“Boas Notícias”: Evento na UFRR marca o lançamento do primeiro Manual de Redação do Jornalismo Indígena no Brasil
- Amazoom

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Publicado pela Abrinjor, o Poranga Marandúa será apresentado em 20 de agosto, na UFRR, com orientações para que redações e universidades superem estereótipos e reconheçam os povos indígenas como autores de suas próprias narrativas.

Na noite de 20 de agosto, uma expressão em Nheengatu atravessará as portas da Universidade Federal de Roraima carregando um recado para o jornalismo brasileiro. Poranga Marandúa, que significa “Boas Notícias”, é o título do primeiro Manual de Redação do Jornalismo Indígena do Brasil, cujo lançamento em Roraima será realizado às 18h30, no Auditório do PPGSOF/UFRR, em Boa Vista.
O encontro é promovido pelo Curso de Jornalismo e pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFRR (PPGCOM), em parceria com a Articulação Brasileira de Indígenas Jornalistas (Abrinjor). A atividade reunirá estudantes, professores, pesquisadores, comunicadores e representantes indígenas para conversar sobre ética, direitos, território e protagonismo na produção das notícias.
A publicação chega à universidade como quem abre uma janela em uma redação abafada. Mais do que apresentar regras de escrita, o manual propõe outra maneira de compreender o jornalismo: uma prática atravessada pela ancestralidade, pelo cuidado com a palavra, pela responsabilidade coletiva e pelo respeito aos tempos e às formas de organização de cada povo.
Com 124 páginas, o Poranga Marandúa reúne orientações sobre o uso adequado de conceitos, a consulta às organizações indígenas, a proteção de fontes e personagens, o direito à imagem, o respeito aos territórios, a grafia dos nomes dos povos e o combate a expressões, gestos e representações racistas. A obra também recupera a história do movimento indígena e acompanha os caminhos da comunicação, da oralidade ancestral às redes digitais.
Uma das vozes que conduzirá o lançamento é a da jornalista Adriã Galvão, do povo Baré, mestra em Comunicação e egressa do Curso de Jornalismo da UFRR. Adriã integra a Coordenação de Iniciativas e Projetos da Abrinjor e destaca que o manual deve circular muito além dos espaços ocupados por comunicadores indígenas.
“Ele é mais do que um manual. É um documento que deve se tornar referência nas universidades, nas redações e nas repartições públicas e privadas que trabalham com comunicação, especialmente para quem atua diretamente com os povos indígenas. Não dá mais para errar. Estamos apresentando orientações para que esse trabalho seja realizado de maneira ética e respeitosa”, afirma.

O manual nasceu do 1º Encontro de Indígenas Jornalistas do Brasil, realizado em abril de 2025, em Brasília. Na ocasião, 25 integrantes da Abrinjor, vindos de diferentes regiões e biomas, encontraram-se para trocar experiências e definir os pontos fundamentais da publicação. Um grupo de trabalho sistematizou o conteúdo, posteriormente debatido e validado pela rede, formada por 68 integrantes de 46 povos.
Criada no final de 2023, a Abrinjor articula indígenas jornalistas e estudantes de Jornalismo de todas as regiões do país. A rede surgiu da necessidade de enfrentar o isolamento, o racismo e as diferentes formas de violência ainda encontradas nas universidades, nas redações e em outros espaços profissionais da comunicação.
“Nós vivemos durante muito tempo com a imagem dos povos indígenas sendo construída por pessoas não indígenas. Este é um movimento de retomada dos nossos modos de narrar, das nossas histórias e das nossas vivências. Ninguém melhor para falar sobre nós do que nós mesmos”, explica Adriã.
Essa retomada também movimenta uma disputa fundamental: deixar de tratar os povos indígenas apenas como personagens ocasionais das notícias e reconhecê-los como jornalistas, pesquisadores, fontes especializadas e produtores de conhecimento. O manual contesta a falsa neutralidade que, durante décadas, permitiu à imprensa repetir termos inadequados, silenciar vozes e alimentar a imagem de um indígena genérico, parado em algum século distante.
No Poranga Marandúa, o território também é compreendido como espaço de formação. Se a universidade ensina técnicas e teorias, é na comunidade, na escuta dos mais velhos, nos cantos, nos grafismos, nos rituais e nas relações com a terra que muitos comunicadores indígenas encontram os princípios que orientam seu trabalho.
Para Adriã, apresentar o manual na UFRR possui ainda um significado afetivo. É um retorno ao lugar onde realizou a graduação e o mestrado, agora trazendo uma publicação construída pelas próprias mãos, vozes e experiências de indígenas jornalistas.
“É uma honra voltar para a Universidade Federal de Roraima, que foi minha casa durante a graduação e o mestrado. Esse retorno também é uma forma de devolver algo à universidade que me formou e acolheu tantos outros indígenas jornalistas. Estamos aqui para conversar sobre mundos possíveis, reencantar a universidade e reflorestar o jornalismo brasileiro”, declara.
O verbo “reflorestar”, nesse caso, não aparece por acaso. A proposta é ocupar os antigos latifúndios narrativos com outras sementes, outras fontes e outras formas de contar o Brasil. Como afirma o lema da Abrinjor, recuperado no manual:“Nunca mais um jornalismo sem a nossa presença.”
Em Roraima, onde diferentes povos, línguas e territórios fazem parte da vida cotidiana, o lançamento ganha uma importância especial. A iniciativa aproxima a formação universitária das experiências dos comunicadores indígenas e oferece aos futuros jornalistas uma referência para produzir notícias sem apagar identidades, generalizar culturas ou transformar direitos em concessões.
Quando o Poranga Marandúa chegar ao auditório da UFRR, portanto, não virá sozinho. Trará consigo a memória dos que abriram os primeiros caminhos, as vozes dos que agora ocupam as redações e a esperança daqueles que ainda ingressarão na universidade. Serão boas notícias, como anuncia seu nome, mas também um aviso: o jornalismo brasileiro só poderá contar verdadeiramente este país quando aprender a escutar todos os povos que vivem nele.
Serviço
O quê: lançamento em Roraima do Poranga Marandúa – Manual de Redação do Jornalismo Indígena
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Quando: 20 de agosto de 2026, quinta-feira, às 18h30
Onde: Auditório do PPGSOF/UFRR
Endereço: Travessa Pequim, nº 1, bairro Aeroporto, Boa Vista (RR)
Evento gratuito
Realização: Curso de Jornalismo, PPGCOM - UFRR e Abrinjor.




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