Loucura e saúde mental: Uma análise psicológica do personagem Coringa

Por Glenda Dinelly* Uma análise psicológica sem (tem sim, alguns) spoilers Escrever sobre o Coringa é como emprestar do cinema uma licença quase que poética para abordar assuntos polêmicos. Sanidade mental, loucura, psicopatia, individualismo, etc. O Coringa é aquele tipo de personagem que passeia por alguns universos para além do próprio mundo DC Comics. Universos que colidem com a nossa própria realidade. Ora aumentada, ora diminuída. Falar sobre um personagem tão específico (utilizando o melhor dos adjetivos) é falar sobre o mundo que vivemos, sobre nós mesmos, em alguma proporção, individual ou coletivamente. Dia 03 de outubro de 2019 entrou em cartaz o filme do Coringa, o Joker, que já alcança números astronômicos de bilheteria. Quem assistiu o longa pode relatar um pouco sobre o que viu. Todo cuidado aqui é pouco, sem muitos spoilers, além daqueles que você certamente já sabe. A História do Joker - Curiosidades O Joker nasceu oficialmente em abril 1940, na HQ #01 do Batman. Alguns creditam a sua criação a uma inspiração trazida dos cinemas, no filme o Homem que Ri de 1928. Se fosse um ser real, o Coringa teria 79 anos. São considerados seus criadores Jerry Robinson, Bill Finger e Bob Kane, mesmo que não haja consenso entre eles sobre quem de fato “deu à luz” ao vilão mais risonho dos quadrinhos. Além de Coringa, ele é chamado de Joker, Príncipe Palhaço do Crime ou Bobo da Corte do Genocídio. Nomes bastante sugestivos para um vilão que se veste de palhaço. 1. O coringa é um vilão fora do normal, sim, muito. 2. Ele ama o Batman, e não vive sem ele. (Ele nunca quis matá-lo, de fato) 3. O filme Joker (2019) conta a história do Coringa bem diferente do que conhecemos até agora Transformações ao longo dos anos Ao longo dos anos, o personagem teve seu caráter e personalidade em constante transformação. Se inicialmente era retratado como psicopata, sádico e doentio, com o passar o tempo tornou-se mais um ladrão pateta que adorava fazer brincadeiras. Em 1940, o Coringa era um ladrão de joalherias que assassinava sem pena suas vítimas. Foi a partir de 1960 que o personagem teve parte de sua personalidade alterada para um tom mais aprazível, devido a uma certa censura da Comics Magazine Association of America (Associação Americana de Revistas em Quadrinhos), instituição criada em 1950 com forte caráter moralista. Em 1973, o Joker transformou-se mais uma vez, passando a ter características mais homicidas e com forte obsessão no Batman. Pode-se dizer que o Coringa se tornou o maior inimigo do Cavaleiro das Trevas. Entre as histórias que contam a sua origem, a mais conhecida é de a de 1951, reproduzida na Detetive Comics #168, na qual o personagem em uma tentativa de fuga se joga em um tanque com produtos químicos, que acabam por transformar toda a sua aparência. Essa é a explicação mais aceitável para a pele branca, o cabelo verde, os lábios vermelhos como cerejas e a deformação característica em formato de constante sorriso no rosto. Dizem que o após sobreviver ao tanque, o Joker enlouquece por perceber todas as deformidades em seu corpo, tornando-se esse vilão doentio que conhecemos. A imprevisibilidade é outra característica marcante no Coringa, com atos anárquicos e psicopáticos cheios de crueldade e prazer em matar, além de causar dor e fazer piadas sobre isso. Nas HQ’s e romances gráficos o Coringa é retratado com personalidades bastantes distintas às adaptadas aos cinemas. Entre as maiores maldades do Coringa, estão em invadir o lar da Família Gordon, balear e deixar Barbara Gordon paraplégica. Ele já tentou vender uma ogiva nuclear a terroristas, já sequestrou e matou Jason Todd (o segundo Robin), após claro, espanca-lo com um pé de cabra. Além disso, ele já tentou matar diversos líderes mundiais que estavam presentes em uma assembleia geral da ONU. Em outro momento, ele também já envenenou Lois Lene com a finalidade de atingir o Superman. Sem dúvida, o Coringa deixou de ser um mero personagem e ganhou mais corpo como o vilão que é. Nos cinemas 1966 – Cesar Romero interpretou o vilão, com um tom mais humorístico e não-assassino, um Coringa bastante caricato. 1989 - Dirigido pelo aclamado Tim Burton, temos na interpretação de Jack Nicholson um Coringa muito violento, concedendo ao ator ótimas críticas. Hoje muitos considerando esse melhor Coringa de todos os tempos. 2006 – Heath Ledger se encarrega de interpretar um vilão mais sombrio e doentio. A interpretação rende frutos ao ator, como um Oscar de melhor ator coadjuvante, um Globo de Ouro, prêmios que só foram entregues após a morte do ator, aos 28 anos. 2015- Dessa vez temos um Coringa que pouco aparece, interpretado por Jered Leto, no filme Esquadrão Suicida, Joe, como é chamado no filme, tem poucas cenas, porém chama bastante atenção pela criatividade, imprevisibilidade e tatuagens. Apesar de agradar pouco os críticos, Leto conseguiu introduzir um vilão interessante. 2019- Joker, interpretado por Joaquin Phoenix, tem recebido críticas positivas até agora, além das salas de cinema lotadas. O filme é ambientado nos anos 1980. Escutamos algumas pessoas que viram o filme, que por sinal, está em cartaz. Samantha Rufino, Mariana Turco e Matheus Morais são alunos da Universidade Federal de Roraima. Confira: Conceitos de normalidade e loucura O que separa a sanidade da loucura? Você já parou para se perguntar? “Eu sou louco ou normal?” Aliás, o que é loucura e o que é normalidade? Para responder isso, temos primeiro que observar mais de perto o que é a loucura, mas será que usar como parâmetro alguns conceitos de normalidade seja algo realmente seguro? Esses modelos são confiáveis? Se a vida imita a arte ou a arte imita a vida, que seja. Vamos usar um personagem no mínimo fora da caixinha. O Coringa. Os Arquétipos Para isso, vamos recorrer a Carl Gustav Jung, psicanalista analítico que já falava sobre esses tais padrões sociais baseados em símbolos. Para o Jung, em todas sociedades existem fenômenos denominados arquétipos. Um arquétipo seria então uma espécie de imagem cristalizada de forma profunda no inconsciente coletivo da humanidade, ou seja, imagens universais que se originam de uma constante repetição passadas de gerações em gerações, como tendência estruturantes e invisíveis dos símbolos. Para que você entenda melhor, eis alguns exemplos de arquétipos: o inocente, o explorador, o sábio, o herói que deseja provar o seu valor por meio de ações corajosas e difíceis, o fora da lei que tem o desejo de vingança e revolução, o mago, que procura conhecer e dominar as leis que regem os universos e as coisas, o governante com seu desejo de ter controle, medo do caos e do golpe. A mãe, o velho sábio, o valentão... e por vai. E temos também o bobo da corte: que só deseja viver a alegria do momento, possui um medo enorme de se tornar maçante e utiliza como estratégia a brincadeira, esse arquétipo em particular, não está preocupado em se esconder do grupo, é um arquétipo verdadeiro, que leva uma vida descompromissada. E quanto ao arquétipo do louco? Bom, o Coringa é um personagem que passeia por dois arquétipos interessantes. O bobo da corte e o louco. Indo mais a fundo na mente do Coringa... Gênio do crime, sádico e doentio. Ele não é nenhum herói, pelo contrário, ele é um vilão. Ele não é um deus como O Kal El, ou uma guerreira como a Mulher Maravilha. Ele é um homem comum que se veste de palhaço. O Coringa é retratado como um vilão, que diga-se de passagem, não vive sem o Batman. Mas por que o Coringa chama tanto a atenção? Algumas perguntas em torno do personagem são bastantes comuns: o Joker é um louco num mundo são? Ou um são no mundo dos loucos? Ou só um louco que se diverte com o caos? Dá pra simpatizar com o Coringa? Em quais aspectos ele esbarra em nós mesmos? Indo mais fundo, ele surge e enfia o dedo na ferida de todos nós. O Coringa se torna um louco porque ele diz aqui o que nós não queremos ouvir, mas precisamos (talvez?). Dentre os vários Coringas já protagonizados, o que se sabe sobre o Coringa do Joaquin Phoenix é que ele possui uma doença mental, a sua característica mais marcante, que é a sua risada logo no início que não demonstra a sua maquiavelice, mas o seu problema. Ela (a risada) não condiz com a que ele está de fato está sentindo. A risada do Coringa vai mudando ao longo do tempo. Isso me fez lembrar uma música que diz que rir é bom, mas rir de tudo é desespero. Talvez seja um desesperado, ou não. Um desajustado. Arthur Fleck, é o seu verdadeiro nome, um cara com uma vida completamente sofrida, que além dos próprios problemas mentais ainda precisa cuidar da mãe, é violentado, e está constantemente sorrindo devido ao problema que possui, sorrir não é uma vontade, mas uma condição, mesmo quando seu olhar demonstra sofrimento. Num primeiro momento, quando você conhece o personagem é impossível não se conectar com a sua dor. Isso, de fato, gerou muitas críticas. Afinal de contas, por que diabos o cinema nos faz ter empatia com um louco sádico? Isso levaria outros a querer fazer o mesmo que o Coringa? Eis a pergunta. Acredito que não, o filme só conta a história de um sujeito sofrido, que tudo em sua vida dá errado. Essa história se repete e repete, como malhas o tempo todo na vida de qualquer outra pessoa em algum lugar do mundo. Arthur sonha em ser comediante, mas o público não vê graça nas suas piadas. Frases como “A pior parte de ter uma doença mental é que as pessoas esperam que você se comporte como se você não tivesse”. Ou “Só espero que a minha morte valha mais centavos que a minha vida” não são engraçadas para o grande público. O Arthur Fleck é um cara com uma vida desgraçada, tudo em sua vida dá errado, um homem que sonha em ser humorista, mas acaba sendo ridicularizado. Bom, sem mais spoilers. Talvez o Coringa que nós conhecemos seja um produto do meio que vivemos, uma sociedade que consome, como a sociedade analisada por Bauman, uma modernidade líquida, como descrito no livro Amor Líquido – Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos. Para Bauman, as relações flexíveis geram níveis de insegurança sempre maiores. Na época atual, o ritmo incessante das transformações gera angústia e incertezas e dá espaço a uma nova lógica, pautada pelo individualismo e consumismo. O soco no estômago do Coringa em nós é revelado por essa ausência completa de escuta, de vinculação, de afetos relativizados sem muita profundidade. A gente não se para pra ouvir a dor e angústia dos outros. A gente precisa ter as respostas para a nossa vida o tempo todo! A sociedade te exige isso. Você precisa saber sobre a sua sexualidade, sobre o curso que você quer fazer, sobre a sua carreira, sobre seus amigos, precisa ter amigos, precisa ter seguidores, precisa ser visto, precisa de tanta coisa. Precisa tomar decisões ainda muito jovem. Por que o tempo corre, é líquido e se desfaz rapidamente. E por ser tão líquido ele gera as angústias. Mas será que o que a gente precisa, nós os jovens, é o que realmente queremos? Difícil responder. A História da Loucura Outro autor que apesar de ser do século passado, porém muito atual é o Foucault, ele reflete bastante sobre a loucura, de um ponto de vista filosófico, histórico e psicológico. Para ele a loucura não é um dado biológico exatamente, a loucura seria então um fato de cultura. Cada época tem uma visão do que é um homem normal. Historicamente e socialmente, para Foucault, a diferenciação entre o homem normal e o homem louco começa a ganhar forma no Renascimento. A loucura é vista como uma das formas da razão. Uma visão de que todos podemos aprender com a loucura e de que todos temos um pouco de louco. Para o renascimento a loucura era como um espelho da sociedade de alguma forma. Foi somente a partir do século 17, na era Cartesiana que as coisas começaram a mudar, o louco passa a ser o errado. Somente a razão tem direito à verdade, o louco passa ser excluído dessa tal “verdade”. Os loucos, nessa época, começam a ser internados, segregados. Lembrando que os alcoólatras e os homossexuais eram internados como loucos e com os loucos nos antigos hospícios. No século 19 as coisas mais uma vez mudam para os loucos, muda-se a ideia que ele é um criminoso, ele passa a ser visto como um doente. O hospital e a psiquiatria passam a ter domínio sobre o louco. O louco então, “nasce” nos hospitais psiquiátricos. O nascimento simbólico do Coringa Bom, a gente tá te contando essa história toda para explicar que a sanidade e a loucura ao longo dos tempos sempre vão depender da narrativa contada por cada sociedade. No mundo ficcional do Joker, de fato, quando Arthur Fleck morre simbolicamente, nasce o Coringa. Esse vilão que todos conhecemos. The Joker é a narrativa de um palhaço que vive fracassos contínuos, fracassos atrás de fracassos. Um sujeito com grandes dificuldades em reconstruir a sua história, de ser reconhecido, de ser amado. Arthur não sabe e não conhece a ideia de pertencimento, mas o Coringa acaba por fim trazendo esse gosto para ele, quando é reconhecido na sociedade como mau, como vilão, assassino ou justiceiro, dependendo da situação. Mas uma pergunta que não quer calar: “Se ele tivesse sido acolhido e aceito pela sociedade, ele teria se tornado esse vilão que hoje conhecemos?” Talvez a gente não tenha uma resposta pra essa pergunta, assim como para as outras que surgiram nesse texto, e bem, não é essa a ideia aqui. A gente tá falando de quadrinhos, de um personagem, de um filme, de um ponto de flexão. Sabemos que um filme sempre tem uma contextualização, nem todo o grande público vai entender, e frequentemente o verá como entretenimento, mas não sejamos inocentes em saber que filmes como esse têm lá as suas camadas cinematográficas, os seus subtextos. A análise do Coringa, por exemplo, diz respeito ao seu perfil psicológico baseado na narrativa vista por ele. E com toda a certeza, é uma visão distorcida da realidade. Não vamos “crisar” muito nisso. * Glenda Dinelly é psicóloga, além de estudante de Jornalismo da Universidade Federal de Roraima e atualmente cursa o 5º semestre. Instagram: @glenda__________

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