Diversidade cultural na UFRR: Desafios, experiências e histórias pra contar

Por: Adriã Galvão e Jaqueline Lima Edição: Eduardo Fredi Fotos: Arquivo Pessoal Localizado no extremo norte do Brasil, o Estado de Roraima é conhecido por sua miscigenação e pluralidade de culturas. Com o sonho da qualificação no ensino superior muitos migram para as terras de Macunaima em busca do tão desejado diploma, e assim, adentram à Universidade Federal de Roraima, lugar onde se encontra uma enorme diversidade de culturas,raças, credos e orientações, tornando-se assim um ambiente plural. O reflexo dessa diversidade é reconhecido com os alunos de mais 20 países ativos nos cursos da instituição. Dentre eles, Benin, República do Congo, Colômbia, México, Venezuela, Angola, Haiti, Peru, Honduras entre outros. De acordo com V Pesquisa do Perfil Socioeconômico e Cultural de Graduação essa pluralidade pode ser visualizada também nos mais de 50% dos alunos pardos, 20% indígenas, 15% brancos, 6% negros e 1% amarelos. Há quem diga também que o engajamento no movimento negro da carioca Rafaela André, floresceu com em sua chegada ao curso de Jornalismo da UFRR. Na instituição federal de ensino superior em Roraima encontramos também a história de Luís Beltran, o hondurenho que que achou no curso de mestrado da UFRR, uma oportunidade de estudar as riquezas da Amazônia. A sede por conhecimento pode atravessar fronteiras, como foi o caso do africano Hector Hounkonnou, que deixou seu país Benin para realizar o sonho de ser médico. O líder indígena Enoque Raposo, viveu até os 25 anos em sua comunidade indígena, na Raposa Serra do Sol, mas enxergou a necessidade de ser representatividade para seu povo, ingressando assim no ensino superior. "Tenho uma meta que pé me tornar uma representatividade negra para que outras mulheres negras se inspirem" , diz Rafaela André. A acadêmica do sétimo semestre de jornalismo, repórter e Miss Beleza Negra, Rafaela de Oliveira André, 22 anos, descendente de quilombola, nascida e criada em Petrópolis, Rio de Janeiro, chegou em Roraima em 2015 para prestar o vestibular e conta que enfrentou muitas dificuldades durante os primeiros meses no Estado. Há quatro anos sem ver seus pais, a radialista precisou se adaptar a uma realidade totalmente diferente, mas o objetivo de se tornar jornalista lhe dá forças “ A diferença cultural é muito grande e demorei para me acostumar com o dialeto daqui, mas encontrei na UFRR amigos que me ajudaram a superar as diferenças e eu sinto muita saudade da minha família, mas to aqui por um bem maior. Dizem que quem bebe da água do rio branco fica, e eu fiquei”, disse. De frente com o preconceito “Na Universidade não sofri racismo, mas em outros âmbitos sim. Meu primeiro contato com o preconceito racial em Roraima foi em 2015, quando fiz curso preparatório para o vestibular. Um professor do cursinho me disse que eu não sofria preconceito, pois era uma ‘preta’ bonita. ”, explica Rafaela. Atualmente, a repórter trabalha na TV Cultura e fala sobre o racismo encontrado no ambiente profissional. “ Fui fazer uma campanha e precisava ser maquiada, e a maquiadora virou pra mim e disse que por sorte enviaram uma foto minha porque ela só andava com a maleta dos presidenciáveis.Então, observei que o índice de representatividade negra na Assembleia Legislativa de Roraima e na Câmara ainda é muito baixa pra alguém dizer pra mim que só anda com base para pele branca.” dizer pra mim que só anda com base para pele branca.", conta com emoção. No fim de suas reportagens, Rafaela assina com o sobrenome André, nome do fazendeiro que comprou seus antepassados escravos. Ela diz que é uma forma de demonstrar suas origens. A repórter que emplacou nove matérias em rede nacional em uma semana contou que vive um dia de cada vez e não pensa muito sobre o futuro, porém, possui uma meta principal, se tornar uma representatividade negra, para que outras mulheres negras se inspirem em lutar por seus objetivos. “Busco manter vivo o legado do meu pai e fazer meus próprios caminhos” Pensar na presença de indígenas no ensino superior era até pouco tempo uma fantasia. Para Enoque Raposo, índio macuxi, de 38 anos, um legítimo representante da comunidade da Raposa I, essa frase é apenas mais um desafio a ser enfrentado. O estudante do curso de Mestrado da Universidade Federal de Roraima (UFRR) faz parte dos mais de 1300 alunos indígenas matriculados na instituição. O número representa também, maior porcentagem de indígenas ativos na graduação em universidades públicas do Brasil. O sonho de cursar a graduação fez com que Enoque deixasse a comunidade aos 25 anos e migrasse para Boa vista. Motivado pelo seu pai, Caetano Raposo, um dos maiores líderes da causa indígena no estado de Roraima, enoque enxergou no ensino superior a força da para lutar ainda mais pelo seu povo. Atualmente é formado em Secretariado Executivo pela UFRR e pós-graduado em Gestão de Turismo/ The Fullbright Program – Flórida/USA e mestrando do curso de Geociências. Enoque conta que seus maiores desafios foram o barulho da cidade e o preconceito enraizado nas pessoas. “Começar uma vida na cidade, deixar de ter uma vida livre e passar a ser regulado por relógio, foi desafiador, mas nada se compara a mudança cultural, ao medo do diferente, ao olhar preconceituoso. Entrei na graduação pelo vestibular indígena e isso, decretou o rumo da minha vida ao longo do curso. O preconceito sempre existiu, mas me fortaleceu”, explicou. A sede pela educação e pela causa cultural fez com que Enoque buscasse novas línguas. Aprendeu o inglês, espanhol, português. Além de aperfeiçoar seus conhecimentos na língua macuxi. Entretanto foi pelo turismo que se encantou e aprofundou os estudos. Considerado uma liderança indígena, Enoque explica ainda que lutar pelas questões sociais indígenas, é o um dos seus propósitos e que seu pai tem influência nisso. “Busco manter vivo o legado do meu pai e fazer meus próprios caminhos, sempre respaldado por seus valores a nós transmitidos. A causa indígena sempre me motivou à não apenas sonhar, mas também realizar”, finalizou. A pesquisa aplicada nas áreas de turismo comunitário em territórios indígenas, diminuiu a saudade de casa. Sempre que a rotina turbulenta da cidade permite, ele corre para tranquilidade da Raposa I. Pescar, tomar banho de rio, reviver suas origens é sua gratificação diária. Da África para a América Latina Hector Hounkonnou, 29 anos, nasceu em Benin, África, e veio para a Universidade Federal de Roraima estudar medicina através do Programa de Estudantes-Convênio de Graduação, por meio de um convênio entre Brasil e Benin. No Início das aulas, ele almejava ser cirurgião, mas no meio do curso teve mais afinidade com a neurologia, mas não descarta outras áreas de atuação. Hector conta que de qualquer forma, sua finalidade é salvar vidas o que sempre foi seu sonho. "Toda minha família mora em Benin. A coisa do que tenho mais saudades é ela. Minha mãe e meus irmãos , mas lembro do meu sonho e do que poderia oferecer para eles, então enxugo minhas lágrimas e sigo em frente.", disse emocionado. Um dos principais desafios vividos por Hector no Brasil foi o idioma, tendo em vista que em seu país a língua oficial é o francês. Ele conta que também precisou mudar totalmente seu guarda roupa e seu jeito de se comunicar. Apesar das experiências vividas, o terceiro de seis irmãos, sente muita saudade de casa, mas agradece à tecnologia, porque assim ele pode falar com sua família por chamadas de vídeo. “Sabemos que mesmo com as redes sociais, tem um momento em que a saudade aperta, mas apesar disso, agradeço a UFRR por ter me acolhido de braços abertos. Sou feliz por fazer parte de uma instituição tão diversa.”, contou. Direto da América Central Honduras, que significa profundezas na língua espanhola, localizada no coração da América Central, é uma república montanhosa com pouco mais de 8,3 milhões de habitantes, conhecida por suas praias e rios cristalinos. O hondurenho Luis Beltrán, 26, deixou toda essa beleza caribenha para cursar o mestrado em Recursos Naturais, através do Programa de Pós-graduação da Universidade Federal de Roraima. Apesar de morar em um país rico em diversidade natural, Beltrán veio ao Brasil com o sonho de conhecer a Amazônia e aprofundar seu conhecimento sobre o famoso bioma brasileiro. “Para mim foi a melhor experiência. Principalmente na questão profissional porque conhecer parte da Amazônia foi muito legal. ”, explicou Luís. Conhecer as comidas típicas brasileiras foi uma grande experiência. Um de seus maiores desafios foi ter que substituir o milho, alimentação típica de Honduras pela mandioca. O feijão também é diferente, mas trás uma pequena lembrança de casa. Suas comidas brasileiras preferidas são feijoada, farinha, farofa e paçoca. Para o hondurenho , conhecer culinárias é reviver com um gostinho a mais. Morando há dois anos no Brasil, Luís conta que a Universidade Federal de Roraima é sua segunda casa. Aqui ele conseguiu ingressar no mestrado, fazer aulas de português e apoio para participar de Congressos Científicos e publicações de artigos. Luís enfatiza como foi acolhido pelos alunos, servidores. Além do suporte oferecido pela instituição. “ Além de estudar, eu vim para conhecer a cultura do Brasil e trazer um pouco da minha e fazer parte da pluralidade que existe na UFRR”, ressaltou.

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