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Narrativa sobre a Amazônia ganha novas páginas em livro do PPGCOM/UFRR

Segundo volume da coleção “Amazônia Comunicada” reúne pesquisas sobre identidades, memórias, povos indígenas, migrações e narrativas midiáticas produzidas a partir do extremo Norte do Brasil. Durante muito tempo, o conhecimento produzido na Amazônia precisou atravessar rios largos, estradas difíceis e fronteiras simbólicas para ser ouvido no restante do país. Em 1932, o jornalista amazonense Lúcio Fiuza descreveu esse isolamento como uma espécie de “terra das letras mortas”, onde o trabalho intelectual dos amazônidas corria o risco de desaparecer sem encontrar leitores. Quase um século depois, pesquisadores da comunicação em Roraima abrem novas passagens para que essas letras circulem. O Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Roraima (PPGCOM/UFRR) acaba de lançar o livro Amazônia Comunicada: identidades amazônicas em perspectiva comunicacional. Organizada pelos professores Luís Francisco Munaro e Rafael Sbeghen Hoff, a publicação possui 259 páginas e foi editada pela Observatório Edições, de Palmas, no Tocantins. A obra reúne parte da produção científica apresentada durante o VII Seminário Internacional Comunicação, Territorialidades e Saberes Amazônicos. São pesquisas desenvolvidas por docentes, estudantes e pesquisadores interessados em compreender como memória, identidade e comunicação atravessam Roraima e outros territórios do extremo norte amazônico. “O objetivo da obra, que dá continuidade ao primeiro volume de Amazônia Comunicada, é tornar mais acessível o conhecimento produzido no extremo Norte do país, com foco nas identidades, memórias, mídias e manifestações culturais amazônidas. Ele nasce dentro do PPGCOM, envolve seus docentes e discentes, e busca comunicar com um público mais amplo num momento em que a Amazônia se transformou em um foco internacional de discussões”, explica o professor Luís Francisco Munaro, um dos organizadores. Uma coleção feita para comunicar a Amazônia O novo livro é o segundo volume da coleção Amazônia Comunicada. O primeiro, intitulado Amazônia Comunicada: reflexões desde o extremo Norte do Brasil, foi publicado em 2025 pela Editora da UFRR e organizado pelos professores José Tarcísio Oliveira Filho, Marcio Granez e Vilso Junior Santi. Os dois volumes compartilham o mesmo compromisso: fazer circular o conhecimento produzido na região e enfrentar o isolamento histórico que ainda separa a Amazônia dos principais centros de produção e difusão científica do país. A proposta não é apenas falar sobre a Amazônia, mas comunicar a região a partir de quem vive, pesquisa e interpreta suas transformações cotidianas. É uma diferença importante. Pois aqui, a floresta não aparece como cenário imóvel nem Roraima como margem distante do mapa. Os territórios amazônicos são apresentados como espaços vivos, atravessados por disputas, memórias, deslocamentos, tecnologias e formas próprias de produzir conhecimento. Memórias que resistem ao apagamento O livro está organizado em dois grandes eixos. O primeiro, “Memória, Patrimônio e Identidades Amazônicas”, reúne estudos sobre acervos, instituições de memória, cerimônias, migrações e produções audiovisuais. Entre os temas abordados estão a preservação da memória Yanomami no Centro de Documentação Indígena do Instituto Missões Consolata; o enfraquecimento do Museu Integrado de Roraima e as possibilidades de uma museologia digital inclusiva; e o papel das solenidades da UFRR na construção da memória e da identidade institucional. O eixo também acompanha histórias de migrantes haitianos que reconstruíram suas vidas em Boa Vista e analisa o cinema de Jaider Esbell como espaço de resistência e enunciação decolonial. Outro estudo percorre diferentes produções audiovisuais para investigar como imagens e emoções sobre a Amazônia sobrevivem, transformam-se e reaparecem ao longo do tempo. São pesquisas que se aproximam dos arquivos como quem abre uma casa antiga: cada documento guarda vozes, silêncios e lembranças que podem desaparecer quando não encontram quem cuide delas. Jornalismo, migrações e disputas de representação O segundo eixo, “Jornalismo, Narrativas Midiáticas e Representações”, volta-se para os modos como o jornalismo e as plataformas digitais constroem sentidos sobre pessoas, acontecimentos e territórios amazônicos. Os capítulos analisam a participação dos telespectadores do Bom Dia Roraima por meio do WhatsApp; a cobertura do caso “Pangaré” pela Folha de Boa Vista, entre 1993 e 1995; e a representação de mulheres migrantes venezuelanas durante as eleições presidenciais da Venezuela, em 2024. Outros estudos investigam as performances de migrantes venezuelanos no Instagram, o trabalho do jornalismo investigativo no combate à desinformação socioambiental e as narrativas que associam indígenas Warao e Yanomami à criminalidade e à insegurança. As pesquisas mostram que as notícias não apenas descrevem a realidade. Elas também selecionam personagens, constroem enquadramentos e ajudam a determinar quem será percebido como cidadão, estrangeiro, vítima ou ameaça. Na fronteira amazônica, onde diferentes mundos se encontram todos os dias, essas escolhas ganham ainda mais peso. Conhecimento nascido no extremo Norte Produzido a partir das experiências de pesquisa em Roraima, o novo volume procura dialogar com debates nacionais e internacionais sobre memória, identidade, migração, povos indígenas, patrimônio, jornalismo e comunicação digital. A publicação também evidencia a participação de estudantes na produção científica do PPGCOM/UFRR. Ao reunir docentes e discentes em uma mesma obra, o livro transforma resultados de pesquisas, dissertações e projetos acadêmicos em conhecimento capaz de alcançar leitores para além das salas de aula. Mais do que apresentar respostas definitivas, Amazônia Comunicada abre caminhos para novas investigações e reafirma o papel da universidade pública na preservação das memórias e na construção de narrativas comprometidas com os povos amazônicos. Se antes as letras produzidas na região pareciam condenadas ao silêncio, agora elas atravessam páginas e fronteiras. E a Amazônia, tantas vezes narrada de longe, assume passo-a-passo a palavra para contar de si mesma. Serviço Livro (GRATUITO AQUI): Amazônia Comunicada: identidades amazônicas em perspectiva comunicacional Organizadores: Luís Francisco Munaro e Rafael Sbeghen Hoff Instituição: Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFRR Editora: Observatório Edições Local e ano: Palmas, Tocantins, 2026 Número de páginas: 259 ISBN: 978-65-977070-9-6

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