Do Sul da Bahia ao lavrado de Roraima: Pérola faz as paredes da periferia de Boa Vista gritarem “Doutor!”
- Amazoom

- há 1 dia
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Com uma pesquisa que transborda os silêncios e pichações de uma escola militarizada, Rafael Pereira Pinto (Pérola) protagoniza a histórica primeira defesa de doutorado com Roraima como polo independente do PGEDA na Amazônia.

Nas terras quentes de Boa Vista, onde o sol de quarenta graus parece derreter as fronteiras entre o real e o imaginário e o vento do lavrado carrega os sussurros ancestrais de Makunaima, aconteceu um desses milagres acadêmicos que parecem saídos das páginas de Gabriel García Márquez. No dia 31 de julho de 2026, no extremo norte da Amazônia brasileira, o Programa de Pós-Graduação em Educação na Amazônia (PGEDA) viveu uma metamorfose: Roraima realizou a sua primeiríssima defesa de doutorado como Polo independente.
Antes desse sopro de emancipação, quem quisesse desvendar os mistérios da educação nestas paragens precisava ter sua tese abençoada pelo Polo de Manaus, ao qual Boa Vista era vinculada. Mas os tempos de satélite ficaram para trás. Agora, a Universidade Federal de Roraima (UFRR) brilha com luz própria como Associação Plena em Rede.
Quem operou esse feitiço científico-pedagógico foi Rafael Pereira Pinto (que no mundo das cores assina como Pérola), um artista, professor e pesquisador que cruzou o país desde uma ilha no sul da Bahia para se fazer semente e fruto na Amazônia. Sob a orientação da Profa. Dra. Leila Adriana Baptaglin, Rafael defendeu a tese “Se essa escola fosse minha também: Uma pesquisa A/r/tográfica e Educomunicativa na Periferia da Amazônia Roraimense”.
A alquimia de escutar paredes
Mas como se faz uma tese que desafia a gravidade da burocracia acadêmica? Rafael não se trancou em bibliotecas mofadas. Ele escolheu o caminho da A/r/tografia, uma metodologia viva onde o pesquisador se desdobra em três identidades indissociáveis: o artista que cria, o pesquisador que investiga e o professor que ensina.
Munido de uma câmera fotográfica e olhos de encanto, Rafael mergulhou no cotidiano de uma escola pública estadual na periferia oeste de Boa Vista, no coração do bairro Pintolândia. Ali, onde estudantes brasileiros dividem carteiras com jovens migrantes venezuelanos sob a rígida disciplina de uma gestão militarizada, ele percebeu que as paredes não eram feitas apenas de tijolo e cal. “As paredes falavam”.
Rafael catalogou e decifrou os grafitos, pichações e desenhos anônimos deixados pelos alunos nos banheiros, portas e carteiras. Onde a burocracia via “sujeira”, sua pesquisa encontrou uma constelação de saberes, dores, desejos de fuga e gritos de resistência: referências ao rap local e ao hip-hop, códigos de facções criminosas gerados pela exclusão social, a tentação do garimpo ilegal diante da falta de horizontes econômicos e a marca afetiva da cerveja venezuelana Polar em tempos de migração.
Em vez de domesticar essas vozes, Rafael devolveu-as aos estudantes em oficinas de Arte Urbana e Rap. Juntos, transformaram o desabafo solitário do rabisco em um monumental mural coletivo nos muros da própria escola. O resultado de toda essa vivência? Uma TESE que é, ela mesma, uma obra de arte: um livro de artista-tese-criação feito para ser uma bússola nas mãos de professores da Educação Básica que habitam as margens do esquecimento.
Um marco para Roraima
Para além da beleza poética da pesquisa, o evento carrega um peso político e institucional gigantesco. A Profa. Dra. Leila Adriana Baptaglin, orientadora do trabalho e Coordenadora do PGEDA na UFRR, não escondeu a emoção ao avaliar o impacto histórico deste dia para a ciência roraimense:
"Este momento é um divisor de águas, um verdadeiro marco para a pós-graduação da UFRR e de todo o estado de Roraima. Ao realizarmos nossa primeira defesa de doutorado como Polo independente do PGEDA, rompemos com amarras históricas de dependência acadêmica. Provamos que a Amazônia roraimense não é apenas cenário para pesquisas externas, mas sim um polo gerador de conhecimento de ponta, de alta relevância teórico-metodológica e comprometido com a transformação social de nossas periferias e fronteiras."
Um chamado para quem está na jornada
Para você, estudante de graduação ou pós-graduação que por vezes se perde no labirinto das normas da ABNT e questiona se a sua pesquisa faz sentido: a tese de Rafael (ou Pérola) é a prova viva de que a periferia é um território legítimo de produção cultural, intelectualidade e memória.
Essa defesa histórica nos lembra que pesquisar não é sobre copiar modelos importados do Sudeste do país; é sobre inventar nossos próprios caminhos, decolonizar o olhar e ter a coragem de assumir que “primeiro você realiza, depois você conta”. Afinal, se essa escola (e essa universidade) fossem nossas também, que outras cores pintaríamos nos muros do amanhã?

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