Futebol feminino roraimense: dificuldades e perspectivas

A luta por igualdade e visibilidade na Copa do Mundo 2019 deixa atletas esperançosas com futuro do esporte. Fabiola Valentina, Juliana Dama, Luiza de Lucas e Mariana Turco. Os desafios no futebol feminino sempre existiram. Durante quase 40 anos o esporte foi proibido para as mulheres no país, por “ir contra a natureza feminina”. Link do Áudio Enquanto países como Inglaterra e Estados Unidos desenvolviam e estimulavam o futebol feminino, o Brasil retardou sua evolução. Como resultado, as atletas brasileiras enfrentam inúmeras dificuldades, como invisibilidade, preconceito e falta de investimentos. Este cenário, no entanto, vem se transformando pouco a pouco com a luta de milhares de atletas. Copa do Mundo 2019: uma luta por igualdade Durante a Copa do Mundo 2019, sediada na França, a seleção brasileira não teve a melhor de suas atuações, mas foi motivo de vitórias. Pela primeira vez na história, os jogos foram transmitidos ao vivo pela televisão aberta, na Rede Globo, maior líder de audiência no país. Nos gramados e na mídia, o público acompanhou a camisa dez levantar a voz por igualdade. Seis vezes eleita a melhor jogadora do mundo, Marta disputou seu quinto mundial e alcançou o título de maior artilheira das Copas com seu 17º gol, ultrapassando o recorde do alemão Klose. - Esse recorde representa bastante, porque não é só a jogadora Marta, mas as mulheres, num esporte que ainda é masculino para muitos, temos uma mulher como a maior artilheira das Copas. É para todas elas - disse a atleta em entrevista ao Globo Esporte. Sem contrato com empresas de material esportivo desde julho de 2018, Marta entrou em campo com chuteira sem patrocínio. No lugar, carregava o símbolo da campanha por igualdade de gênero, para o qual apontava quando fazia um gol. Link do vídeo A eliminação, no entanto, veio cedo, com a derrota da seleção brasileira pela França nas oitavas de final. Apesar do resultado não ser o esperado, a passagem do time pela Copa 2019 fez história. Na saída, Marta fez seu último apelo para a nova geração. Link do vídeo - É querer mais, treinar mais, estar pronta para jogar mais 90, 30 minutos e mais quantos minutos forem necessários. É isso que peço para as meninas. Não vai ter uma Formiga para sempre, uma Marta, uma Cristiane. O futebol feminino depende de vocês para sobreviver. Pensem nisso, valorizem mais. Chorem no começo para sorrir no fim – afirmou Marta, com lágrimas nos olhos. Nova geração: as atletas roraimenses Em Roraima, assim como no restante do país, não é diferente. Centenas de garotas sonham em seguir carreira no futebol, mas esbarram na dura realidade. O preconceito, muitas vezes, é o primeiro obstáculo. - Preconceito? Bastante, foi o que se tornou minha grande dificuldade! Principalmente no período de escola, porque sempre estive no meio dos garotos. Sempre me senti excluída das meninas e inferior aos meninos - conta a atleta Bruna Castro, 20, jogadora do Atlético Roraima. Outras dificuldades surgem quando entram em um time. Não há apoio, nem financiamento. Materiais básicos, como bolas ou redes, são normalmente adquiridos com recursos de premiações. - Acho que o mais difícil é sermos reconhecidas. Não temos nenhum tipo de apoio e na maioria das vezes só somos procuradas em época de campanha - disse a atleta Isabel Alves, 24, auxiliar técnica do Real Madrid Roraima. Além disso, a maior parte das equipes não possui sede para treinamento. A praça localizada no bairro Caranã é compartilhada entre cerca de cinco times femininos. - Esse espaço era só um gramado. Colocamos as traves e fomos aperfeiçoando. Hoje todo mundo treina no mesmo espaço - conta Bennaze Rates, técnico do time Atlético Roraima. Conciliar emprego e esporte também não é tarefa fácil. Como não são remuneradas no futebol, grande parte das atletas trabalham durante o dia, e seguem dupla jornada . - É bem complicado porque eu sou mãe, trabalho com consultoria e também estudo. É uma vida bem difícil, mas a gente sempre consegue arranjar um tempinho pra jogar futebol - Missilene Gomes, 36, jogadora do Atlético Roraima. Com tantas barreiras no futebol feminino brasileiro, o objetivo de muitas se torna alcançar a carreira internacional, como é o caso da roraimense Vitória Almeida, de 20 anos. Após passar pelo Atlético RR e Iranduba (AM), a jogadora conquistou o continente asiático. Jogou pelo Vicsales Okinawa, no Japão, e atualmente está no Hebei China Fortune. As dificuldades foram muitas, mas nunca pensou em desistir do seu sonho. - Algumas atletas conseguem viver financeiramente no Brasil, porém a maioria não. Hoje o exterior está dando muitas oportunidades para várias atletas conquistarem os seus objetivos. Infelizmente, essa desvalorização acaba prejudicando a todos, mas acredito que muita coisa vai mudar para melhor! - afirma a atleta, otimista. Futuro: expectativas para o futebol feminino Nunca antes na história tivemos uma Copa feminina tão comentada e divulgada. Quebrando recordes de audiência em diversos países do mundo e ultrapassando as previsões iniciais da FIFA, podemos considerar a Copa do Mundo 2019 como a melhor de todos os tempos. No Brasil não seria diferente, com a transmissão pela Rede Globo acompanhamos todos os jogos da seleção brasileira ao vivo pela TV aberta. Além disso também tivemos a possibilidade de assistir os jogos desde a fase de grupo pela Bandeirantes e o torneio na íntegra pelo SporTV. Com o envolvimento do público e o incentivo da mídia ficou evidente que queremos ver mais das meninas em campo. Visibilidade é essencial para levar patrocínio as nossas atletas. A grande audiência que tivemos na Copa é sinal de oportunidades para o futebol feminino, afinal os patrocinadores estão sempre de olho nos números. Neste ano, pela primeira vez na história, vimos nossas atletas fazendo propagandas para empresas como Guaraná, Itaú e o Boticário. No cenário regional as expectativas são positivas. O técnico do Atlético Roraima, Bennaze, está esperançoso com os próximos anos - Com a realização da Copa do Mundo 2019 a gente sente uma tendência do futebol feminino crescer cada vez mais. A prova disso é que vamos ter um campeonato municipal onde a premiação do feminino vai ser igual a do masculino. Com isso a gente já começa a ver que as coisas estão começando a melhorar. Para Bruna Castro (20) do Atlético Roraima, a Copa significa representatividade - Foi um impulso que o futebol feminino recebeu para mostrar que o futebol não é só pra homem. A gente se garante com a bola no pé! É hora de mostrar para o mundo que o país do futebol não se resume ao futebol masculino, mas que temos grandes atletas mulheres que estão lutando para ganhar espaço em campo e esperando pela visibilidade que merecem. Vamos continuar a resistir! Veja nossa galeria de fotos: Conheça alguns dos times aqui de Roraima:

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