvolvimento Tecnológico e Extensão Inovadora (DT). Segundo informações do próprio CNPq, o edital busca valorizar pesquisadores com produção científica, tecnológica e de inovação de destaque, além de incentivar a produção de conhecimento de qualidade no país.

No cenário nacional, o resultado preliminar aponta que 1.666 pesquisadores deverão receber uma bolsa de produtividade pela primeira vez, o que representa uma renovação de cerca de 30% entre os selecionados. Entre esses novos bolsistas, 43% são mulheres, percentual superior à participação feminina global da chamada. A seleção teve mais de 15 mil candidaturas, taxa preliminar de contemplação de 38% da demanda bruta e oferta de ao todo 5.707 bolsas, com início previsto para agosto de 2026.

 

O Projeto


Conforme o Prof. Dr. Vilso Junior Santi, o projeto recomendado propõe mapear práticas comunicativas de quatro organizações indígenas, organizar um acervo digital e desenvolver um sistema de geolocalização de referências sobre etnocomunicação. A pesquisa pretende analisar como essas práticas ajudam a construir uma “outra comunicologia possível”, decolonial, situada e enraizada nos territórios. O estudo considera diferentes níveis de representação indígena (local, regional, nacional e internacional) e prevê como campo empírico organizações como o Conselho Indígena de Roraima (CIR), a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB), a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) e a Coordenadoria das Organizações Indígenas da Bacia Amazônica (COICA).

A proposta parte de uma pergunta que interessa diretamente a quem estuda Jornalismo e Comunicação: que teorias nascem quando os povos indígenas deixam de ser apenas “fontes” e passam a ser reconhecidos como produtores de conhecimento, narrativas, estratégias e mundos comunicacionais próprios? Em vez de olhar para a comunicação indígena como detalhe folclórico ou objeto periférico, o projeto a coloca no centro do debate. A ideia é compreender a etnocomunicação como prática de resistência cultural, afirmação identitária e produção de pensamento.

Nos pareceres de avaliação, a proposta foi reconhecida por sua relevância, originalidade e caráter inovador. Eles destacaram que o proponente já vem atuando há mais de uma década em uma universidade do Norte do país e tem se dedicado a um tema de importância (ao mesmo tempo) regional e universal: os povos originários e suas singularidades culturais. Os pareceres também ressaltam que o projeto articula objeto empírico consistente, fundamentação decolonial, transmetodologia, cartografia e autores indígenas, o que reforça seu mérito acadêmico e social.

 

Peso institucional


A recomendação também tem peso institucional. Ela sinaliza o fortalecimento da pesquisa em Comunicação desenvolvida na UFRR e confirma a importância de produzir ciência desde a Amazônia, não apenas sobre a Amazônia. Para estudantes e pesquisadores, a notícia funciona quase como uma aula aberta: mostra que pesquisar comunicação não é apenas estudar mídia, plataforma ou audiência, mas também escutar territórios, acompanhar movimentos sociais, reconhecer epistemologias silenciadas e entender que cada povo carrega seus próprios modos de narrar o mundo.



Mas é preciso ter cuidado. O resultado divulgado ainda é preliminar e está sujeito à fase de reconsiderações. Além disso, aparecer na lista significa que a proposta foi aprovada ou recomendada na avaliação, mas ainda é necessário observar a distribuição orçamentária final de cada Comitê de Assessoramento para confirmar a implementação efetiva da bolsa


Porém, em um país onde a ciência muitas vezes nasce longe dos grandes centros, a aprovação preliminar do projeto acende uma luz sobre Roraima. Não uma luz de vitrine, mas de caminho. Daquelas que ajudam a enxergar que a universidade pública, quando olha para o seu chão, pode produzir conhecimento com raízes fundas e alcance internacional. A partir da Pan-Amazônia, a pesquisa propõe justamente isso: uma comunicologia outra, capaz de ouvir rios, assembleias, redes digitais, línguas, memórias, territórios e povos que há muito tempo comunicam – antes mesmo de a academia pensar em a escutá-los.

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