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  • Foto do escritorElane Oliveira

Povo Yanomami - conheça os costumes e a cultura do povo que surgiu há cerca de mil anos

Atualizado: 7 de ago. de 2023

Ricos em cultura, tradições e língua, os Yanomami lutam há mais de uma década para manter seus costumes e essência vivos, junto com o seu povo, que é constantemente ameaçado de extinção


Por: Cauã Peres, Felipe Lopes, Rayane Lima, Tiago Lima e Yasmim Trindade


Mulheres e crianças Yanomami na Terra Indígena Yanomami, Surucucu. Foto: Fernando Frazão

O termo "Yanomami" denota a palavra "ser humano", termo que engloba todos os povos indígenas que compartilham as raízes linguísticas Yanomami, conferindo significado aos grupos culturais Yanomae, Yanymami, Sanima e Ninam.


O povo, que surgiu há cerca de mil anos, ocupa hoje parte do extremo norte do Brasil, na região do estado do Amazonas, Roraima e Sul da Venezuela, em regiões de floresta e áreas montanhosas. Segundo a Associação Yanomami Hutukara e o Comitê Xapiri, a Terra Indígena Yanomami tem uma população com mais de 31 mil indígenas vivendo em mais de 380 comunidades.


Considerados uma das 10 maiores etnias do Brasil, o povo Yanomami luta contra os seus maiores inimigos há várias décadas o desmatamento e o garimpo ilegal. Dário Yanomami, vice-presidente da Hutukara, conta que a cultura também é afetada pela destruição das terras indígenas.

“Hoje nós estamos sofrendo junto com a terra. Porque a terra tem a função de sustentar o conhecimento e a realidade. Sem terra não tem cultura, sem animais e plantas não tem cultura”, afirmou.

Dário Yanomami, vice-presidente Hutukara Associação Yanomami, em coletiva com os alunos da UFRR. Foto: Rayane Lima


Os costumes dentro da comunidade - a vivência de Loretta Emiri


Nascida em 1947 na Itália,Loretta Emiri estabeleceu-se em Roraima em 1977, onde conviveu durante anos com os indígenas Yanomami das regiões do Catrimani, Ajarani e Demini. A indigenista italiana veio ao Brasil com o desejo de se tornar escritora e, acima de tudo, conhecer diferentes culturas e entender um mundo completamente diferente do dela.


“Os quatro anos e meio vividos diretamente entre os Yanomami, em sua pátria-floresta, foram os mais felizes da minha vida. No começo trabalhei na área da assistência sanitária, e em campanhas de vacinações, pois a construção da estrada Perimetral Norte, quista pelos militares, tinha reduzido 13 aldeias a oito pequenos grupos de sobreviventes”, afirmou.


Dentre os trabalhos desenvolvidos por ela, estão o de assistência sanitária e um projeto chamado "Plano de Conscientização", do qual fazia parte a alfabetização de adultos na língua materna.


Terra Indígena Yanomami, Surucucu. Foto: Fernando Frazão

“As doenças introduzidas aos trabalhadores da estrada foram letais para os Yanomami, que não tinham anticorpos para doenças simples como gripe e/ou sarampo. Quando a situação se normalizou um pouco, passei a me dedicar ao estudo da língua e à alfabetização de adultos na língua materna”.

Segundo a antropóloga, a alfabetização era um dos meios de serviço, em nível de equipe, para auxiliar os indígenas a entenderem o que estava acontecendo em volta deles. “E o que estava acontecendo era a invasão de seu território por parte das frentes de expansão da sociedade nacional”, disse Loretta.


A escritora e indigenista conta que a Serra do Parima é o núcleo secular do universo Yanomami, o centro de onde este povo se expandiu. Durante o tempo em que viveu lá, cada maloca compreendia apenas uma habitação, onde coabitavam várias famílias extensas, ligadas por laços de inter casamentos, num total que varia de 30 a 100 pessoas. As malocas mais próximas formam conjuntos de grupos locais, que mantêm entre si contatos intensos, com relações sociais e rituais frequentes, constantes intercâmbios, trocas de bens e alianças matrimoniais.


“Nas proximidades da habitação, os indígenas utilizam uma área para abrir roças, onde cultivam alimentos, plantas usadas na produção de artefatos, plantas às quais atribuem poder mágico. Quase diariamente, os Yanomami utilizam uma área de 30 km de diâmetro para caçar, pescar, coletar frutos e matérias primas para produção de artefatos”, explicou.

Loretta conta que durante os anos em que esteve junto do povo, a cada quatro a oito anos os grupos locais se deslocam de dez a 30 km em razão do esgotamento da terra e do potencial de caça e coleta, mortes ou epidemias, habilidades entre as comunidades.


“A mobilidade caracteriza o modo de vida dos Yanomami e essa forma peculiar de adaptação ao meio garante a regeneração dos recursos por eles explorados, bem como a quantidade e diversidade da flora e fauna. Em outras palavras, podemos dizer que os Yanomami sempre respeitaram a natureza e mantiveram intacta a floresta amazônica até os dias de hoje: bem antes dos ocidentais descobrirem a ecologia, os indígenas a vivenciavam”, afirmou.

Somos sobreviventes, diz líder Yanomami


A liderança indígena Dário Yanomami conta que o povo defende a terra justamente porque ela que os sustenta, e que desde sempre são "sobreviventes".


"Nós povos indígenas, Yanomami, somos sobreviventes, a gente sabe sobreviver. Há muitos anos sabemos sobreviver porque a própria natureza oferece alimentos. Por isso sempre defendemos a terra, porque ela nos sustenta. A gente não tem mercado, não usa dinheiro, mas a própria natureza oferece. Tem açaí, tem buriti, tem bacaba, tem várias espécies de frutas, nossos pais não morriam de fome porque a natureza oferecia o alimento pra gente".


No seu relato de vivência na terra do povo indígena, Loretta Emiri reforça o que o líder Dário diz. O povo defende sua terra porque ela é sua sustentação, é de lá que vem a força de sobrevivência e luta.


“Para os Yanomami a terra é o suporte de sua vida social, um recurso aproveitado culturalmente, e não apenas um meio de subsistência, uma fonte de recursos materiais. Por isso sua demarcação não podia ser fragmentada e limitada a pequenas ilhas abrangendo apenas as malocas e suas imediações”, finalizou a indigenista.

O livro “Yanomami para brasileiro ver”, publicado em 1992, é uma das obras da escritora que introduz de maneira mais profunda sobre a cultura do povo indígena, dirigido especialmente aos jovens e estudantes.


Terra Indígena Yanomami, Surucucu. Foto: Fernando Frazão


Um dos únicos povos que ainda fala a própria língua


"Eu sou Yanomami, quando você fala cultura indígena você generaliza vários outros povos indígenas, se você fala cultura Yanomami, é especificamente a cultura Yanomami e Yekwana. Os Yekwana são outros parentes que têm uma língua diferente, o Caribe. O nosso tronco linguístico é diferente, ele não veio da Europa, ele nasceu com os Yanomami. Então essa nossa língua nasceu, através do surgimento dos Yanomami. Na terra Yanomami nós temos nove dialetos”, explicou Dário Yanomami.


O povo Yanomami representa uma pequena família linguística composta por quatro línguas. As línguas faladas pelos grupos Yanomami pertencem ao mesmo grupo linguístico:

  • Língua Sanomã (Roraima Ocidental);

  • Língua Yanomami (Yanomami / Oriental e Xamatari / Ocidental);

  • Língua Ninan (Mucajaí);

  • Língua Ajarani (Afluente do rio Branco).

A ramificação em seis línguas da família linguística Yanomami é a prova irrefutável de quanto antigo é esse povo e de sua remota e milenar ocupação da área. Esta evidência é reforçada pela própria tradição oral dos indígenas.


"Hoje, quase 100% dos Yanomami falam na sua língua, a nossa língua Yanomami é viva ainda, a nossa cultura é viva ainda. Se vocês perguntarem para outros indígenas, eles não tem a sua língua, foi ameaçada através da sociedade não indígena, através da colonização, a cidade dentro do nosso território ameaça muito a nossa cultura", finalizou Dário.

A cultura que surgiu há mais de mil anos atrás


A cultura dos Yanomami é de caráter coletivista, apesar da clara influência patriarcal baseada na forte divisão do trabalho entre homens e mulheres. Além disso, os traços culturais dessa população estão intimamente relacionados a outros grupos indígenas amazônicos, como rituais de iniciação xamânica e fortes tradições xamânicas.


Foto: Victor Moriyama/ISA

Nessa estrutura, os pajés (ou xamãs) têm grande importância porque são eles que se comunicam com os espíritos auxiliares e são capazes de controlar os fenômenos naturais e garantir o bom funcionamento do grupo social em todos os seus aspectos e dinâmicas que inclui o lado espiritual.


O antropólogo e professor do curso de Antropologia da Universidade Federal de Roraima (UFRR), Pablo de Castro Albernaz, conta que a prática do xamanismo é muito mais que conhecer mitos, mas também cuidar do corpo, um processo de aprendizado muito demorado.


"São curadores [xamãs], são os grandes sábios dessa tradição, que se dá por um processo de estudo muito longo, que envolve interdições alimentares, interdições sexuais, um preparo do corpo e um trabalho muito demorado. Não só de conhecer os mitos, como também evitar", comentou.

O antropólogo comenta ainda sobre a árvore Ye'kuana, da qual os xamãs utilizam o pó, para ‘sonhar com a grande alma da floresta’ e assim adquirir conhecimento.


“A ye'kuana é uma árvore sagrada que contém o pó responsável por permitir que os indígenas que o utilizam consigam ver os espíritos da floresta, espíritos esses que os ligam à sabedoria”, afirmou Pablo.

Os costumes Yanomami incluem festas e rituais que marcam momentos importantes para a comunidade como nascimentos, noivados e óbitos. A singularidade do povo também se expressa na pintura corporal e nos acessórios usados ​​por mulheres e homens. Um ponto forte da cultura deles é o artesanato, tecem redes e cestos, que servem para carregar alimentos ou trocar com outras aldeias.


Sobre as pinturas que algumas pessoas colocam em seus corpos, a gestão da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) revela que os símbolos estão relacionados à proteção individual de cada pessoa.


Povo Yanomami sofre para manter costumes em evidência


A cultura Yanomami tem sido ameaçada pela pressão do mundo moderno, incluindo o desmatamento, a mineração e a exploração de recursos naturais em suas terras. Nos últimos anos, a comunidade Yanomami tem lutado para proteger suas terras e sua cultura, e tem trabalhado para garantir sua sobrevivência em um mundo em mudança.


Como relatou o líder indígena, todos as atividades culturais dos Yanomami estão ameaçadas pelo avanço do garimpo ilegal. Desde 2019, lideranças Yanomami alertam para um novo e ameaçador aumento de garimpeiros na região. Somente em 2020, foram descobertos 500 hectares de degradação ambiental devido à mineração ilegal de ouro.


Uma das formas de manter a cultura vida é por meio de denúncias aos representantes públicos e meios de comunicação e na colaboração com pesquisadores e estudiosos dos povos indígenas. Um exemplo é o documentário de Gullane Distribuidora, “A Última Floresta”, onde retrata a vida e os costumes do grupo Yanomami e mostra como o garimpo ilegal, que voltou a crescer nos últimos dois anos, está colocando em risco os indígenas e as florestas.


Matéria desenvolvida durante a disciplina de Redação Jornalística IV, com a supervisão da professora Antônia Costa e monitoria de Fernanda Fernandes e Paola Carvalho.







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