Neuber Uchôa, Cruzando Fronteiras.

September 2, 2019

 

"Muito prazer, estou aqui pra dizer
Que canto pra minha aldeia, sou parte da teia
Da aranha sou par
E como o rio que me banha e que te manha
É branco do mesmo trigo
Eu sou o cio da tribo
E posso até fecundar".
(Cruviana- Neuber Uchôa)


Uma figura ímpar. Compositor, cantor, artista, músico, poeta...macuxi, roraimeira, sem fronteiras...
Tive um prazer imensurável de poder entrevistar esta criatura singular, para um trabalho da faculdade e me encantei mais ainda com seu jeito simples e direto de falar.

Seja em companhia da família ou de amigos, o sorriso fácil e a conversa mansa, cheia de ensinamentos e causos dos mais diversos. Se possível ele falaria por uma semana e mais dois dias. Mas, nossa prosopopeia durou pouco, porém, o bastante para enaltecer ainda mais a boa imagem que eu já tinha deste menestrel do serrado.

 

Neuber Uchôa E Sua Influência Na Música Regional Como Ferramenta De Aprendizado Cultural.

 

 

 

Foto: Divulgação/Youtube

 

Segue detalhes da entrevista: 

 

 

Nome Completo: Neuber Francisco Melo Uchôa.

Nome Artístico: Neuber Uchôa. “Surgiu da ideia do mesmo não se tratar de um nome comum e também a influência dos amigos”.

 

JB: Como surgiu o seu interesse pela música? Ou, como a música surgiu em sua vida?

 

Neuber Uchôa: "Eu costumo dizer que quando eu nasci, eu não chorei, eu cantei. Comecei a cantar com 3 anos de idade. Desde novinho, por influência da minha mãe, eu já cantava em programas de auditório que tinha aqui na região, de um grande comunicador, Jaber Xaud¹.  “Aos treze anos a minha voz foi mudando, na fase de adolescência, então eu parei de cantar, fiquei com vergonha. Foi daí que passei a conhecer os instrumentos e passei a compor também, foi o meu purgatório para que cinco anos mais tarde, eu fazer o que eu consideraria minha primeira música, aos 18 anos de idade”. 

 

JB: E como você vê a influência da música em sua educação na infância e no homem que você é hoje?

 

NU: “Quando eu comecei a cantar, só tinha uma rádio AM e fechava as onze horas da noite (23h.) junto com a energia que acabava. Aos 15 minutos para as onze da noite dava uma piscada, que anunciava que as pessoas tinham que pegar suas lamparinas, velas...esse era o meu universo. Eu ouvia muita música de rádio, Roberto Carlos, Martinho da Villa, cantores populares do rádio dos anos 60. Então posso dizer que fui muito bem influenciado para a formação do homem que sou hoje”.

 

JB: Quando criança, você se imaginava ser o músico que é hoje?

 

NU: “Quando eu fiz 33 anos de idade, juntava os amigos e fazia uma curtição que virou uma tradição, todo ano fazer um show no meu aniversário. Então, quando eu fiz 50 anos eu reencontrei um grande amigo (quando éramos crianças morávamos perto da orla do rio) e me lembrei de quando brincávamos, tinha aquela coisa de um perguntar para o outro, o que você vai ser quando crescer e eu dizia: -eu não vou ser, eu já sou um artista. Eu não me imagino sendo outra coisa. Já fui escrivão de polícia, professor, eletricitário, bancário, taquígrafo..., mas eu sempre soube o que eu queria ser desde cedo. Formei minha personalidade muito cedo”.

 

JB: Quem ou quais foram as maiores influências do início da carreira? E ainda o são hoje?

 

NU: “Meus ídolos continuam firmes e fortes, quase todos beirando os 80 anos, Chico (Buarque), Caetano (Veloso) e Gilberto Gil, são minhas referências principais e há 45, quase 50 anos, os caras fazem a minha cabeça. Mas também existem outros, Lenine, Chico César, Zeca Baleiro. Inclusive, eu, como artista, aprendo muito com esta nova geração, tem uma frase de Caetano que ele escreveu há 50 anos atrás, “da música Tropicália, que eu gosto muito, que reflete bem isso. Eu me vejo envolvido com esta juventude, eles andam na minha casa, eu me alimento de tudo isso. Tenho muito orgulho disso”.

 

JB: Sendo um cantor e compositor do extremo norte do Brasil, que canta as belezas da região e, principalmente do Estado de Roraima, diferente de muitos artistas, você resolveu ficar por aqui mesmo. Por que você não escolheu ir para o eixo Rio de Janeiro ou São Paulo, onde se concentram os grandes artistas?

 

NU: “Isso foi uma coisa pensada e repensada durante o núcleo do Movimento Roraimeira, desde 1984, a gente não tinha nem disco, não tinha nada, nem eu, nem Zeca Preto² , nem o Eliakim³ e, quando a gente se deu conta, que ao optarmos pelo regionalismo, a gente tinha notado que havíamos trocado o logos da prosperidade, pelo logos da posteridade, a gente sabia que não ia ganhar dinheiro com essa p..., então, foi uma opção mesmo ficar por aqui, eu poderia estar fazendo canções românticas para algum cantor aí, emplacar. Eu passei quatro anos no Rio de Janeiro, no início da década de 2001 a 2005, tentando me lançar como compositor, fiz uma Networking muito legal, conheci muita gente bacana, me dispus a ouvir mais do que falar. Foi um período muito bacana. Daí eu voltei para lançar um disco aqui, aí eu vi um movimento forte da juventude, que preencheu uma lacuna que eu deixei durante o tempo em que estive fora e, são umas pessoas com quem me relaciono bem”.

 

JB: No dia a dia a mídia noticia atos de violência motivados por algum tipo de preconceito. Em sua carreira, você passou por situações do tipo? Houve preconceitos?

 

NU: “Muito! Quando a gente optou pelo regionalismo, há 35 anos atrás, em 1984, o objeto de nossa arte que a gente assumiu a partir daquele momento, tinha a ver com acultura indígena, que por si só já era discriminada. A minha música é carregada de referências indígenas e caribenhas, porque nós concluímos que a nossa história é feita de pajés e corações de cada canto do mundo e não só da região, então a gente deve reverencias aos índios porque são nativos, já estavam aqui quando chegamos, desde a colonização. E olha como é bacana que a gente vive num estado que faz fronteira com dois países de línguas estranhas, línguas diferentes, Sui generis, uma completamente inglês e a outra hispânica, mas como são pobres, ninguém liga prá isso”.

 

JB: Você tem uma excelente discografia, três álbuns com ótima repercussão: Muito Prazer; Eu Preciso Aprender a Ser Pop e Damurida e, inclusive um trabalho de 1977. Logo, não é de hoje que você vem perpetuando o seu nome e levando a cultura do povo macuxi ao resto do país e porque não dizer ao mundo. Você acredita que a chamada era da globalização foi um bom resultado para os chamados artistas regionais? E em que isso pode ajudar no campo cultural?

 

NU: “Depois do surgimento do CD, depois da Revolução Tecnológica, a coisa nivelou por cima, foi uma coisa bacana nesse sentido, é possível, por exemplo, gravar um disco hoje aqui lá em Mucajaí (interior do estado), com a mesma tecnologia que tem lá no Japão. O Meu primeiro disco por exemplo, foi de 1985, um compacto simples, chamado Ave e do outro lado carrossel. Hoje, é só entrar na web que eu busco o que eu quiser, desde o timbre do pedal de uma bateria até o cara... e a gente, do Movimento Roraimeira, aprendeu com os Modernistas lá em 1922, com os Tropicalistas, que menos é mais e que a antropofagia, lá atrás, trouxeram muita coisa boa, o forró, o baião, muita coisa legal que os nordestinos trouxeram e que deve ser perpetuado enquanto célula, enquanto cultura. E tem também os guianenses, os venezuelanos, os índios, que formam a nossa base cultural”.

 

JB: O que inquieta Neuber Uchôa? O que o incomoda seriamente, ao ponto de deixa-lo chateado?

 

NU: “Depois dessa idade, 60 anos, eu não tenho mais estas coisas não. A não ser uma música ruim, uma aqui outra acolá, mas em resumo, não deixei inimigos em nenhum lugar por onde passei, graças a Deus”.

 

JB: Você se considera um ser inquieto, agitado? São muitos os projetos ou a coisa flui naturalmente?

 

NU: “Ainda tenho muitas coisas pra fazer. Embora eu não tenha mais 60 anos pela frente, mas se me restarem 20 anos de qualidade pra viver e os projetos vão nascendo toda hora, eu pareço uma fábrica que tá cheia de coisas e não tem ninguém pra vender. Como eu não tenho contrato com gravadoras, nunca gravei com pontualidade, eu devo ter uma média de umas 80 músicas, em todos estes anos. Portanto, eu devo ter mais o dobro disso aí pra gravar. Mesmo que eu parasse agora, ainda ficaria muita coisa, um legado. Meu novo trabalho, eu fiz tá com um mês e eu fiquei tão apaixonado que eu corri para o estúdio pra gravar, é uma música que se chama Fronteiras”.

 

JB: Muitos artistas de sua geração tinham uma causa, algo pelo qual lutar, uma ideologia a ser defendida. Com você foi diferente?

 

NU: “A gente optou por falar da beleza, porque o caminho regionalista pode ser estético ou político, você pode falar da beleza ou então só viver criticando, vomitando, não mate a mata ou muito discurso bacana, mas já tem muita gente fazendo isso. O Movimento Roraimeira surgiu em um momento em que Roraima estava sendo invadida por gente de todos os lugares do mundo, atrás do metal, era gente de todos os lugares, cada um contando e cantando a sua história, e a gente se deu conta que tinha que fazer alguma coisa. A gente tem o nosso charme, na maneira de falar, de comer, de cantar e, essa maneira é própria deste povo. Isso que eu chamo de antropofagia. Hoje minha música parece um baião e outras vezes uma salsa venezuelana, um merengue, carregado de expressões nativas e indígenas, expressões pelas quais eu sou apaixonado”.

 

JB: Você acredita que não haja mais estes estímulos nesta nova geração de músicos?

 

NU: “Não. Eu os vejo com bons olhos e ouço com bom ouvido. Embora com algumas críticas mas, na balança, eu sou otimista. Há potencial nessa nova geração. Como eu disse, hoje me relaciono super bem com este pessoal mais jovem, eles gravam minhas músicas, recentemente fiz uma campanha relacionado ao Acolhimento dos Migrantes, da ONU, aqui na região, eu dividi a cena da cantoria com eles, eu quis mostrar exatamente este lado, que eu fiz da minha carreira, uma continuidade do regionalismo, que eu sou uma referência pra eles, eu não fui apenas um coroa que estava só ali falando dos refugiados, eu fui um complemento e eles me ajudaram muito”.

 

JB: É fato que A Casa do Neuber é uma iniciativa em prol da cultura local. Lá se transpira o orgulho e o amor pelas raízes roraimenses. Pensando nisso, quais são os seus projetos futuros, artisticamente falando?

 

NU: “A casa está fechada há um ano e estamos sem lugar. Precisamos de um novo espaço. E a ideia é levar a para a cidade vizinha, aqui em Santa Cecília, padroeira dos músicos, um lugar bonito, bacana, as vias de acesso estão sendo duplicadas e, entre outros projetos, como uma gravação de um CD, DVD, temos esta vontade de voltar com aEu sempre fiz festa na minha casa, e sempre esteve cheia de artistas. Foram quase seis anos de e sentimos que está na hora de voltar, com a experiência da minha esposa Daméric, como administradora e como músico também. E vem novidade por aí, trata-se de uma música em solidariedade ao povo venezuelano que se encontra em situações precárias de vida, em nosso estado, em função da crise que assola a Venezuela, o trabalho todo é intitulado de Somos Todos Hermanos ou Fronteiras, estamos finalizando tudo, estou muito empolgado” (agitado).

 

JB: Politicamente falando, como você vê hoje, o futuro da música, não apenas regional, mas também numa escala global?

 

NU: “A arte existe porque a vida não basta! Um dos momentos mais lindos da minha música é quando eu tô solitário coma minha família, com as pessoas que eu amo. A música independe da política. A gente lamenta porque tem gente por aí com muito talento e sem nenhuma atitude e este mundo de hoje é de atitudes. Eu estou a sete anos sem gravar um disco, porque desde que eu me comprometi com a casa (de Neuber), desde que eu passei a produzir os outros, eu parei de me produzir. Por causa desta ânsia da política. Porque a casa (de Neuber), era antes de qualquer coisa, uma atitude política, só faltou hastear a bandeira e tocar o sino. O lance daqui prá frente tem que ser mais profissional sem perder a essência da regionalidade".

 

JB: Neuber Uchôa por ele mesmo:

 

NU: “Eu sou um artista amazônico. Eu quis conhecer a minha região e para amar alguma coisa você tem que conhecê-la. E conhecendo a minha região, me dei conta que gosto da farinha, de peixe, do meu povo, da boa conversa, do nosso charme, mesmo que eu adore viajar, mas gosto mesmo é de comer pirão de peixe, chibé com açaí, da nossa tranquilidade, do vento,da cruviana, dos índios, e quando eu resolvi colocar o índio no centro da minha arte, eu, um branquelo um tanto ciariba, eu sou feliz, eu sempre fui verdadeiro. E mesmo branquelo, me dou ao direito de dizer que nasci aqui na terra dos índios, e é um prazer e eles entendem e me aceitam com um carinho sensacional”.

Finaliza.

 

JB Fernandes - Boa Vista, 31 de agosto de 2019.

Fontes:

¹(professor de história e comunicador Jaber Moisés Xaud, pioneiro de Roraima faleceu aos 79 anos, no dia 18/12/2010, em consequência de um câncer de próstata. Ele foi o primeiro colunista social do estado e teve trajetória destacada também como radialista. O mestre Jaber, no campo político, chefiou o gabinete de vários governos do estado e foi vereador da capital, Boa Vista, no período de 1973 a 1978. O professor Jaber teve destaque também na cultura estadual, era amante das artes e, em função de sua atuação, ainda em vida, o Sesc deu o nome ao seu teatro de Teatro Jaber Xaud. - Fonte: Agência Senado Da Redação 20/12/2010, 19h16).

 

²(José Maria de Souza Garcia, conhecido artisticamente como Zeca Preto, nascido em Belém 10 de outubro de 1950, é cantor, compositor e poeta; desde 1975 canta as belezas da região Amazônica, utilizando termos indígenas e ritmos que mesclam as influências musicais do norte do Brasil, como o carimbó, síria com o merengue e a salsa do Caribe. Junto com Eliakin Rufino e Neuber Uchôa, foram os precursores do Movimento Cultural Roraimeira. - Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Zeca_Preto)

 

³(Eliakin Rufino de Souza, mais conhecido apenas como Eliakin Rufino, nascido em Boa Vista em 27 de maio de 1956, é um poeta, cantor, escritor, professor de filosofia, produtor cultural e jornalista brasileiro. É, junto com Zeca Preto e Neuber Uchôa, um dos integrantes do movimento Roraimeira — expressão cultural amazônica considerada por cientistas sociais como um dos expoentes máximos na construção da identidade roraimense – Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Eliakin_Rufino)

 

 

 

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