• Ariene Susui

Em meio a pandemia da Covid-19, garimpo cresce e ameaça a vida dos povos indígenas de RR

Crescimento descontrolado do garimpo ilegal em meio a Covid-19 ameaça à vida dos povos de dois territórios considerados uns dos maiores do Brasil.

Caique Souza/Ascom CIR

O garimpo ilegal dentro das Terras Indígenas de Roraima é um “vírus” que só se prolifera, causando consequências danosas aos indígenas e ao meio ambiente. O avanço dessa atividade de mineração a cada dia que passa traz grandes impactos para aqueles que residem nas proximidades e são afetados diretamente. Já não bastasse as doenças, hoje a contaminação dos rios e igarapés pela utilização excessiva de mercúrio, está matando a população indígena. Além da total destruição da floresta.


Em plena pandemia da Covid-19, a invasão e a devastação praticamente duplicaram. A Hutukara Associação Yanomami (HAY), em nota publicada, recentemente, “ até setembro de 2021, a área acumulada de floresta destruída pelo garimpo ilegal na TI Yanomami superou a marca de 3 mil hectares, um aumento de 44% em relação a dezembro de 2020”.


A corrida pelo ouro está consumindo as matas, dentro da TI Yanomami. Antes, o que se via na imensa floresta amazônica eram árvores, porém, hoje, pode-se ver grandes crateras. Essa invasão está em todo o território yanomami, ameaçando inclusive indígenas isolados.




Diariamente, duas das maiores Terras Indígenas do Brasil são invadidas por diversos garimpeiros. A TI Yanomami, por exemplo, ao Norte de Roraima que possui uma área com total de 9.419.108 de hectares é a mais afetada por essa atividade ilegal. A TI Raposa Serra do Sol, situada na região Nordeste do Estado, com a área de 1.743.089 de hectares, é outra região que está impactada com a invasão que a cada dia só se expande.


O garimpo ganhou mais força no dia 8 de fevereiro de 2021, quando o governador de Roraima, Antônio Denarium (PP), aprovou a Lei Estadual nº 1.453/2021 no qual legalizava o garimpo com o uso de mercúrio. Mas em setembro, o Supremo Tribunal Federal (STF) derrubou o projeto. A decisão da Suprema Corte é considerada uma vitória principalmente para os povos indígenas. Pois praticamente, todos os garimpos estão dentro das terras indígenas.


É notável que o garimpo ilegal nas terras indígenas não acabou com o veto do Projeto de Lei. Enquanto isso, doenças como malária, pneumonia e principalmente o coronavírus, colocam todos em perigo. Não só a vida do povo yanomami, mas também do povo macuxi que sofrem com o garimpo ilegal na TI Raposa Serra do Sol, mais precisamente na região da Raposa.


Terra Indígena Raposa Serra do Sol

Foto: Nailson Almeida

Na região da Raposa, no Município de Normandia, o garimpo está concentrado nas proximidades das comunidades indígenas Raposa 1 e 2, na Serra do Atola. No local existem quatro garimpos, com nomes de garimpo 1, 2, 3 e 4. Moradores afirmam que eram cinco, mas um foi desativado.


Aos arredores, no pé da serra, é possível ver muitos barracos que olhando nas imagens capturadas lembra uma verdadeira favela. Pessoas da região estimam que existam mais de 5 mil garimpeiros trabalhando vindos de vários lugares do Estado e do Brasil.


Por conta dessa proximidade, os garimpeiros trabalham principalmente à noite. Da comunidade Raposa 2, é possível notar essa atuação, carros, motos e caminhões durante toda a noite fazem o transporte das pedras nas “borocas” para os moinhos. Boroca é o nome que dão a cada saco cheio com pedras extraídas da serra.


Os moradores próximos ao local do garimpo temem por suas vidas por conta das ameaças de morte, principalmente lideranças indígenas da região. Uma moradora da comunidade Raposa 2 que prefere não se identificar, relata que também teme pela proliferação de doenças, violência, drogas, prostituição e bebidas alcóolicas.


‘Eu fui lá no garimpo, mas não fui pra trabalhar. Fui para presenciar de perto a real situação. A coisa está muito feia por lá, muita destruição, estão acabando com a serra. Tem também muita contaminação. Vi pessoas de diversas regiões lá trabalhando, inclusive muitos que conheço. Fui lá antes da pandemia, falei pra eles sobre as doenças que poderiam pegar no garimpo. Falei sobre a Covid-19, que ainda não tinha chegado em Roraima e logo depois chegou. Então temo que isso volte a aumentar, lá teve muitos casos de malária. Fico com receio que a pandemia não vai acabar enquanto esse garimpo estiver aumentando. O posto de saúde da comunidade às vezes não dá conta de atender os doentes que vem do garimpo. Às vezes as pessoas lá são ameaçadas, a enfermeira foi ameaçada por várias vezes por não prestar atendimento médico a eles. Mas não vai aumentar só as doenças, mas também muitas outras coisas como a violência, por exemplo” comentou.


Para outro morador da comunidade Raposa 2, que também prefere não se identificar por conta de já ter sofrido diversas ameaças, ele destaca que o garimpo na região já existe há mais de 20 anos, porém, de 2017 em diante se intensificou. Ele destaca que antes a pessoa que descobriu o ponto na serra do Atola, trabalhava de forma artesanal. Hoje os garimpeiros quebram as pedras de forma manual ou com martelete. Ainda não existem máquinas pesadas para a extração das rochas da serra. Mas existem os moinhos que é para onde são levadas as pedras e são trituradas. Ele comenta ainda que já foram feitas denúncias para que as autoridades competentes tomassem as medidas cabíveis, porém, nada ainda foi feito. A gente sabe que tem empresário financiando o garimpo, principalmente com os moinhos.

A Polícia Federal juntamente com o Exército fizeram uma operação em março do ano de 2020 na Comunidade do Napoleão, dentro da Terra Indígena da Raposa Serra do Sol, na ação foram encontrados 1.000 garimpeiros.

As lideranças indígenas da localidade vivem constantemente ameaçadas desde que suas denúncias fizeram a PF desativar um dos garimpos. Um dos líderes indígenas da região, que por conta das ameaças preferiu não se identificar, relatou que sempre há presença do exército na localidade. Mas, os garimpeiros mantêm contato direto com pessoas ligadas a alguém muito influente que sempre sabem quando eles vão ao garimpo e relatou que quando o exército ou Polícia Federal chegam ao local, eles deixam só indígenas na frente para dizer que é somente eles que estão lá e trabalham artesanalmente. “Eles sabem quando tem operação, têm pessoas muito rica por trás, eles usam alguns parentes para dizer que é artesanal, mas quando o Exército ou Polícia Federal vai embora, os não indígenas voltam e o número de pessoas é cada vez maior, nós já enviamos vários ofícios aos órgãos e o garimpo só aumenta” finalizou o líder indígena.

Estivemos durante 2 dias dentro da Terra Indígena da Raposa, observamos uma movimentação maior de motos e caminhões a partir das 18 horas. Moradores afirmam que há a presença de muitos foragidos dentro do Garimpo, colocando em risco toda a população da região.

O assessor Jurídico