Memória não entra em quarentena: coletânea do PPGCOM-UFRR registra vozes populares da pandemia
Comunicação e Memória Popular da Pandemia reúne relatos, pesquisas e testemunhos de Roraima sobre Covid-19, desinformação, jornalismo, povos tradicionais, migração, políticas públicas e resistência; e chega aos leitores em e-book gratuito pela loja da Gênio Editorial. A pandemia passou, mas não foi embora. Ficou nas casas, nas ausências, nos áudios guardados no celular, nas fotografias sem abraço, nas cicatrizes do corpo e da alma. É para que essas vozes não sejam empurradas para o esquecimento que acaba de ser publicada a coletânea Comunicação e Memória Popular da Pandemia, obra vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Roraima (PPGCOM/UFRR), dentro da coleção Tuna’Po’tîrî – Comunicação e Saberes Amazônicos. Organizado a partir de autorias compartilhadas entre professores, mestrandos egressos do PPGCOM/UFRR e sujeitos roraimenses diretamente impactados pela crise sanitária, o livro transforma a pandemia em matéria viva de memória, pesquisa e escuta pública. A obra está disponível em formato e-book, com download gratuito pela loja da Gênio Editorial, ampliando o acesso para estudantes, pesquisadores, jornalistas, educadores e leitores interessados em compreender o que a Covid-19 revelou sobre comunicação, desigualdade, política e vida cotidiana. A coletânea nasce do Projeto Memória Popular da Pandemia (MPP), iniciativa pensada como espaço aberto de escuta, partilha e registro de histórias vividas durante a Covid-19. Mais do que reunir lembranças, o projeto aposta na memória como forma de resistência. Afinal, quando uma sociedade esquece suas dores, abre caminho para repetir seus erros. E, em tempos de eleições majoritárias, lembrar também é um gesto democrático: ajuda o eleitor a reconhecer discursos, cobrar responsabilidades e distinguir informação pública de mentira organizada. O livro é apresentado pelos professores Vilso Junior Santi e José Tarcísio Oliveira Filho. Traz prefácio do professor Mozahir Salomão Bruck, da PUC-Minas, com reflexão sobre o dever de memória e a importância de transformar a experiência pandêmica em aprendizado. O posfácio é assinado por Maurício Elias Zouein, em texto que percorre as cicatrizes e as flores deixadas por um período de dor, esperança e reinvenção coletiva. Eixos temáticos A obra se organiza em seis eixos temáticos. O primeiro, “Verdade, Jornalismo e Memória”, discute o papel da imprensa e da verdade factual em tempos de fake news, negacionismo científico e pós-verdade. O segundo, “Impacto nos Povos e Comunidades Tradicionais”, reúne experiências de indígenas, ribeirinhos e comunidades tradicionais diante da pandemia, incluindo estratégias de cuidado, denúncias contra o garimpo ilegal e práticas etnocomunicativas, como a campanha #ForaGarimpoForaCovid. O terceiro eixo, “Desafios Migrantes”, ilumina a situação de pessoas venezuelanas, indígenas transfronteiriças, refugiadas e deslocadas em Roraima, mostrando como a barreira linguística, a precariedade social e a falta de informação agravaram vulnerabilidades. O quarto, “Impacto Psicológico, Luta e Superação”, registra o medo, o luto, a ansiedade, a perda de familiares e a força de quem transformou sofrimento em alerta público contra a desinformação e em defesa da vacinação. Já o quinto eixo, “Profissionais na Linha de Frente”, dá voz a trabalhadores da saúde, da comunicação e de serviços essenciais que enfrentaram o vírus em condições de risco. São relatos de desgaste, coragem, solidão e compromisso ético. O sexto e último eixo, “A Pandemia e as Políticas Públicas”, analisa as falhas institucionais, a precariedade do sistema de saúde, a fome, o desemprego e episódios como o escândalo dos respiradores em Roraima, discutindo o papel do jornalismo na fiscalização do poder público. Em cada capítulo, a coletânea costura depoimentos populares e relatos de pesquisa, como se abrisse uma roda de conversa em que a universidade não fala sozinha. Escuta, organiza, interpreta e devolve à sociedade um mosaico de experiências que não cabem nas estatísticas oficiais. Ali, a pandemia deixa de ser apenas número, curva epidemiológica ou boletim sanitário. Torna-se história narrada por quem perdeu, cuidou, migrou, trabalhou, resistiu e sobreviveu. A publicação também chega em momento simbólico. Em ano de disputa eleitoral, quando promessas, algoritmos, cortes de vídeo e campanhas digitais tentam moldar a percepção pública, a coletânea lembra que comunicação não é detalhe: é território de vida, verdade e poder. E, a memória da pandemia, ajuda a perguntar quem protegeu a população, quem espalhou desinformação, quem silenciou diante da morte e quem transformou a palavra em cuidado coletivo. Por isso, Comunicação e Memória Popular da Pandemia interessa não apenas à universidade. Interessa aos estudantes que estão aprendendo a pesquisar, aos jornalistas que cobriram ou ainda tentam compreender aquele tempo, aos professores que viram a sala de aula virar tela, aos trabalhadores que sustentaram a vida quando tudo parecia desabar e aos eleitores que sabem que votar também exige memória. No fim, o livro afirma uma ideia simples e imensa: lembrar é um modo de não morrer duas vezes. A primeira morte já foi a das vidas interrompidas. A segunda seria o apagamento de suas histórias. Contra esse esquecimento, a coletânea ergue um arquivo de vozes populares, roraimenses, amazônicas e brasileiras. Um livro para ler com atenção, discutir em sala de aula, compartilhar nas redes e carregar para dentro do debate público – até porque democracia sem memória vira terreno fértil para o mesmo pesadelo voltar, vestido de novidade.

