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Xamã Yanomami Davi Kopenawa e diretor Luiz Bolognesi falam da estreia do filme A Última Floresta

por Débora Pinto em 24 Setembro 2021


Foto: A Pública


  • Em entrevista à Mongabay, Davi Kopenawa e Luiz Bolognesi falam sobre o processo de produção de A Última Floresta, documentário que leva aos cinemas a realidade contemporânea do povo Yanomami.

  • A Terra Indígena Yanomami, situada em Roraima, é a maior do Brasil, habitada por 26 mil indígenas de oito povos, seis deles isolados; a reserva vive sob intensa pressão do garimpo ilegal e do desmatamento.

  • “O povo da cidade não conhece o povo Yanomami, nós moramos muito longe, perto das montanhas. É importante mostrar quem são os indígenas brasileiros, aqueles que cuidaram primeiro do nosso lugar, do nosso país”, diz Davi Kopenawa sobre a decisão de fazer o filme.


Davi Kopenawa, xamã e grande líder do povo indígena Yanomami, a partir de um sonho pôs-se a refletir: a televisão, o cinema e todas as imagens criadas e transmitidas são parte importante da cultura dos brancos. Concluiu que seria uma boa ideia fazer um filme. “O povo da cidade não reconhece o meu povo. Os brancos não tinham ido lá ainda para fazer um filme, para colocar na tela grande para eles olharem. Não é para ficar olhando só carro, navio, avião”, explica Kopenawa em entrevista concedida à Mongabay.

Já o diretor Luiz Bolognesi, ao ler o livro A Queda do Céu – Palavras de um Xamã Yanomami, relato autobiográfico de Kopenawa escrito em parceria com o etnólogo Bruce Albert, decidiu que queria fazer um filme com o xamã. A parceria tornou-se ainda mais profunda quando Bolognesi escolheu escrever o roteiro juntamente com Kopenawa e realizá-lo em colaboração com os indígenas da comunidade Watoriki, na Terra Indígena Yanomami, no estado de Roraima, extremo norte do país. Desses encontros nasceu A Última Floresta, documentário que estreou nas salas de cinema brasileiras em 9 de setembro.

Embora essa seja a estreia oficial nas telas grandes das cidades, desde sua primeira exibição no mês de abril, na Mostra Internacional de Documentários É tudo Verdade, a produção já venceu o prêmio do público na mostra Panorama no 71º Festival de Berlim, o de Melhor Filme no 18º Seoul Eco Film Festival, na Coreia do Sul, o de Melhor Documentário no Festival Zeichen der Natcht, em Berlim, e o Prêmio Artístico de Melhor Obra no Festival dos Povos Originários, de Montreal.

“Já andou bastante e vai continuar andando. Onde eu não posso andar, o filme estará levando as histórias dos Yanomami e a nossa resistência às ameaças que estamos sofrendo principalmente por causa dos invasores, dos garimpeiros e do governo Bolsonaro”, sinaliza o líder.

Segundo o relatório “Cicatrizes na floresta: evolução do garimpo ilegal na TI Yanomami em 2020″, produzido pela Hutukara Associação Yanomami (HAY) e Associação Wanasseduume Ye’kwana (Seduume), apenas entre janeiro e dezembro de 2020 uma área equivalente a 500 campos de futebol foi devastada na TI Yanomami e 500 hectares de Floresta Amazônica foram destruídos pelo garimpo ilegal no território – o que indica um aumento de 30% em relação ao ano anterior. A maior TI do país conta com pouco mais de 9.6 milhões de hectares (96,65 km² ) e é habitada por aproximadamente 26 mil indígenas de oito povos, (os Yanomami, os Ye’kwana e outros seis povos isolados).

Estima-se que pelo menos 25 mil garimpeiros ocupem a área atualmente incentivados pelo discurso presidencial, que defende abertamente a exploração de minérios nas TIs. Durante a pandemia de covid-19, a presença dos garimpeiros tem significado também um foco de contágio na Terra Indígena. Essa ameaça constante e concreta é um dos dispositivos narrativos centrais do filme.

Na entrevista que segue, Bolognesi e Kopenawa falam sobre o processo de produção, as conexões reveladas entre a realidade contemporânea Yanomami e a dos não-indígenas – como o avanço do protagonismo feminino e a dificuldade dos jovens diante de uma realidade cada vez mais fragmentada – e como o cinema pode contribuir para os povos indígenas brasileiros no momento em que lutam contra o avanço de mecanismos legais capazes de elevar consideravelmente a ameaça às suas existências, como a tese do marco temporal e o Projeto de Lei 490.



Mongabay: Como é estrear o filme A Última Floresta nos cinemas brasileiros em meio à votação do marco temporal e aos protestos de milhares de indígenas em Brasília? Qual a importância de trazer os Yanomami para as telas grandes das cidades exatamente neste momento?

Davi Kopenawa: Eu não estou preocupado com a votação do marco temporal, eu estou revoltado. A mesma coisa com o Projeto de Lei 490 [que visa facilitar o uso de terras indígenas para grandes projetos econômicos]. O filme conta as histórias do povo indígena Yanomami, mas isso não significa que o meu povo seja mais importante. Todos os povos indígenas são como um só povo, como um só coração, e agora todos nós estamos enfrentando sérias dificuldades. Então o filme pode ser bom para que mais gente conheça e para que as pessoas de boa cabeça se juntem a nós nessa luta.

Luiz Bolognesi: Por um lado é estranho, porque ainda estamos em meio a uma pandemia, então sabemos que não teremos um público tão expressivo. Por isso mesmo, daqui alguns meses o filme também será disponibilizado em streaming, para que o maior número possível de pessoas possa acessá-lo.

Mas é importante trazermos a potência Yanomami e desse filme para se somarem a uma luta que, infelizmente, não mobiliza a sociedade brasileira como deveria. Nós ainda carregamos essa negação da nossa raiz cultural indígena, da importância desses povos para o país que somos. E é justamente essa indiferença que permite o avanço do genocídio e do ecocídio que nós estamos presenciando no país atualmente. Então, estar estreando nos cinemas agora também pode ser considerado um ato de resistência.

Mongabay: Davi, por que você quis fazer esse filme?

Davi Kopenawa: Eu queria mostrar. Mostrar a minha comunidade, mostrar a verdadeira beleza moderna que temos na floresta do Brasil. Por isso eu disse ao Bolognesi: ‘vamos lá, vamos trabalhar, vamos fazer um filme bem trabalhado’. O povo da cidade não conhece o povo Yanomami, nós moramos muito longe, perto das montanhas [a TI Yanomami fica em Roraima, na fronteira com a Venezuela]. É importante mostrar quem são os indígenas brasileiros, aqueles que cuidaram primeiro do nosso lugar, do nosso país. Fazer um filme é importante porque quem não conhece pode se perguntar: ´quem é Davi?’, ‘como serão esses Yanomami?’, ‘será que eles são morenos, será que são feinhos’, ‘será que eles são bicho’? O nosso povo Yanomami não é bicho, não é selvagem. Então eu queria mostrar a imagem do meu pessoal e também a floresta, já que a floresta é a nossa casa – onde a gente vive, onde a gente come, onde a gente faz o estudos dos xapiri [seres sagrados da floresta], aprende interagindo com a natureza. Por isso foi bom encontrar o “Cabeça de urubu” [apelido carinhoso dado por Kopenawa ao diretor Luiz Bolognesi, por este ser careca]. Eu acho que é um jeito dos não-indígenas sentirem que é importante deixar o povo Yanomami protegido, e de garantir que possa viver em suas terras.



Mongabay: Luiz, no filme Ex-Pajé você contou a história de um pajé que perdeu o seu poder diante da proliferação da fé evangélica em sua comunidade. Com A Última Floresta, sua intenção era deixar ver a potência dos que conseguiram preservar sua cultura e seu sagrado, tendo como central a figura de Davi Kopenawa. Como foi construir, cinematograficamente, essa potência?

Luiz Bolognesi: Era muito importante isso para o Davi, que os Yanomami não aparecessem como os coitadinhos. Afinal de contas, segundo ele, nós é que estamos doentes e enfraquecidos – e quando começamos essas conversas a pandemia ainda nem tinha acontecido.

Acho que o dispositivo fundamental foi ter chamado o protagonista do filme para ser também autor, radicalizando nesse lugar. Quando nós começamos o trabalho, foi o Davi quem tomou as decisões, no sentido de quais seriam as linhas narrativas, quais histórias seriam contadas – e ele fazia essa escolha coletivamente, com os membros da sua comunidade. Isso foi o que permitiu esse transpirar de um cinema dentro da ética e da estética indígena.

Em alguns momentos eu defendia a