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Semana da Consciência Negra: Nkisi Kavungo e a mensagem de resistência em tempos difíceis

A representação de Nkisi Kavungo na cultura bantu foi apresentada pelo Grupo Cultural "Nganga Nzila", durante a abertura da Semana da Consciência Negra em Roraima.


Por: Rafaela André


A representação de Nkisi Kavungo na cultura bantu foi apresentada pelo Grupo Cultural "Nganga Nzila", da Associação dos Filhos e Amigos do Ashé Tata Bokulê – AFATABE, durante a abertura da Semana da Consciência Negra em Roraima.


O evento ocorreu no dia 17 de novembro, na sede da Ordem dos Advogados do Brasil - OAB/Roraima. A divindade está ligada com a ausência de imutabilidade na Terra enquanto planeta e na terra ao referenciarmos o solo. Pois, acredita-se que a terra é um elemento de transformação da qual todas as coisas estão ligadas e dependentes.


Por não gostar da estagnação, sua inquietude busca transformações, com a finalidade de que tudo esteja sempre em movimento. Tratando pelo pressuposto de que tudo que se move, muda, a apresentação que remete às religiões afro-brasileiras em uma instituição que entre as principais funções estão à defesa da Constituição, dos direitos humanos, do Estado de Direito e da justiça social, demonstra avanços na busca pela liberdade religiosa.



A representatividade torna-se fundamental diante dos últimos registros de intolerância religiosa em Roraima. Como o caso do vizinho que arremessou uma bomba no telhado de uma casa de Candomblé, localizada no bairro São Bento e feriu uma mulher.


Poucos meses após o ocorrido, no dia 11 de agosto, um líder espiritual foi assassinado em seu terreiro, no bairro Conjunto Cidadão. Quanto à última ocorrência, não foram comprovadas as motivações. Porém, até para denunciar intransigências, os povos de terreiro encontram dificuldades diante do desconhecimento dos direitos que possuem por parte dos responsáveis pelos atendimentos. Sem mecanismo efetivos de defesa, integrantes das religiões de matrizes africanas encontram-se à mercê da violência.



Durante sua palestra, o dirigente do Abasà N'gola Ngunzu Tatà Bòkùlè, Carlos Fournier, mencionou o trecho da Wikipédia que define a intolerância religiosa como "um termo que descreve a atitude mental caracterizada pela falta de habilidade ou vontade em reconhecer e respeitar práticas e crenças religiosas de terceiros, ou a sua ausência".


Em seguida, ponderou que achou a escrita bonita, mas não era compreensível e que a "Wikipédia diz "uma coisa maravilhosa". e ponderou dizendo " eu não entendo dentro do que eu sinto, do que eu passo, essa frase não me representa!".


Em seu discurso, também reforçou a importância de representantes para ouvir e levar os anseios ao poder público, com a meta de demonstrar que as comunidades de terreiro também integram à sociedade e que, principalmente, são eleitores. Por fim, finalizou afirmando que:

"Somos a minoria, mas não! É nós somos uma minoria pacífica que gosta, ainda, de resolver no diálogo, mas numa boa resistência... Numa boa resistência!" - Carlos Fournier.


Em abril deste ano, após uma chamada do Governo Federal, iniciou-se em Roraima as tratativas para a adesão ao Sistema Nacional de Políticas de Promoção da Igualdade Racial - SINAPIR, que, de acordo com o Secretário Nacional de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, Paulo Roberto, é “um mecanismo essencial para que governo e a sociedade civil se unam na desafiadora empreitada de enfrentamento do racismo”.


Para aderir ao Sistema é necessária a criação de um órgão ligado ao governo local e de um Conselho, que deve possuir paridade entre sociedade civil e órgãos públicos. O trabalho foi desenvolvido junto aos movimentos sociais ao longo dos meses, até gerar a minuta de lei de criação do Conselho. Entretanto, o defeso eleitoral estagnou todo o processo, que mesmo após as eleições, aguarda aprovação pelo fato de ser uma nova política que modifica a estrutura governamental.



A estagnação da caminhada causa inquietação justa, já que Roraima e Sergipe são as únicas unidades federativas que não possuem a política. Durante sua fala na mesa de abertura do evento na OAB/RR, Antônio Souza, coordenador do Movimento Negro Unificado em Roraima cobrou a “legitimação do Conselho para que assim possamos combater o racismo”. A movimentação de Nkisi Kavungo alerta sobre a necessidade de modificar o sistema estático. Mas, estamos mais perto do que ontem.



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