• Fernanda Fernandes

Prostituição vira meio de sobrevivência para mulheres migrantes que sustentam família na Venezuela

Atualizado: 27 de jul.

Mulheres relatam que salário mínimo do Brasil não é o suficiente para sustentá-las em Roraima e a família na Venezuela.


Por: Aysha Estrada, Camilla Salustiano, Fernanda Fernandes, Fernanda Vasconcelos, Maria Cecília e Yohanna Menezes.

Imagem: Camilla Salustiano

Em 2018, após perder os dois empregos, Maria* decidiu atravessar os mais de 200 quilômetros de distância que separam a capital de Roraima da fronteira entre Brasil e Venezuela. Acompanhada de uma amiga, veio decidida a ficar por um mês, porém, quatro anos depois, nunca retornou ao país de origem.

“Desde o começo, a amiga que veio comigo para cá avisou que esse seria o trabalho, mas eu não queria. Não dá para me sustentar aqui e a minha família na Venezuela com R$1.200,00. Eu tenho que pagar aluguel, energia, água, e comida. Não dá. Por isso muitos venezuelanos desanimam, um salário mínimo não dá. Só dá se você tiver toda a sua família morando aqui e todos trabalhando, mas mandar dinheiro para lá é impossível”, relatou.

A pesquisadora Márcia Oliveira, que estuda a feminização da migração venezuelana, relata que esse processo chama-se “economia das remessas”, pois essas mulheres não se submetem à prostituição para ganhar dinheiro para si, e, sim, pelo fato de terem diversas responsabilidades, como sustentar a família em Roraima e os familiares que ficaram no país de origem.


“Então, essa economia da remessa, que muitas vezes faz com que a mulher assuma a prostituição ou para completar a renda ou como uma única fonte de subsistência, pois ela não consegue se inserir em outras possibilidades de trabalho”, explica.


Além disso, a pesquisadora ressalta que nenhuma mulher em situação de migração, no exercício da prostituição, escolhe por espontânea vontade essa profissão. Segundo Márcia, essas mulheres passam a encontrar na prostituição uma alternativa de sobrevivência, ou seja, nunca foi um projeto de vida delas.

“Eu acredito que não é um projeto de vida de nenhuma mulher, de nenhum ser humano, estar na prostituição por opção. A não ser que seja algo assim, muito fora dos padrões, alguém que nasce e não conhece outra alternativa, outra vivência, a não ser a prostituição. Mas são casos muito raros e não se aplicam a esse universo das mulheres migrantes que a gente tem em Roraima”, afirmou.

Essa é uma realidade vivenciada por Maria, venezuelana de 42 anos, que atua como prostituta para se sustentar em Boa Vista, e a filha, o pai e a irmã, que continuam na Venezuela. “As mulheres trabalham assim por terem que trabalhar, não porque querem. A gente não se acostuma, eu não me acostumei nunca”, relata.


Apesar de toda a dificuldade, Maria sofre em silêncio, pois nenhum familiar sabe o que ela precisa fazer para conseguir ajudá-los. Questionada sobre o que espera do futuro, ela revela o sonho de parar de trabalhar nas ruas e abrir o próprio restaurante. “Se tiver outra oportunidade, eu saio dessa vida. Nenhuma pessoa pode falar que isso é bom. Gosto muito de cozinhar, então quero abrir meu restaurante”, acrescentou.


Segundo a Plataforma Regional R4V, o número de imigrantes venezuelanos no Brasil era de 351.958 mil até 29 de junho de 2022, quando os últimos números foram divulgados. Desde o ano de 2015, milhares de venezuelanos deixaram o país devido as crises política e econômica em busca de melhores condições de vida.


O levantamento da R4V mostra que o estado de Roraima é a principal porta de entrada de imigrantes venezuelanos no país, sendo Pacaraima e Boa Vista os principais destinos. Sendo assim, o Brasil é o quinto país mais procurado pelos migrantes venezuelanos.


Migrar não é uma opção para muitos, mas sim uma única via para conseguirem melhores condições de vida – mesmo que para isso, precisem passar por situações delicadas. Relatos como o de Maria são os mais comuns de ouvir pelas ruas do bairro Caimbé, conhecido por ser um forte ponto de prostituição. A redação entrevistou mais cinco mulheres nessa situação e todas compartilham histórias em que sofrem com o preconceito, a necessidade de ajudar a família na Venezuela e o sonho de viver uma vida diferente.


Carolina* também chegou em Roraima em 2018, acompanhada da filha, que ainda era um recém-nascido. Ela tinha recebido a proposta de trabalhar em uma pizzaria com uma conhecida, porém a realidade foi outra.

"Eu vim com uma mulher, mas ela me deixou lá na rodoviária e eu nunca mais a vi. Tive que me virar sozinha. Passei dois anos morando com minha sogra, mas, depois que meu relacionamento acabou, fui morar na rua. Eu não tive outro jeito além de vir pra cá. O primeiro programa foi nojento, eu estava muito assustada. Eu ainda tenho medo, porque saio, mas não sei se vou voltar”, comentou.

Consequências da imigração


A economia e as relações sociais foram diretamente afetadas pela vinda de vários refugiados. Sendo assim, não há uma infraestrutura em Boa Vista que possa atender esse grande número de pessoas. A fome é uma das principais consequências, pois não há emprego para todos.


Em decorrência disso, muitos imigrantes não são acolhidos e inseridos na sociedade de forma adequada, no qual muitos acabam residindo nas ruas. Luz* relata que está em Boa Vista há dois anos e trabalhou como auxiliar de cozinha, mas o restaurante faliu e nunca recebeu um salário. Assim como Maria, ela afirma que o salário mínimo do Brasil não é suficiente para manter a sua família na Venezuela e a sua permanência.


O Governo Federal implantou a política de interiorização como uma estratégia de solução para os imigrantes que estão em Roraima. Portanto, isso só cabe a aqueles que pretendem se deslocar para outras cidades brasileiras. Luz foi uma das contempladas, mas recusou, pois não pretende morar longe da Venezuela.

“Não quis fazer a interiorização, porque se algum familiar passa mal ou acontece alguma coisa tenho que voltar para a Venezuela e se eu sair de Roraima isso não será possível”, comenta.

Conforme a pesquisadora Márcia, muitas mulheres preferem não procurar ajuda humanitária, pois algumas são intermediadas por agências ou instituições que têm vínculo religioso, o que gera o risco de condenarem as mulheres em situação de prostituição.


“Por isso que muitas mulheres evitam procurar ajuda nas instituições, pois elas sabem que, antes de serem ajudadas, podem ser condenadas moralmente. Então, para não passar por mais esse sofrimento, elas preferem não procurar”, argumentou.


Violência


Além das dificuldades enfrentadas pelas imigrantes, a prostituição acarreta como consequência o medo e a violência. Maria enfatiza que não é uma profissão fácil e diz à equipe de reportagem os desafios enfrentados por uma garota de programa, como quando alguns clientes tentaram agredi-la enquanto realizava o trabalho.

“O meu primeiro programa foi horrível demais, eu não queria. Estou há quatro anos trabalhando assim, mas eu não gosto. As pessoas passam aqui e sempre falam coisas ofensivas. Algumas meninas ficam com medo, pois não sabem se defender, mas eu me defendo, não deixo me humilharem. Sempre estou com meu capacete, caso precise”, explicou.

Luz também conta que passou por situações de violência, além dos xingamentos, encontram dificuldade em buscar proteção, pois quando tentam procurar ajuda são negligenciadas pelas autoridades competentes.


“Um dia um cara queria me bater com o travesseiro e para me defender precisei ficar pulando a cama de um lado para outro até conseguir sair do quarto, não existe amparo. Um dia eu chamei a polícia e eles falaram ‘a profissão de vocês é muito arriscado e são imigrantes’ então se acontecer alguma coisa com a gente e por ser uma garota de programa, não é digna de ser investigado?”, questiona Luz.


Como alternativa para se protegerem das agressões e dos possíveis perigos que enfrentam no cotidiano, muitas mulheres optam por encontrar seus clientes durante o dia. Além disso, criaram um sistema de proteção onde informam suas companheiras se o cliente é confiável.

“A nossa proteção é Deus e não tomamos uma decisão errada, porque olhamos quem está entrando em contato, se vai para um lugar muito longe. Tem esse cuidado entre nós, sempre observando com precaução, quando alguém faz mal avisamos que tal pessoa e tomar cuidado”, afirma Luz.

Procurada, a Delegacia Especializada da Mulher (Adeam) afirma que geralmente o primeiro socorro é o 190, mas quando o atendimento envolve violência doméstica ou estupro, os domínios são da Adeam.


“O fato de elas estarem se prostituindo não isenta de serem estupradas. Existem muitas situações de agressão no momento do ato sexual de ameaçar, de fazer sexo com uma arma na cabeça e todos esses fatos são de conhecimento nosso por já haver registros aqui na delegacia”, explicou a delegada da Adeam, Elivânia Aguiar.


A delegada afirma que, nos casos em que a polícia não age conforme a função, deve-se procurar a corregedoria ou Ministério Público de Roraima (MPRR) para denunciar a ação.

“Todas as polícias têm corregedorias, então se acontecer alguma coisa que você veja que é um excesso da atividade dele, você pode procurar a corregedoria a qual esse policial pertence. Existem situações onde as pessoas não têm coragem de denunciar dentro da corregedoria daquela instituição, mas a gente tem o controle externo que é um promotor de justiça que promove o controle externo da atividade policial, então pode procurar no Ministério Público o promotor que é responsável, aí colhem as declarações e enviam para a corregedoria apurar”, finaliza.

A delegada ainda ressalta que não existem diferenças nos procedimentos de registro de ocorrência entre uma mulher brasileira e uma imigrante, pois a aplicação da lei é a mesma em todo o território nacional.


A Adeam atende com delegado das 7h às 19h30. Desde a pandemia, foi oferecido às mulheres o registro de boletim de ocorrência através do site e somente a medida protetiva é feita totalmente presencialmente.


Saúde mental


Em conversa com essas mulheres, todas relataram experiências traumatizantes pelas quais enfrentaram desde que saíram do país de origem, seja durante o trabalho ou, então, a própria jornada de deixar tudo que conheciam para tentar sobreviver e garantir uma vida melhor em outro país.


Na busca de entender como a saúde mental delas pode ter sido afetada, em razão dessa situação, a reportagem conversou com Juliana Milla Vieira Pereira, psicóloga na Associação Bem com a Vida, que atua auxiliando imigrantes. “Geralmente, o que as prende é essa obrigação de sustentar a família no país de origem, ou sustentar a família que chegou recente no Brasil. Porém, o que eu mais vejo são casos de mães solteiras que trabalham como profissionais do sexo para manter os filhos aqui".

Nesses casos, é feito um acolhimento inicial sem julgamentos, levando em consideração os motivos que mantêm elas em tal situação. O primeiro momento é o principal, em minha opinião, pois é quando a profissional do sexo percebe que tem alguém ali que se importa com ela e está ali para ajudá-la”, explica a psicóloga.

Quanto aos danos psicológicos, a profissional explica que podem ser relativos, de acordo com o que determinadas experiências significaram para cada uma das mulheres nessa situação. “Quanto mais vulnerável, mais suscetível a violências elas estarão. Em alguns casos surge uma dificuldade de relembrar de fatos, pois gera um choque para o psiquismo, uma mudança ou violência tão drástica que até a própria mente deseja esquecer".

Essa falha na memória é o que chamamos de resistência, é muito difícil relembrar e viver aquilo, pois muitas vezes ocorre um ‘sofrimento vazio’, ou seja, por não saber lidar com aquilo, a pessoa ‘se desliga’. Por isso é tão importante o trabalho psicológico após essas situações de violência, pois damos significado e acolhimento ao que a pessoa sofreu.", afirmou.

A psicóloga ressalta também que muitas vezes, devido aos danos psicológicos, a mulher pode criar um bloqueio emocional, o que afeta nas relações pessoais com a família e possíveis parceiros. “Podemos analisar um exemplo fictício: uma mulher, profissional do sexo, não se sente confortável com essa sua forma de conseguir renda, sente-se envergonhada do que faz e mantem sua profissão em segredo. Ela pode desenvolver problemas nas suas relações pessoais ou amorosas pelo medo da humilhação de descobrirem, vivendo em um medo dessa futura descoberta".

Ou seja, a situação que causa angústia na migrante pode se estender para suas relações pessoais, causando bloqueio e sofrimento para a pessoa dependendo da situação”, explica.

Entretanto, a profissional ressalta que, mesmo com o psicológico abalado por violências de qualquer tipo, é possível que a mulher nessa situação recupere a saúde mental, “desde que seja bem acompanhada, com um atendimento humanizado, rede de apoio e a busca pelos seus direitos”.


Ouça o relato completo da psicóloga Juliana Milla


Os nomes assinalados com asteriscos(*) correspondem à nomes fictícios para preservar a identidade das mulheres


Reportagem produzida na disciplina de JOR 50 - Redação Jornalística IV.

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