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Escritoras Brasileiras: o protagonismo e a resistência feminina na literatura nacional

Atualizado: 4 de Nov de 2019


Por Glenda Dinelly*


Na última terça-feira (31) foi comemorado o Dia Nacional do Livro, data que celebra a criação da Biblioteca Nacional do Livro em 1810, pela Coroa Portuguesa. De lá pra cá, milhões de livros já foram escritos e publicados aqui no Brasil. No entanto, ao falarmos sobre literatura devemos fazer uma breve reflexão:


· Em um ano, quantos livros você leu?

· Desses livros, quantos foram escritos por mulheres?

Essas duas perguntas trazem problemáticas sociais enraizadas na cultura nacional. A primeira é que boa parte da população brasileira não tem o hábito de leitura ou não frequenta bibliotecas com assiduidade.


De acordo com dados da Câmara dos Deputados (2019), hoje existem 6.057 bibliotecas públicas, ou seja, 95% dos municípios brasileiros têm bibliotecas. No entanto, a questão problemática mais profunda disso é quanto à qualidade, acesso, orçamento e espaços adequados para o público. Ou seja, mesmo com um número significativo de bibliotecas, boa parte da população ainda não tem acesso a elas, em decorrência da falta de qualidade e incentivo.


Outra problemática encontrada é que além da falta de hábito de leitura*, as mulheres ainda constituem-se uma parcela pouco expressiva entre os autores mais lidos no Brasil. Um livro escrito por uma mulher costuma receber menos financiamento, e em geral custa mais barato que um escrito por um homem.


* (para ser considerado um leitor habitual, em um prazo de três meses ao menos um livro deve ser lido)

Invisibilidade Feminina na Literatura


Em números, a Academia Brasileira de Letras, por exemplo, dos seus quarenta membros vitalícios, apenas cinco são mulheres, são elas: Ana Maria Machado, Cleonice Berardinelli, Rosiska Darcy de Oliveira, Lygia Fagundes Telles e Nélida Piñon.


Entre os 111 ganhadores do Prêmio Nobel de Literatura até hoje, apenas 13 foram mulheres. O Nobel é concedido aos escritores considerados como os mais notáveis em sua área de atuação a serem laureados com o prêmio.


Um dos livros mais vendidos da história, Harry Potter, escrito por Joanne Rowling, que até hoje só é conhecida pela abreviação, J.K Rowling. Na época a editora Bloomsbury achou que um livro que conta uma história de fantasias não seria bem aceito, se fosse escrito por uma mulher. Sem contar que a escolha do personagem principal (Harry Potter) se deu pelo mesmo motivo. Para a editora da época, uma bruxinha não faria tanto sucesso quando um garoto bruxo, assim, Harry conquistaria todos os públicos, meninos e meninas.


Diante desse cenário, podemos pensar em uma luz no fim do túnel. Autoras que desafiaram seu tempo, sua sociedade e fizeram da palavra escrita o seu símbolo de resistência, arte, subjetividade e resiliência.


Algumas escritoras Brasileiras – Clássicas e contemporâneas

Arte: Glenda Dinelly

Adélia Luiza Prado de Freitas, ou Adélia Prado, nascida em 1935, poetisa e escritora brasileira, além de professora. Suas obras estão ligadas ao modernismo, e é considera uma das maiores escritoras brasileiras do século XX. Sua obra é marcada pela valorização do feminino e mulher como ser pensante. Seus primeiros versos são escritos em 1950, após a perda da mãe. As décadas posteriores são marcadas por diversos escritos, contos, poesias e peças. Entre os diversos trabalhos e prêmios, destacam-se o livro O Coração Disparado (1978), obra da qual Adélia recebeu o Prêmio Jabuti. Em 1988 a escritora participou da Semana Brasileira de Literatura em Nova Iorque. Em 2014 recebeu do governo brasileiro a Ordem do Mérito Cultural.


Carolina Maria de Jesus, nascida em 1914, que apesar da vida difícil como catadora de lixo, negra e mãe de três filhos escreveu livros que se tornaram best-sellers. Quarto de Despejo, Pedaços de Fome e Casa de Alvenaria estão entre as obras mais aplaudidas. Infelizmente a escritora morreu no ostracismo e só teve seu trabalho reconhecido e traduzido para 14 idiomas após sua morte.

Cora Coralina era seu pseudônimo, seu nome de batismo era mesmo Ana Lins do Guimaraes Peixoto Brêtas, a Aninha para os mais próximos ou como gostava de ser chamada. Nascida em 1889, em Goiás, e que apesar de não ter concluído o ensino básico, suas histórias, narrativas e contos eram traçados por elementos folclóricos, concedendo a Cora criações com qualidade literária única. Cora tinha talento, mesmo com as dificuldades encontradas após a morte de seu marido, obrigando-a vender doces em 1934 para manter a casa e os filhos. Aos 16 anos teve sua primeira crônica publicada no Jornal Tribuna Espírita (RJ), porém só teve suas obras reconhecidas pelo grande público aos 70 anos de idade. Em 1983, Cora recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Federal de Goiás, além dos prêmios Juca Pato e condecoração de Ordem ao Mérito Cultural, em 2006. A escritora faleceu aos 95 anos, em 1985.


Saber Viver


Não sei… se a vida é curta

ou longa demais para nós. Mas sei que nada do que vivemos tem sentido, se não tocarmos o coração das pessoas.

Muitas vezes basta ser: colo que acolhe, braço que envolve, palavra que conforta, silêncio que respeita, alegria que contagia, lágrima que corre, olhar que sacia, amor que promove.

E isso não é coisa de outro mundo: é o que dá sentido à vida.

É o que faz com que ela não seja nem curta, nem longa demais, mas que seja intensa, verdadeira e pura… enquanto durar.


- Cora Coralina


Chaya Pinkhasovna Lispector, ou Clarice Lispector, nascida na Ucrânia, em 1920, mas carregava consigo o sotaque do nordeste, afinal, sua família mudara-se para Recife quando a escritora tinha apenas cinco anos de idade. Clarice dominava sete idiomas, dos quais traduziu pelo menos 35 obras de gêneros e autores diferentes. Trabalhou como jornalista em diversas revistas ao longo de sua carreira. Publicou dezenas de livros, entre eles, suas obras mais famosas são, Perto do Coração Selvagem, Água Viva, A Hora da Estrela e Laços de Família.



Arte: Glenda Dinelly


Cecília Meireles, nascida em 1901, atuou como escritora, poetisa, pintora e jornalista, além da profissão de professora. Publicou ao longo de sua vida cerca de 50 obras. Seu primeiro livro de poemas Espectros (1919) contém 17 sonetos.


Fernanda Maria Young de Carvalho Machado, ou simplesmente Fernanda Young, nascida em 1970, além de atriz, também era escritora e roteirista. Cursou Letras, Jornalismo, Rádio & Televisão e Artes Plásticas, porém não terminou nenhuma das graduações. Ao mudar-se para São Paulo, a escritora (profissão que gostava de ser denominada, dizia ela em diversas entrevistas), começou a escrever seus primeiros textos. Entre suas obras mais conhecidas estão A Comédia da Vida Privada (1995), Vergonha dos Pés (1996), participação no roteiro do quadro O Supersincero (2005) do programa Fantástico, e do seriado Minha Nada Mole Vida (2006). Suas obras mais conhecidas, são os roteiros escritos dos programas de TV Os Normais, Os Aspones, Como Aproveitar o Fim do Mundo e Vade Retro, da Rede Globo. Consagrou-se como escritora feminista e roteirista durante sua carreira, até a sua morte súbita em 2019. Sua obra é cercada por sarcasmo, ironia e acidez, com textos inteligentes.


Fernanda finaliza nossa curta lista entre as centenas de mulheres que escreveram, escrevem e perpetuam a escrita através de seus contos, textos, crônicas, poesias, roteiros e peças para o teatro. Além das citadas autoras, podemos encontrar outras grandes escritoras brasileiras:


Ana Maria Machado, Cleonice Berardinelli, Ana Cristina Cesar, Alice Ruiz, Ana Miranda Marina Colassanti, Rachel de Queiroz, Zélia Gattai, Nélida Piñon, Elvira Vigna, Cíntia Moscovich, Veronica Stigger, Andréa del Fuego, Carol Bensimon e Luisa Geisler.


Escritoras de Roraima


Importante dizer que em Roraima, temos como importante escritora e jornalista, Nenê Macaggi, que já foi assunto aqui do Rede Amazoom. Maria Macaggi, escrevia sobre o cotidiano de sua época, como em a Mulher do Garimpo. Apesar de nascida em 1913, no Paraná, a autora era considerada Roraimense de coração. Entre suas obras estão, crônicas, contos e romances. Hoje a escritora dá nome à biblioteca pública central de Roraima, Palácio da Cultura Nenê Maccagi.


Eli Macuxi, nascida em 1973, em São Paulo. Professora de História da Arte na Universidade Federal de Roraima, no curso de Artes Visuais. O interesse de suas obras é contextualizado a partir do feminismo, gênero e sexualidade. Ela atualmente mantem seu blog ativo, cujas obras são escritas em elimacuxi há pelo menos 10 anos.


Clube de leitura Leia Mulheres em Roraima


(Foto: primeiro ano do 'Leia Mulheres' em Boa Vista /Arquivo pessoal)

Em 2014, buscando trazer mais visibilidade para mulheres que escrevem, a escritora Joanna Walsh criou o projeto #readwomen2014 (#leimulheres2014). A ideia era que as pessoas lessem mais mulheres. Uma vez que o mercado de publicações, divulgação e edição de livros feitos por escritoras não recebiam o reconhecimento justo e adequado pelo mercado editorial, público leitor e sociedade em geral.



A ideia inicial foi criando forma, e por fim, em 2015 tornou-se em um clube do livro, que hoje já conta com mediadoras em mais de 100 cidades brasileiras.


Em Boa Vista, o clube de leitura Leia Mulheres começou em dezembro de 2015. Ao todo já foram lidos e debatidos 47 livros, e a cada mês um novo livro é discutido, segundo a coordenadora e mediadora local, Jayne Thomé.


A coordenadora local, concedeu uma entrevista ao Rede Amazoom, explicando um pouco sobre o Leia Mulheres, confira:


33°Encontro do Leia Mulheres Boa Vista Livro: Inia - Uma aventura amazônica, de Marcela Monteiro/ Arquivo Pessoal

Rede Amazoom: Por que ler mulheres? Por que o engajamento na causa? De que forma ler livros escritos por mulheres pode ser diferencial na sociedade? Fale sobre a importância dessa articulação.

Jayne Thomé: Bem, o Leia inicialmente surgiu por causa dessa preocupação com a ocupação de um espaço predominantemente ocupado por homens. Se você perceber, muitas obras escritas por mulheres foram originalmente publicadas com um pseudônimo masculino, de forma que fossem mais bem aceitas. Então, apoiar a escrita de mulheres é uma forma de tentar ocupar esses espaços, especialmente dentro de um mercado editorial que ainda é muito restrito. Além disso, eu vejo a literatura de forma geral como uma ferramenta de empatia, de se colocar no lugar do personagem e entender o que ele sente, o que ele está passando. Lendo mulheres, nós temos a oportunidade de apreciar personagens diferentes, ver um mundo diferente, ter uma perspectiva a partir do olhar de uma pessoa que teve experiências diferentes daquelas que os autores homens tiveram. Então, mesmo para o leitor que não está preocupado com causas sociais, acaba sendo benéfico porque ele tem acesso a um mundo na escrita que é diferente do qual ele está acostumado.


Rede Amazoom: Jayne, qual é o público que frequenta e participa do clube?

Jayne Thomé: O clube é voltado para homens e mulheres. Recebemos um número maior de mulheres, creio que entre 25-35, em média.


Rede Amazoom: Além das leituras, vocês promovem outros tipos de encontros ou eventos?

Jayne Thomé: Não, apenas os encontros para debate mesmo.


Rede Amazoom: Qual foi o livro que você mais gostou de ler e debater?

Jayne Thomé: Sem dúvidas foi O Conto da Aia, ainda hoje é um dos meus preferidos de todos os tempos.


Rede Amazoom: Faça um convite aos leitores do Rede Amazoom para conhecer o Leia Mulheres.

Jayne Thomé: A participação no clube é gratuita, é só ler o livro e comparecer. Se não conseguir ler a tempo, não tem problema, as portas continuam abertas! As discussões são muito proveitosas e divertidas, todos estão convidados.


Escritoras brasileiras já lidas pelo Leia Mulheres em Roraima:


Ana Cristina César

Lygia Fagundes Telles

Zenny Adairalba

Daniela Arbex

Maria Valéria Rezende

Débora Noal

Hilda Hilst

Marcela Monteiro (roraimense)

Raquel de Queiroz

Noemi Jaffe

Aline Bei

Helena Lopes (roraimense)


O próximo encontro do Leia Mulheres em Boa Vista acontecerá no dia 24 de novembro e o livro escolhido será Amada, de Toni Morisson. Mais informações podem ser encontradas no Instagram do Clube @leiamulheresboavista




* Glenda Dinelly é estudante de jornalismo da Universidade Federal de Roraima e atualmente cursa o 5º semestre. Instagram: @glenda__________

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