Indígenas de Roraima produzem artesanato sem políticas de incentivo

Por João Paulo Pires De acordo com o último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2010, quase 900 mil pessoas se declararam indígenas no Brasil. E Roraima é, proporcionalmente, o estado do país com a maior dessa população. Ao todo, 49.637 roraimenses se declararam indígenas. Segundo a Fundação Nacional do Índio (Funai), as etnias Macuxi, Taurepang, Y’ekuana, Yanomani, Wapixana, Wai-Wai, Sanoma, Patamona e Ingaricó estão dentro do território de Roraima, cada uma com ritos, costumes e tradições diferentes. Uma destas expressões culturais milenares é o artesanato, que faz parte do folclore e revela usos e características de cada região do estado, como o manejo de cerâmica e de fibras animais, como o couro ou vegetais, com raízes, palhas e cipós. Além dessa representação, também serve como fonte de renda para as comunidades que o produzem. A artesã da etnia macuxi Teresa Marinho trabalha há quinze anos produzindo cestos feitos com fibras de buriti e de jacitara, palmeiras encontradas na região do lavrado. Para ela, com uma política séria de incentivo à produção cultural indígena, muitas famílias poderiam viver exclusivamente do artesanato. “Cada vez mais consigo tirar o sustento da minha família vendendo [artesanato]. Melhorou há uns anos porque agora existe interesse de colecionadores. Mas para ser sincera, é mais gente de fora do que daqui, porque o roraimense conhece pouco”, disse. Desde 2015, o artesanato indígena de Roraima conta com certificado de origem, que atesta procedência do produto e do fabricante. Em tese, o documento também proporciona ao artesão a oportunidade de pedir financiamento junto a bancos para a atividade que exerce. A Agência de Desenvolvimento de Roraima possui linhas de créditos de incentivo ao artesanato e todas as pessoas indígenas ou não indígenas que atendam os critérios de aprovação de créditos, podem ser beneficiadas com linhas de créditos de até R$ 15 mil por CPF. A prefeitura de Boa Vista não tem programa específico voltado para a produção, mas possui dois pontos de vendas: um na Orla Taumanã e outro no Centro de Turismo Velia Coutinho, onde ocasionalmente é exposto artesanato indígena. O problema, segundo Teresa Marinho, é que falta um trabalho de ponta do poder público, como oferecimento de linhas de crédito de valor e juros baixos, além de ajuda no escoamento nas comunidades de difícil acesso, o que poderia impulsionar a produção local. “É fácil dizer que existe crédito, mas na prática isso é mais complicado. Estamos falando de pessoas humildes, morando em comunidades isoladas. Existe muita coisa bonita e delicada feita nos lugares em que você menos espera”, revelou. A diretora do Departamento de Artesanato Indígena da Secretaria Estadual do Índio (SEI), Franciêmina de Sousa, diz que o órgão trabalha com artesãos indígenas de nove etnias e gera renda para mais de 80 famílias. O departamento é responsável por captar peças de artesanato direto nas comunidades para exposição, comercialização, e vendas desses materiais. Algumas peças —como pulseiras de miçangas, bolsas de palha, peneiras e panelas de barro— podem chegar a mais de R$ 300, dependendo do acabamento e material utilizado para produção, e os artesãos recebem todo o valor do que é vendido. É feita ainda distribuição de kits de ferramentas nas comunidades para fabricação de panelas de barro, cestaria e biojoias. São utensílios para elaboração de artesanato, como alicate, foice e facão para extração vegetal, além de carrinho de mão e picareta para tirar a argila no caso da fabricação de panelas de barro. “São distribuídos durante oficinas como incentivo. Chamamos os artesãos que sabem fazer esses trabalhos para incentivar os mais jovens e passar para os seus descendentes os saberes e cultura indígena”, declarou a diretora. Ela destacou ainda que o trabalho de preservação também é feito com o patrimônio cultural imaterial, como costumes, rituais e danças tradicionais. O orçamento direcionado da secretaria para o trabalho é de R$ 157 mil, mesmo valor do ano passado, que é utilizado para gastos com logística, pagamento de instrutores, compra de materiais e aluguel de tendas. Não há nenhum convênio ou captação de recursos junto ao governo federal para investimento na área. Outra questão é que não existem dados oficiais do poder público, de entidades patronais e organizações como o Conselho Indígena de Roraima (CIR) que ajudem a medir o impacto do artesanato na economia local, ou mesmo saber o que essa produção gera para o estado e municípios em números ou valores reais. Segundo especialistas, esse estudo é necessário para avaliar como políticas de incentivo podem ser planejadas e executadas a médio e longo prazo. Um exemplo da força econômica que o artesanato indígena local move pode ser observado na comunidade indígena da Raposa, no município de Normandia, onde há alguns anos, o foco da produção era em atividades primárias como agricultura e pecuária. Porém, segundo o tuxaua (líder da comunidade) Damildes Paulino, hoje, a produção de panelas de barro é o que mais gera renda na região. “Dependemos diretamente disso. Além de fortalecer nossa identidade cultural, é uma forma de ocupar os jovens e evitar que os nossos valores se percam”, disse. A comunidade realiza anualmente nos meses de novembro o Festival das Panelas de Barro. Este ano, ele ocorreu nos dias 8, 9 e 10 de novembro e contou com mais de 500 participantes, inclusive com visitantes de outros estados do Brasil.

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