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Flecha de indígenas isolados é entregue ao MPF-RR como indício de massacre na Terra Yanomami

Órgão investiga denúncia de assassinato de três isolados Moxihatëtëma por garimpeiros; "essa flecha é única, usam para matar a caça e para se alimentar", explicou o xamã Davi Kopenawa.


Em audiência em Boa Vista (RR) com o Procurador do Ministério Público Federal de Roraima (MPF-RR), Alisson Marugal, o xamã e presidente da Hutukara Associação Yanomami, Davi Kopenawa, entregou uma flecha que seria a comprovação de um massacre de garimpeiros contra indígenas Moxihatëtëma, que vivem isolados em uma comunidade na Serra da Estrutura.

“Chegou a hora de falar a verdade. Chegou a flecha na cidade e foi bom para ele [procurador] acreditar na prova. Para ele sentir e pensar nos Moxihatëtëma para que eles sejam protegidos e respeitados. Eu protejo eles para que eles não saiam das comunidades e não cheguem ao garimpo. Nosso criador, Omama, deixou eles num lugar sagrado e eles devem permanecer ali”, afirmou Davi na sexta-feira (12/11).

Davi Kopenawa, presidente da Hutukara Associação Yanomami, mostra flecha de indígenas isolados

Uma das flechas que teriam sido atiradas pelos guerreiros Moxihatëtëma, foi recolhida por um jovem indígena, aliciado pelos garimpeiros da região do Alto Mucajaí. Ele testemunhou o episódio de violência. O objeto estava guardado em uma comunidade na região do Apiaú e foi levado a Boa Vista como indício do ataque aos isolados.

Segundo relatos de um indígena da região do Apiaú, no município de Mucajaí, que entrou em contato com a Hutukara no início deste mês, três indígenas do grupo em isolamento Moxihatëtëma foram mortos a tiros por garimpeiros, em um ataque ocorrido há cerca de três meses, próximo ao garimpo “Faixa Preta”, na Terra Indígena Yanomami.

“Essa flecha é única, usam para matar a caça e para se alimentar. Eles usam também para se proteger na guerra. É uma flecha longa, muito maior que eu. Eles usam na ponta da flecha uma pena de mutum [pássaro] e queimam com fogo, para o lance ir muito longe para pegar a caça”, explicou Davi ao procurador, enquanto manuseava o objeto.

Para Marugal, a flecha é uma importante peça na investigação dos fatos, pois ajuda a entender a dinâmica do conflito na região do Apiaú. “Sem dúvidas nenhuma, é importante para a gente tentar entender o que ocorreu. Temos apenas relatos indiretos desse conflito e essa flecha dos isolados vem para compor esse material probatório que nós temos para apurar esses fatos”, disse. O procurador afirmou ainda que está sendo articulada uma estratégia com a Polícia Federal e a Fundação Nacional do Índio (Funai) para avançar nas investigações.

Na reunião, Davi falou da necessidade de união do MPF e da Polícia Federal para que as operações de combate e retirada dos garimpeiros ocorram de forma permanente em toda a Terra Indígena Yanomami, com especial urgência na região do território dos Moxihatëtëma.

“Somos o povo que Omama criou e preparou. Omama criou os xapiri [espíritos da floresta na cosmovisão Yanomami] e a gente cuida da saúde, da família e do nosso povo. Cuidamos e protegemos também o pulmão da Terra. Os xapiri dos Moxihatëtëma cuidam da grande alma da floresta, assim como eu que sou xapiri e nós cuidamos da onda do mundo para não deixar ele desequilibrar. Protegemos a nossa Terra Mãe”, disse o xamã.


Fonte: ISA

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