• Yara e Harlínis

Trajetória de migrantes: A história contada por quem vive



(Foto: Yara Walker)



Apesar da diminuição do fluxo migratório, segundo o exército brasileiro, ainda é frequente a passagem de estrangeiros que se aventuram a realizar o percurso até a capital de Roraima. Entretanto, antes de realizarem este caminho, os hotéis de Pacaraima são refúgio para muitos deles.

Passando pelos hotéis do município foi notável a grande presença de migrantes. Quem faz a rota pela BR 174 de carro são mais de 3h de viagem e cerca de 215,2 km. Este é o trajeto que a equipe realizou. Próximo a entrada do município fronteiriço, às 9h, avistamos um casal caminhando à beira da rodovia, com diversas bagagens e apenas duas garrafas de água.


TRÊS DIAS DE CAMINHADA


Abordamos os professores, Alejandro, 53 anos e Bianca Amajeza, 45 anos. Emocionados eles relatam que os dois filhos ficaram na Venezuela, com os avós. Durante a caminhada, houve apenas uma parada para repousar em hotéis e abrigos do município.

Assim como tantos outros,eles atravessaram a fronteira por uma rota alternativa e buscam na estrada uma carona para Boa Vista. A pé, eles já percorreram 781 km.



“Deixamos nossos filhos e estamos há três dias longe de casa, de Bolívar. Nós não temos mais dinheiro, estamos tentando carona aqui. Nossa família está separada e não temos nem remédio por lá. Não aguentamos mais esta situação,por isso nos arriscamos a realizar este trajeto. A procura de emprego e alimentação”, desabafa Bianca.

“Já passamos pelo posto de fiscalização e temos todos os documentos necessários. Vamos a Boa Vista tirar a carteira de trabalho para poder levar alimento para as crianças. Nós estamos sobrevivendo de ajuda. Vamos tentar um abrigo na capital e vamos torcer para que o nosso país saia da miséria. Estamos muito preocupados”, conta Alejandro.



PACARAIMA


Segundo o proprietário de um dos hotéis da cidade,Ubirajara Rodrigues, 74 anos, que trabalha há mais de 30 anos na região, muitos são os hóspedes estrangeiros que buscam uma vaga para pernoitar.

Ele explica que com o bloqueio a demanda diminuiu, mas após os 60 dias, houve uma ascensão destes números.” A cada dez hóspedes, nove são estrangeiros”, ressalta.

“A fronteira fechada não impediu que a população continue procurando os serviços de estalagem. Os clientes daqui solicitam as vagas e desde sempre tenho me empenhado em atender esta grande demanda. São pessoas que estão em busca de novos rumos, e antes mesmo da crise, o maior público sempre foram os estrangeiros do país vizinho”, afirma.

Ainda conforme o proprietário, apesar do equilíbrio econômico, a realidade na fronteira é preocupante. “ Agora não só a população com pouca renda procura sair da Venezuela, nós presenciamos aqui uma parcela da classe média alta procurando outros destinos e que passam pelo estabelecimento e contam a dificuldade deles por lá. É triste presenciar está situação”, relata.

Há quatro quadras do hotel, outro estabelecimento também sentiu os impactos dos últimos acontecimentos na fronteira. É o que explica a proprietária Ana Flores, 43 anos, “a maioria dos hóspedes são Venezuelanos”.

“A princípio sentimos um impacto negativo, mas apesar disso, a demanda continua crescente. As pessoas procuram repousam e seguem viagem. Antigamente os brasileiros faziam essa rota, agora são os estrangeiros. Todos os dias temos 20 hóspedes vindos da Venezuela”, finaliza.

No Estado

Desde 2015, Roraima a principal porta de entrada dos imigrantes venezuelanos, enfrenta o importante desafio de receber o crescente número da população. Eles entram no Brasil pela fronteira do estado, para fugir da fome, do desemprego, da falta de serviços de saúde e dos altos preços no país governado pelo presidente Nicolás Maduro.

A falta de oportunidade faz com que muitas famílias estrangeiras busquem alternativas para se manter no Brasil. Mesmo com a Operação Acolhida, que presta apoio aos migrantes em Pacaraima, a instabilidade econômica cria um cenário atípico na cidade, mas que é a fonte de renda para muitos venezuelanos.

Localizado na estrada da Vila Suapi, a 2,5 km da BR-174, o lixão do município recebe diariamente a visita de pessoas, que buscam no local produtos que possam ser comercializados. Isso, para manter o sustento de suas famílias.

Após receber orientações dos militares brasileiros, a equipe de reportagem percorreu uma estrada de terra até chegar ao chamado 'lixão da cidade'. A movimentação de venezuelanos em Pacaraima ainda é frequente.

Era cedo e os migrantes já se movimentavam em cima de uma colina, onde um caminhão coletor de lixo despejava os resíduos sólidos. Eram aproximadamente 15 pessoas, que em meio a fumaça, moscas e centenas de sacolas lixo, catavam o que poderia ser reciclado para revender. O setor comercial do município está com vendas equilibradas.


SEM COMIDA


Natural de Aragua, estado venezuelano, situado na região Centro-Setentrional, o pedreiro José Galindi, 48 anos, está há 4 meses no Brasil. Sem emprego e condições para sustentar a família, ele relata que catar ferro e papelão no local foi a única saída que encontrou para ganhar dinheiro.

"Recolho o que vem do caminhão de lixo. Saímos do nosso país porque a situação não está nada boa, pois não conseguimos emprego. Aqui não tiramos muito, mas dá para comprar a comida e sustentar minha esposa. Eu tenho cinco filhos, mas já são maiores de idade. Sem essa renda, não temos como sobreviver aqui", ressaltou.

A esposa de José está grávida de cinco meses e participa da coleta junto com ele. Rosimery Galindi, 24 anos, contou que mora nas proximidades do lixão, na casa de familiares. Ela e oito irmãos lutam para conseguir recursos financeiros do lado brasileiro da fronteira.

"Às vezes conseguimos R$ 2 ou R$ 3, o que serve somente para comprar a comida do dia, por exemplo, um arroz. A equipe da ONU também auxilia os catadores, com uma sacola de alimentos, mas isso não supre nossas necessidades. Moro com minha mãe, esposo e filha. Na Venezuela estava pior", afirmou.

Em Cacaras, onde vivia com a família antes da crise no país, a jovem era padeira. Rosimery explica que todos que trabalham com no lixão não tiveram oportunidade de emprego na cidade. "Eu não gosto de fazer isso, mas a necessidade nos impõe", completou.


OUTRA HISTÓRIA






Cantando e conversando com os amigos, o jovem Samuel Andrade, de Puerto La Cruz, está há um ano em Pacaraima. Ele também passa o dia inteiro no lixão para conseguir latinhas para vender.

Sem perder a alegria, mesmo em meio à situação de vulnerabilidade social, Samuel contou a trajetória que fez para chegar ao Brasil e como está vivendo.

"Preciso de dinheiro para sustentar meu filho e minha esposa. Saímos da Venezuela porque não tínhamos condições de sobreviver naquele lugar, pois estávamos passando fome e não tínhamos a quem recorrer", detalhou o jovem.

Samuel citou também que a falta de oportunidade de trabalho foi o principal motivo para ele buscar o lixão como fonte de renda. "Tenho que ficar o dia inteiro aqui para poder conseguir algo para vender. Eu realmente não consegui emprego".


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