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Análise aponta persistência de rumores sobre eficácia de ivermectina e cloroquina contra Covid-19

Atualizado: 3 de mai.

Medicamentos fazem parte do chamado "Kit Covid" e são ineficazes contra a Covid-19

Fonte: Dirceu Portugal/Fotoarena / Agência O Globo

Divulgada nesta segunda-feira (25), a nova edição de cards informativos do projeto Enraizado na Confiança 2.0 da Internews revela persistência de rumores que apontam eficácia da ivermectina e cloroquina no tratamento e prevenção da Covid-19.


A análise foi realizada no mês de fevereiro em redes sociais dos estados do Amapá, Pará e Roraima. Conforme o levantamento, palavras como “cloroquina”, “ivermectina”, “defender”, “vacina” e “experimento” formam um grupo de termos que são usados juntos com bastante frequência nos estados focos do estudo.


“Para algumas pessoas pode ser uma surpresa porque parece que esse assunto já foi superado há muito tempo, mas, na verdade, ele continua sendo um ponto repetido, discutido e muitas vezes tomado como um consenso em alguns grupos que continuam acreditando que esse medicamento [ivermectina] é eficaz contra a Covid-19”, explicou João Bastos, analista de dados do Enraizado na Confiança.


De acordo com João Bastos, para entender a insistência em se alardear esses medicamentos como formas de prevenir ou tratar COVID-19, mesmo quando já há estudo que atestam a ineficácia de ambos e que existem riscos na utilização de forma indiscriminada, é preciso se colocar no lugar dessas pessoas.


"Na maioria das vezes elas moram em lugares sem acesso a saúde ou informação de qualidade e que confiam na experiência de um vizinho, parente ou amigo que tomou cloroquina e ivermectina e assim como as pessoas que não tomaram nada, acabaram melhorando da COVID-19. Isso é mais palpável para elas do que um discurso científico que parece um pouco abstrato e distante da realidade dessas pessoas. Então por mais que a gente defenda e siga o consenso científico é importante a gente pensar em como fazer com que isso faça sentido para essas pessoas também", relatou.


Além de analista de dados no Enraizado na Confiança, João Bastos possui doutorado em Comunicação, com foco em Desinformação, pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Ele atua ainda como pesquisador pós-doc no Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital (INCT.DD).


Segundo o pesquisador, rumores envolvendo cloroquina e ivermectina relacionadas à Covid-19 são uma característica essencialmente brasileira. Ele explica que, apesar desses medicamentos aparecem em alguns rumores em outros países, apenas no Brasil ele possui tanta força.


“A gente não vê isso em nenhum outro lugar. A gente vê um pico muito pequenininho na França quando um cientista francês diz que a cloroquina vai curar a Covid-19, mas isso cai rapidamente. Depois quando o Trump fala nos Estados Unidos isso cresce um pouquinho também. A Índia por ser uma grande produtora farmacêutica teve alguma especulação, mas em nenhum outro país a gente teve o que tivemos no Brasil", contou.


VENDA DO 'KIT COVID' EM QUEDA

O Conselho Federal de Farmácia (CFF) tem monitorado junto com a consultoria IQVIA a comercialização de medicamentos sem eficácia comprovada contra a COVID-19. Conforme os dados, a venda de ivermectina e hidroxicloroquina no Brasil apresentou queda (-61% e -42%, respectivamente) entre novembro de 2021 e janeiro de 2022 em relação ao mesmo período do ano anterior, quando houve uma explosão nas vendas (921% e 135%, respectivamente).


No entanto, o consumo desses medicamentos ainda não voltou nem perto aos patamares pré-pandemia, indicativo de que continuam sendo utilizados para a COVID-19 mesmo sem terem eficácia comprovada.


Chama atenção, particularmente, o caso de Roraima, onde a redução nas vendas de hidroxicloroquina (-6%) foi tímida em relação à média brasileira e onde a explosão de vendas de ivermectina no auge da pandemia (novembro/2020 a janeiro/2021) havia sido impressionante (2069%).


O MEDICAMENTO DO MOMENTO: AZITROMICINA

Apesar da redução nas vendas da cloroquina e da ivermectina, a azitromicina, utilizada para o tratamento de infecções bacterianas e também sem eficácia comprovada contra o vírus que causa a COVID-19, registrou aumento.


Em todo o território nacional, o medicamento teve alta de 103% nas vendas entre os meses de novembro de 2020 e janeiro de 2021 em relação ao mesmo período anterior. Agora, no início de 2022, já se constatou novo aumento: 50%.


ENRAIZADO NA CONFIANÇA

O projeto Enraizado na Confiança da Internews busca responder à 'infodemia' que aprofunda a discriminação e afeta o acesso a serviços e assistência básica comunitária em comunidades vulneráveis.


O Brasil foi incluído na segunda edição do programa global, que está em andamento também na Colômbia, no Líbano, no Iraque, em Mali, no Sudão, no Sudão do Sul, na República Democrática do Congo e no Zimbábue.


No país, o projeto é dirigido às populações indígenas e quilombolas dos estados do Amapá, Roraima e Pará, na região Norte. O projeto pretende auxiliar a mídia com capacitações, informações e recursos para que ela possa fornecer informações de qualidade a essas comunidades.


Fonte: Enraizado na Confiança, Fernanda Fernandes e Ellie Makuxi (AMAZOOM)

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