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Escritoras Brasileiras: o protagonismo e a resistĂȘncia feminina na literatura nacional

  • Foto do escritor: WebJor
    WebJor
  • 3 de nov. de 2019
  • 7 min de leitura

Atualizado: 3 de nov. de 2019


Por Glenda Dinelly*


Na Ășltima terça-feira (31) foi comemorado o Dia Nacional do Livro, data que celebra a criação da Biblioteca Nacional do Livro em 1810, pela Coroa Portuguesa. De lĂĄ pra cĂĄ, milhĂ”es de livros jĂĄ foram escritos e publicados aqui no Brasil. No entanto, ao falarmos sobre literatura devemos fazer uma breve reflexĂŁo:


· Em um ano, quantos livros vocĂȘ leu?

· Desses livros, quantos foram escritos por mulheres?

Essas duas perguntas trazem problemåticas sociais enraizadas na cultura nacional. A primeira é que boa parte da população brasileira não tem o håbito de leitura ou não frequenta bibliotecas com assiduidade.


De acordo com dados da CĂąmara dos Deputados (2019), hoje existem 6.057 bibliotecas pĂșblicas, ou seja, 95% dos municĂ­pios brasileiros tĂȘm bibliotecas. No entanto, a questĂŁo problemĂĄtica mais profunda disso Ă© quanto Ă  qualidade, acesso, orçamento e espaços adequados para o pĂșblico. Ou seja, mesmo com um nĂșmero significativo de bibliotecas, boa parte da população ainda nĂŁo tem acesso a elas, em decorrĂȘncia da falta de qualidade e incentivo.


Outra problemåtica encontrada é que além da falta de håbito de leitura*, as mulheres ainda constituem-se uma parcela pouco expressiva entre os autores mais lidos no Brasil. Um livro escrito por uma mulher costuma receber menos financiamento, e em geral custa mais barato que um escrito por um homem.


* (para ser considerado um leitor habitual, em um prazo de trĂȘs meses ao menos um livro deve ser lido)

Invisibilidade Feminina na Literatura


Em nĂșmeros, a Academia Brasileira de Letras, por exemplo, dos seus quarenta membros vitalĂ­cios, apenas cinco sĂŁo mulheres, sĂŁo elas: Ana Maria Machado, Cleonice Berardinelli, Rosiska Darcy de Oliveira, Lygia Fagundes Telles e NĂ©lida Piñon.


Entre os 111 ganhadores do PrĂȘmio Nobel de Literatura atĂ© hoje, apenas 13 foram mulheres. O Nobel Ă© concedido aos escritores considerados como os mais notĂĄveis em sua ĂĄrea de atuação a serem laureados com o prĂȘmio.


Um dos livros mais vendidos da histĂłria, Harry Potter, escrito por Joanne Rowling, que atĂ© hoje sĂł Ă© conhecida pela abreviação, J.K Rowling. Na Ă©poca a editora Bloomsbury achou que um livro que conta uma histĂłria de fantasias nĂŁo seria bem aceito, se fosse escrito por uma mulher. Sem contar que a escolha do personagem principal (Harry Potter) se deu pelo mesmo motivo. Para a editora da Ă©poca, uma bruxinha nĂŁo faria tanto sucesso quando um garoto bruxo, assim, Harry conquistaria todos os pĂșblicos, meninos e meninas.


Diante desse cenĂĄrio, podemos pensar em uma luz no fim do tĂșnel. Autoras que desafiaram seu tempo, sua sociedade e fizeram da palavra escrita o seu sĂ­mbolo de resistĂȘncia, arte, subjetividade e resiliĂȘncia.


Algumas escritoras Brasileiras – Clássicas e contemporñneas

Arte: Glenda Dinelly

AdĂ©lia Luiza Prado de Freitas, ou AdĂ©lia Prado, nascida em 1935, poetisa e escritora brasileira, alĂ©m de professora. Suas obras estĂŁo ligadas ao modernismo, e Ă© considera uma das maiores escritoras brasileiras do sĂ©culo XX. Sua obra Ă© marcada pela valorização do feminino e mulher como ser pensante. Seus primeiros versos sĂŁo escritos em 1950, apĂłs a perda da mĂŁe. As dĂ©cadas posteriores sĂŁo marcadas por diversos escritos, contos, poesias e peças. Entre os diversos trabalhos e prĂȘmios, destacam-se o livro O Coração Disparado (1978), obra da qual AdĂ©lia recebeu o PrĂȘmio Jabuti. Em 1988 a escritora participou da Semana Brasileira de Literatura em Nova Iorque. Em 2014 recebeu do governo brasileiro a Ordem do MĂ©rito Cultural.


Carolina Maria de Jesus, nascida em 1914, que apesar da vida difĂ­cil como catadora de lixo, negra e mĂŁe de trĂȘs filhos escreveu livros que se tornaram best-sellers. Quarto de Despejo, Pedaços de Fome e Casa de Alvenaria estĂŁo entre as obras mais aplaudidas. Infelizmente a escritora morreu no ostracismo e sĂł teve seu trabalho reconhecido e traduzido para 14 idiomas apĂłs sua morte.

Cora Coralina era seu pseudĂŽnimo, seu nome de batismo era mesmo Ana Lins do Guimaraes Peixoto BrĂȘtas, a Aninha para os mais prĂłximos ou como gostava de ser chamada. Nascida em 1889, em GoiĂĄs, e que apesar de nĂŁo ter concluĂ­do o ensino bĂĄsico, suas histĂłrias, narrativas e contos eram traçados por elementos folclĂłricos, concedendo a Cora criaçÔes com qualidade literĂĄria Ășnica. Cora tinha talento, mesmo com as dificuldades encontradas apĂłs a morte de seu marido, obrigando-a vender doces em 1934 para manter a casa e os filhos. Aos 16 anos teve sua primeira crĂŽnica publicada no Jornal Tribuna EspĂ­rita (RJ), porĂ©m sĂł teve suas obras reconhecidas pelo grande pĂșblico aos 70 anos de idade. Em 1983, Cora recebeu o tĂ­tulo de Doutor Honoris Causa da Universidade Federal de GoiĂĄs, alĂ©m dos prĂȘmios Juca Pato e condecoração de Ordem ao MĂ©rito Cultural, em 2006. A escritora faleceu aos 95 anos, em 1985.


Saber Viver


NĂŁo sei
 se a vida Ă© curta

ou longa demais para nós. Mas sei que nada do que vivemos tem sentido, se não tocarmos o coração das pessoas.

Muitas vezes basta ser: colo que acolhe, braço que envolve, palavra que conforta, silĂȘncio que respeita, alegria que contagia, lĂĄgrima que corre, olhar que sacia, amor que promove.

E isso nĂŁo Ă© coisa de outro mundo: Ă© o que dĂĄ sentido Ă  vida.

É o que faz com que ela não seja nem curta, nem longa demais, mas que seja intensa, verdadeira e pura
 enquanto durar.


- Cora Coralina


Chaya Pinkhasovna Lispector, ou Clarice Lispector, nascida na UcrĂąnia, em 1920, mas carregava consigo o sotaque do nordeste, afinal, sua famĂ­lia mudara-se para Recife quando a escritora tinha apenas cinco anos de idade. Clarice dominava sete idiomas, dos quais traduziu pelo menos 35 obras de gĂȘneros e autores diferentes. Trabalhou como jornalista em diversas revistas ao longo de sua carreira. Publicou dezenas de livros, entre eles, suas obras mais famosas sĂŁo, Perto do Coração Selvagem, Água Viva, A Hora da Estrela e Laços de FamĂ­lia.



Arte: Glenda Dinelly


Cecília Meireles, nascida em 1901, atuou como escritora, poetisa, pintora e jornalista, além da profissão de professora. Publicou ao longo de sua vida cerca de 50 obras. Seu primeiro livro de poemas Espectros (1919) contém 17 sonetos.


Fernanda Maria Young de Carvalho Machado, ou simplesmente Fernanda Young, nascida em 1970, alĂ©m de atriz, tambĂ©m era escritora e roteirista. Cursou Letras, Jornalismo, RĂĄdio & TelevisĂŁo e Artes PlĂĄsticas, porĂ©m nĂŁo terminou nenhuma das graduaçÔes. Ao mudar-se para SĂŁo Paulo, a escritora (profissĂŁo que gostava de ser denominada, dizia ela em diversas entrevistas), começou a escrever seus primeiros textos. Entre suas obras mais conhecidas estĂŁo A ComĂ©dia da Vida Privada (1995), Vergonha dos PĂ©s (1996), participação no roteiro do quadro O Supersincero (2005) do programa FantĂĄstico, e do seriado Minha Nada Mole Vida (2006). Suas obras mais conhecidas, sĂŁo os roteiros escritos dos programas de TV Os Normais, Os Aspones, Como Aproveitar o Fim do Mundo e Vade Retro, da Rede Globo. Consagrou-se como escritora feminista e roteirista durante sua carreira, atĂ© a sua morte sĂșbita em 2019. Sua obra Ă© cercada por sarcasmo, ironia e acidez, com textos inteligentes.


Fernanda finaliza nossa curta lista entre as centenas de mulheres que escreveram, escrevem e perpetuam a escrita através de seus contos, textos, crÎnicas, poesias, roteiros e peças para o teatro. Além das citadas autoras, podemos encontrar outras grandes escritoras brasileiras:


Ana Maria Machado, Cleonice Berardinelli, Ana Cristina Cesar, Alice Ruiz, Ana Miranda Marina Colassanti, Rachel de Queiroz, Zélia Gattai, Nélida Piñon, Elvira Vigna, Cíntia Moscovich, Veronica Stigger, Andréa del Fuego, Carol Bensimon e Luisa Geisler.


Escritoras de Roraima


Importante dizer que em Roraima, temos como importante escritora e jornalista, NenĂȘ Macaggi, que jĂĄ foi assunto aqui do Rede Amazoom. Maria Macaggi, escrevia sobre o cotidiano de sua Ă©poca, como em a Mulher do Garimpo. Apesar de nascida em 1913, no ParanĂĄ, a autora era considerada Roraimense de coração. Entre suas obras estĂŁo, crĂŽnicas, contos e romances. Hoje a escritora dĂĄ nome Ă  biblioteca pĂșblica central de Roraima, PalĂĄcio da Cultura NenĂȘ Maccagi.


Eli Macuxi, nascida em 1973, em SĂŁo Paulo. Professora de HistĂłria da Arte na Universidade Federal de Roraima, no curso de Artes Visuais. O interesse de suas obras Ă© contextualizado a partir do feminismo, gĂȘnero e sexualidade. Ela atualmente mantem seu blog ativo, cujas obras sĂŁo escritas em elimacuxi hĂĄ pelo menos 10 anos.


Clube de leitura Leia Mulheres em Roraima


(Foto: Primeiro ano do clube/Arquivo pessoal)
(Foto: primeiro ano do 'Leia Mulheres' em Boa Vista /Arquivo pessoal)

Em 2014, buscando trazer mais visibilidade para mulheres que escrevem, a escritora Joanna Walsh criou o projeto #readwomen2014 (#leimulheres2014). A ideia era que as pessoas lessem mais mulheres. Uma vez que o mercado de publicaçÔes, divulgação e edição de livros feitos por escritoras nĂŁo recebiam o reconhecimento justo e adequado pelo mercado editorial, pĂșblico leitor e sociedade em geral.



A ideia inicial foi criando forma, e por fim, em 2015 tornou-se em um clube do livro, que hoje jĂĄ conta com mediadoras em mais de 100 cidades brasileiras.


Em Boa Vista, o clube de leitura Leia Mulheres começou em dezembro de 2015. Ao todo jĂĄ foram lidos e debatidos 47 livros, e a cada mĂȘs um novo livro Ă© discutido, segundo a coordenadora e mediadora local, Jayne ThomĂ©.


A coordenadora local, concedeu uma entrevista ao Rede Amazoom, explicando um pouco sobre o Leia Mulheres, confira:


33°Encontro do Leia Mulheres Boa Vista Livro: Inia - Uma aventura amazÎnica, de Marcela Monteiro/ Arquivo Pessoal

Rede Amazoom: Por que ler mulheres? Por que o engajamento na causa? De que forma ler livros escritos por mulheres pode ser diferencial na sociedade? Fale sobre a importùncia dessa articulação.

Jayne ThomĂ©: Bem, o Leia inicialmente surgiu por causa dessa preocupação com a ocupação de um espaço predominantemente ocupado por homens. Se vocĂȘ perceber, muitas obras escritas por mulheres foram originalmente publicadas com um pseudĂŽnimo masculino, de forma que fossem mais bem aceitas. EntĂŁo, apoiar a escrita de mulheres Ă© uma forma de tentar ocupar esses espaços, especialmente dentro de um mercado editorial que ainda Ă© muito restrito. AlĂ©m disso, eu vejo a literatura de forma geral como uma ferramenta de empatia, de se colocar no lugar do personagem e entender o que ele sente, o que ele estĂĄ passando. Lendo mulheres, nĂłs temos a oportunidade de apreciar personagens diferentes, ver um mundo diferente, ter uma perspectiva a partir do olhar de uma pessoa que teve experiĂȘncias diferentes daquelas que os autores homens tiveram. EntĂŁo, mesmo para o leitor que nĂŁo estĂĄ preocupado com causas sociais, acaba sendo benĂ©fico porque ele tem acesso a um mundo na escrita que Ă© diferente do qual ele estĂĄ acostumado.


Rede Amazoom: Jayne, qual Ă© o pĂșblico que frequenta e participa do clube?

Jayne ThomĂ©: O clube Ă© voltado para homens e mulheres. Recebemos um nĂșmero maior de mulheres, creio que entre 25-35, em mĂ©dia.


Rede Amazoom: AlĂ©m das leituras, vocĂȘs promovem outros tipos de encontros ou eventos?

Jayne Thomé: Não, apenas os encontros para debate mesmo.


Rede Amazoom: Qual foi o livro que vocĂȘ mais gostou de ler e debater?

Jayne ThomĂ©: Sem dĂșvidas foi O Conto da Aia, ainda hoje Ă© um dos meus preferidos de todos os tempos.


Rede Amazoom: Faça um convite aos leitores do Rede Amazoom para conhecer o Leia Mulheres.

Jayne Thomé: A participação no clube é gratuita, é só ler o livro e comparecer. Se não conseguir ler a tempo, não tem problema, as portas continuam abertas! As discussÔes são muito proveitosas e divertidas, todos estão convidados.


Escritoras brasileiras jĂĄ lidas pelo Leia Mulheres em Roraima:


Ana Cristina César

Lygia Fagundes Telles

Zenny Adairalba

Daniela Arbex

Maria Valéria Rezende

Débora Noal

Hilda Hilst

Marcela Monteiro (roraimense)

Raquel de Queiroz

Noemi Jaffe

Aline Bei

Helena Lopes (roraimense)


O próximo encontro do Leia Mulheres em Boa Vista acontecerå no dia 24 de novembro e o livro escolhido serå Amada, de Toni Morisson. Mais informaçÔes podem ser encontradas no Instagram do Clube @leiamulheresboavista




* Glenda Dinelly Ă© estudante de jornalismo da Universidade Federal de Roraima e atualmente cursa o 5Âș semestre. Instagram: @glenda__________

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