Erros do governo federal comprometem gestão da saúde indígena em Roraima.

Por: Marcos Joel Santos Em março de 2020 a Organização Mundial de Saúde (OMS), reconheceu a covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, como pandemia global. Os sintomas mais comuns são semelhantes aos de uma gripe. Em parte dos casos as pessoas podem desenvolver problemas respiratórios e até neurológicos. Em comunidades indígenas, porém, as consequências do coronavírus podem ser ainda mais graves, especialmente durante a chamada segunda onda. A Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) estima que os povos originários são mais vulneráveis a doenças respiratórias como a covid-19. As infecções deste tipo continuam a ser a principal causa de mortalidade entre crianças indígenas. O distanciamento social é uma das principais medidas de prevenção contra o coronavírus. A precaução, entretanto, nem sempre é fácil de ser implementada, como explica a psicóloga Gardeny de Paula, da SESAI: “a gente trabalhou muito na educação, orientamos bastante, falamos sobre a importância da máscara, sobre a importância de não sair da comunidade, isso também não foi fácil e, principalmente não poder visitar os parentes. Foi um choque para eles, porque eles não são acostumados a ficar em casa, a não visitar os parentes, então a gente teve que bater bastante nessa tecla.” Em terras indígenas, contudo, ficar em casa apenas não resolve, como aponta nota da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib). As aldeias continuam a ser invadidas, são muitas as falhas do governo federal, que vão desde o incentivo à ocupação, à falta de proteção dos territórios indígenas contra madeireiros e garimpeiros. Ao longo da história brasileira, doenças respiratórias trazidas pelos invasores exterminaram populações indígenas inteiras. O Ministério Público Federal (MPF) e representantes de entidades indígenas, diante do alto índice de propagação do vírus, e do que consideram como maneira errática que o governo federal vem conduzindo a crise, avaliam como real o risco do genocídio dos indígenas brasileiros. Erivalda Ramos, da etnia macuxi, moradora da comunidade do Contão, no município de Pacaraima/RR contabiliza a perda recente de dois membros da comunidade: “foi o seu Neir e a dona Olivia... coronavírus tirou a vida de duas pessoas, foi muito chocante para nós aqui, indígena. Eu achei que foi muito triste, está sendo triste agora, que começou de novo mais forte.” Romário da Silva, agente de saúde indígena relatou o grande índice de infectados e a demora da Sesai para implementar ações de saúde na comunidade onde dona Erivalda reside: “Foram detectados mais de 250 casos positivos, demorou mas vieram fazer essa ação! Uma tropa de profissionais que vieram lá da Sesai, foram mais de 10 profissionais, num mutirão de três dias, ai foi feito teste rápido para mais de 500 pessoas, 252 casos positivos, se não me engano. Teve gente que nem sabia que estava com covid. Foi fazer o teste, deu positivo!” Entre as medidas recomendadas ao Executivo pelo MPF estão a inclusão dos indígenas em grupos prioritários de vacinação. A vacinação, no entanto, já está prejudicada por declarações falsas do presidente da República, aponta Jadiel Dias*, pesquisador que atua na gestão da covid-19 em áreas indígenas em Roraima, afirma que a condição dos povos indígenas residentes em áreas remotas, com dificuldade de acesso à informação, tornou-se um campo fértil para a propagação de notícias falsas, como a de que quem tomar vacina vai virar jacaré. “Essa falta de informação, essas Fake News, tiveram um impacto muito grande dentro das comunidades indígenas, porque aumentou a demanda por medicamentos que já foi comprovado que não são eficazes contra esse vírus, produto da propaganda enganosa por parte do presidente Bolsonaro, mentirosa até!” Em nota, o Conselho Indigenista Missionário (CIMI) aponta que as posturas e ações por parte de membros do governo federal são gravíssimas, pois ocorrem em um período de extrema sensibilidade, enfraquecem o enfrentamento à pandemia e contribuem para o extermínio das populações indígenas do Brasil. O médico Henrique Gomes* afirma que é necessário que o Estado faça a sua parte, promovendo a saúde indígena em todas as suas esferas, e proteja o indígena nas diferentes dimensões de contato com o mundo dito "civilizado." De acordo com o CIMI, até agora, os órgãos competentes não fizeram o suficiente para conter o avanço da pandemia entre os povos indígenas, “É urgente que o governo tome medidas para proteger esses povos, antes que o massacre seja ainda maior”, finaliza. * Entrevistas concedidas sob garantia do anonimato da fonte e de seu local de trabalho. PARA SABER MAIS: Boletim Epidemiológico da SESAI

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