ARTE E CULTURA

I Batizado Tradicional Indígena

 
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Etnoturismo em Roraima: uma Nova Esperança

 

Comunidade da Terra Indígena (TI) São Marcos, localizada a 218 quilômetros de Boa Vista-RR, dá os primeiros passos na trilha do etnoturismo.

 

Quem percorre a BR-174 em direção a fronteira com a Venezuela talvez não imagine que depois de 200 quilômetros de Lavrado vai voltar a encontrar nichos da Floresta Amazônica aos pés da Serra de Pacaraima.

 

Quem faz o trajeto pela primeira vez, aliás, sempre se pergunta: cadê a floresta que estava aqui? Nunca houve floresta aqui “cara pálida”. O Lavrado, uma região de vegetação aberta, tipo savana, domina toda porção nordeste do Estado de Roraima há milhares de anos.

 

É neste ecossistema único, na borda Norte da Terra Indígena São Marcos, que está localizada a Comunidade Nova Esperança. Pacaraima, aliás, o município ilegalmente criado dentro da TI, já faz avançar sua mancha urbana sobre os domínios da Comunidade. Os indígenas reclamam. Até judicializaram a questão. Mas, por hora, nenhuma decisão foi tomada e a invasão continua.

 

Invasão também parece o termo apropriado para a desfaçatez do atual Governo do Estado que, em conluio com o Governo Federal, já defende abertamente a “exploração econômica das terras indígenas” por grupos externos e internacionais. Aos indígenas, como sempre, restariam as migalhas.

 

É por crer que os povos indígenas merecem mais que migalhas que empreendedores como Alfredo Silva Wapixana não cansam de lutar. Alfredo e seus familiares foram os fundadores da Comunidade Nova Esperança.

 

Foi Alfredo que, há quase vinte anos, sugeriu à Comunidade aproveitar a clareira aberta na floresta pela Eletronorte, na construção do Linhão de Guri (principal linha de abastecimento de energia em Roraima), para formatação da Trilha Ecológica do Coatá – o primeiro produto etnoturístico da Comunidade Nova Esperança e de Roraima. E, foi Alfredo, também, que convenceu a Comunidade a abrir suas portas aos simpatizantes das causas indígenas para o primeiro Batizado Tradicional Indígena (de não indígenas) no Estado.

 

“Primeiro escolhemos as pessoas que trazem de fato um DNA indígena. Segundo as pessoas que admiram as culturas indígenas e têm alguma vinculação afetiva ou profissional com estas questões. Especialmente aquelas que de alguma forma contribuem com a nossa cultura, respeitam as nossas origens e atuam na defesa dos direitos e prerrogativas da nossa gente”, esclareceu Alfredo.

 

O Etnoturismo e sua normatização

 

Conforme Alfredo, o Batizado Tradicional foi inspirado em outras experiências de etnoturismo indígena no Brasil, na Guiana e em Roraima. Etnoturismo, explica ele, “nada mais é do que o turismo realizado em terras indígenas”.

 

Essa modalidade ganhou impulso em território nacional a partir de 2012, quando a então presidenta Dilma Rousseff assinou o Decreto nº 7.747, que instituiu oficialmente a possibilidade de desenvolver atividades de eco e etnoturismo nas Terras Indígenas do País. As regras para visitar as comunidades, porém, só foram regulamentadas pela Fundação Nacional do Índio (FUNAI) em 2015, através da Instrução Normativa Nº 3.

 

De acordo com Enoque Raposo, da Comunidade Raposa I, Terra Indígena Raposa - Serra do Sol, estes documentos preveem que as comunidades indígenas tenham autonomia para explorar projetos de turismo em seus territórios, cabendo ao poder público o papel de monitorar e fiscalizar as atividades.

                                                                                

Enoque ressalta ainda que para ele foi uma honra estar na Comunidade Nova Esperança e ajudar na organização do Batizado Tradicional Indígena. “Estamos buscando trabalhar na mesma linha, na linha o etnoturismo. Trabalhar de uma forma legal, dentro das leis, fazendo tudo direitinho. A Comunidade da Raposa já elaborou esse projeto que já está na FUNAI em Brasília para o parecer final e a Comunidade Nova Esperança segue o mesmo caminho,” ressalta.

 

Conforme Enoque a Comunidade da Raposa, da Nova Esperança e todas as Comunidades Indígenas de Roraima, “com certeza, saem ganhando muito com os projetos de etnoturismo”.

O Batizado Tradicional Indígena

 

“Bem-vindos ao primeiro Batizado Tradicional Indígena da Comunidade Nova Esperança”. É com esta frase que o Tuxaua João Alfredo Pereira da Silva recebeu a todos na sombra do malocão comunitário as margens da BR-174. É tempo de seca em Roraima, a temperatura supera os 35 graus e nesse tempo qualquer sombra é bem-vinda.

 

Conforme Alfredo Wapixana a seca desse tempo vai ficar para trás e logo a chuva vai chegar. Assim como a chuva, segundo ele, o primeiro Batizado Tradicional Indígena (realizado nos dias 09 e 10 de março), vai inaugurar um novo tempo – “uma nova fase para o etnoturismo na Comunidade Nova Esperança” e abrir espaço para o conhecimento direto de importantes elementos da cultura indígena.

 

Para o Tuxaua João, com a valorização da cultura indígena todos saem ganhando. “É com esse espírito de vantagens que conclamo a todos e a todas que vivenciem e usufruam cada momento que estiverem conosco. De nossa parte foi tudo feito com muito amor, zelo, carinho para que todos sintam-se em casa,” frisou ele ao microfone enquanto os presentes procuravam abrigar-se do sol.

 

Seu irmão Alfredo Wapixana, (o empreendedor) ao ser questionado, esclareceu qual a função do evento. Gerar renda, pensamos nós. Explorar economicamente seu território, como querem os brancos? Ledo engano: “O evento é importante para nós, para as crianças. É importante para perceber que não é ruim ser indígena. Seu objetivo principal é mostrar para as crianças que não precisa ter vergonha de ser indígena. Mostrar que tem branco querendo ser indígena, querendo ter nome indígena. A intenção do batizado é justamente essa: dar esse choque nas crianças e nas pessoas, para mostrar como nossa cultura é rica, ainda mais se nós a valorizarmos”.

 

 “Muitos indígenas viram as costas para nossa cultura. Quando a gente estuda muitos viram as costas” prosseguiu Alfredo. “Nós estamos fazendo o contrário. Ao invés de fechar os olhos e virar as costas para nossa cultura, nós estamos dando o exemplo de puxar o turismo, de puxar o etnoturismo. Por isso abrimos a comunidade para vocês para virem fazer essa integração com a gente. Esse é o sentido real disso aí”.

 

Alfredo lembrou ainda de uma questão conjuntural extremamente importante para uma Comunidade localizada a poucos quilômetros da linha fronteiriça. “Nós fizemos esse evento numa condição extremamente difícil. Com a fronteira da Venezuela fechada, sem combustível. Não tem combustível em Pacaraima, não tem água em Pacaraima. Vamos terminar o evento no vermelho, mas não deixamos de fazê-lo”.

 

Na avaliação final do evento Alfredo Wapixana destacou que a ação foi importante, porque foi uma ação pioneira. “Para que em outras ações no futuro a gente possa se preparar melhor, para acontecer num ambiente melhor, fora desse ambiente de crise que participamos hoje”. Mesmo assim, ressalta ele, “estamos muito felizes porque o que a gente queria a gente conseguiu. O impacto que a gente precisava dar a gente conseguiu”.

 

A programação do Batizado Tradicional começou no sábado (09) e se estendeu até domingo (10), com a participação de indígenas Wapixana, Macuxi, Taurepang, Saterê Maué, Patamona e Warao e não indígenas identificados com a cultura ancestral. O evento contou com cerimônia de abertura, feira de artesanato, degustação de comidas típicas, pintura corporal, rituais tradicionais (mergulhos e banhos medicinais) e diversas outras manifestações cultuais. Fez parte da programação também a visita à Trilha Ecológica do Coatá e “muito forró de pé-de-serra para celebrar com alegria” lembrou Alfredo sorrindo.

 

No encontro foram batizadas 30 pessoas. Segundo Alfredo Wapichana, que também foi o Pajé responsável pela condução de cerimônia, a escolha dos nomes seguiu três critérios básicos: a análise de traços físicos, de traços espirituais e da personalidade de cada um – indicadores que remetem à algum elemento da natureza. “O mais comum é usarmos nomes de animais, mas também podemos usar nomes de plantas e lugares para atribuir o nome indígena às pessoas, nas línguas Macuxi, Wapichana ou Taurepang.” 

 

O evento inédito foi sem dúvidas um marco para o etnoturismo no Estado de Roraima. E, aos que defendem a exploração econômica das terras indígenas fica a pergunta: por que não pensar nesse caminho?

Programação oficial

09/03/2019 – Sábado

10h – Abertura Oficial

10h30 – Feira de Artesanato da Comunidade

11h – Sessão de Pinturas Corporais

12h30 – Almoço Tradicional

14h às 18h – Batizado Tradicional

18h30 – Jantar Tradicional

20h30 –Vivência Cultural

22h – Sorteio de Brindes e Música ao Vivo

 

10/03/2019 – Domingo

07h30 – Café Tradicional

08h às 10h – Batizado Tradicional

10h30 – Trilha Ecológica do Coatá

13h – Almoço Tradicional

14h30 – Abraço Fraterno e Encerramento

Vilso Tukui Santi

Docente

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47ª Assembleia Geral dos Povos Indígenas

 
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A produção artística realizada com aquarela retrata a experiência imagética aprendida durante a 47ª Assembléia Geral dos Povos Indígenas de Roraima realizada no lago Caracaranã/RR.

Propõe a apreensão de elementos captados pela subjetividade do expectador/fotógrafo/artista sendo representados a partir de pinceladas que com a água delineiam os contornos.

Diante disso, apresenta a possibilidade de um olhar que aguça as peculiaridades e as  minúcias de um evento de extrema importância para os Povos Indígenas representado a partir da criação artística.

Leila Baptaglin

Docente

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