Saúde mental em tempos de Covid-19 em Roraima

Atualizado: Mar 19

Por: Marcos Joel Santos

(Foto - Reprodução: www.vidanatural.org.br/saude-mental/)

“Viver e não ter a vergonha de ser feliz...” a letra da canção do saudoso Gonzaguinha por muitos anos pareceu traduzir uma espécie de “espírito do brasileiro”. O povo alegre que não fugia da raia e encarava as dificuldades com otimismo continua a fazer parte do nosso imaginário. Mas, embora os estereótipos ainda permaneçam, a realidade que já vinha mudando, alterou-se drasticamente com a pandemia de Covid-19. Somos um país de ansiosos e deprimidos! Que convivem com o desmonte do Sistema Único de Saúde (SUS) pelo governo Bolsonaro, e o abandono das políticas públicas de saúde mental.


Estudo recente da Organização Mundial da Saúde – OMS, reproduzido na revista Veja, aponta que, com mais de 16 milhões de doentes, o Brasil é o país mais deprimido e ansioso da América Latina. Mais de 10% da população com mais de 18 anos sofre com o problema, taxa bem acima da média global, de 4,4%. O país está no topo do ranking da depressão no continente, posição que ocupa desde 2017. Os índices brasileiros seguem na contramão da tendência mundial. Entre os anos de 2006 e 2015, por exemplo, a taxa de suicídios, evento associado à depressão, teve uma redução de 32% no mundo, enquanto o Brasil registrou aumento de 24% na sua população.


Arte - Reprodução - https://www.youtube.com/watch?v=FnsCSQwab-I)

1. O Que é Depressão.

De acordo com Aaron Beck e Brad Alford, autores do livro "Depressão, Causas e Tratamento", a doença é o quarto maior fator incapacitante das funções sociais e outras atividades da vida cotidiana. É responsável por cerca de 850 mil mortes a cada ano e afeta, aproximadamente, 121 milhões de pessoas no mundo. O diagnóstico do transtorno é realizado especialmente por meio de entrevistas clínicas que investigam a história de vida do paciente, seus principais sintomas, frequência e duração. A depressão configura-se como um estado de alterações do humor envolvendo irritabilidade, tristeza profunda, apatia, perda da capacidade de sentir prazer, além de alterações cognitivas e motoras. A doença difere de uma tristeza normal pela intensidade e duração prolongada dos sintomas.

O transtorno é definido pela presença de, no mínimo, cinco sintomas do chamado episódio depressivo maior por, pelo menos, duas semanas; um dos sintomas deve ser o humor deprimido, ou a perda do interesse ou prazer. De acordo com a Classificação Estatística Internacional de Doenças e problemas relacionados à saúde (CID-10), os episódios depressivos classificam-se em: (a) leve: quando o indivíduo ainda é capaz de realizar grande parte de suas atividades diárias; (b) moderado: quando o indivíduo começa a apresentar dificuldades no prosseguimento de sua vida cotidiana; e (c) grave: quando há intensos sentimentos de menos-valia, baixa autoestima e ideias suicidas.




2. A Ansiedade como problema cotidiano.

A ansiedade é uma reação esperada diante de situações de medo, dúvida ou expectativa. Nesses casos, funciona como um sinal que adapta a pessoa a enfrentar o desafio. O transtorno de ansiedade, porém, é um distúrbio caracterizado pela “preocupação excessiva”, persistente e relativamente incontrolável, que causa sofrimento, dificulta a adaptação, interfere na qualidade de vida, e vem acompanhado de outros sintomas, desproporcionais aos acontecimentos geradores, como inquietação, irritabilidade, fadiga, tensão muscular, dificuldade de sono e concentração, e perduram por, pelo menos seis meses, de acordo com o Manual de Classificação de Doenças Mentais (DSM -V) da Associação Americana de Psiquiatria. Os sintomas são comuns a várias condições clinicas e exigem tratamento específico.

Dentre os distúrbios de ansiedade encontram-se o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), associado a rituais compulsivos e ideias obsessivas; a fobia social, caracterizada pelo medo intenso de algo que não existe, ou não representa perigo; a síndrome do pânico, desencadeada por fatores diversos, sem motivos aparentes; e o transtorno de estresse pós-traumático, relacionado a lembranças de atos violentos, ou situações traumáticas, que, em geral, representaram ameaça à vida da própria pessoa, ou à de terceiros.


3. Depressão e Ansiedade em Tempos de Pandemia.

A pandemia do novo coronavírus mudou a rotina e os hábitos das pessoas em todo o mundo. Especialistas recomendaram a quarentena como principal forma de impedir a disseminação do vírus. As medidas, necessárias no âmbito da saúde pública, tiveram impacto social, econômico e na saúde mental das pessoas. Dentre os problemas, os mais comuns foram a depressão e a ansiedade, como apontou estudo do professor Alberto Filgueiras, do Instituto de Psicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), e o médico roraimense Gustavo Guerra*, na linha de frente do combate à Covid-19.

Os resultados do estudo paulista demonstram que os casos de depressão dobraram entre os brasileiros, durante a quarentena. Enquanto o depoimento do doutor Gustavo, aponta para o desenvolvimento de sintomas de ansiedade, inclusive entre os profissionais de saúde, mesmo em quem não desenvolveu a doença. “Essa doença é um gatilho para vários transtornos psicológicos e psiquiátricos, não necessariamente relacionadas ao ato de adoecer, nem ao fato de perder entes queridos. Alguns pacientes, mesmo, não entram mais no quarto onde ficaram doentes em casa. Um até hoje usa ansiolítico, se curou tem uns seis meses, para você ter uma ideia do transtorno psicológico que ele desenvolveu, como se não bastasse mas alterações neurológicas, renais e respiratórias”.


O isolamento social, as mudanças da rotina habitual, notícias informando o aumento do número de mortes, infectados na família e a ausência de leitos nos hospitais são capazes de gerar ansiedade, estresse e sintomas de depressão entre as pessoas, pontua a psicóloga Cláudia Rocha. Tais situações, encaradas pelo cérebro como ameaça, aliadas ao medo constante quanto à contaminação e a perda do poder aquisitivo, funcionam como estímulos para o desencadeamento da ansiedade e de eventos depressivos.


A terapeuta afirma que a depressão e a ansiedade não têm uma causa isolada, “há fatores de risco que aumentam a sua probabilidade”. Dentre estes podem ser elencados fatores genéticos e fisiológicos (pessoas com familiares depressivos, por exemplo, têm maior risco de desenvolver a doença); situações traumáticas na infância; eventos excessivamente prolongados e estressores; mudanças drásticas na rotina, como o isolamento social promovido pela pandemia; convivência com doenças crônicas; desequilíbrio dos neurotransmissores no cérebro; perdas financeiras ou de familiares; e doenças psiquiátricas pré-existentes.

Além disso, dificuldades oriundas da pandemia podem trazer à tona problemas psicológicos antigos, para os quais a pessoa não dava muita importância, a exemplo da falta de habilidades sociais para lidar com relacionamentos afetivos. O isolamento social, por exemplo, fez com que muitos casais passassem a conviver por mais tempo, abrindo espaço para desentendimentos, discussões, e o fim de muitos relacionamentos, amplificando ainda mais o cenário da ansiedade, do sofrimento psíquico, e da depressão.


No entanto, nem todos os problemas psicológicos podem ser qualificados como doença. “É normal se sentir triste ou desanimado de vez em quando, especialmente neste momento difícil da segunda onda da pandemia, com novos recordes de mortes todos os dias”, complementou a terapeuta. Porém, quando o grau de sofrimento, de tristeza e de desânimo começa a se sobressair a outros sentimentos, perdurando por mais tempo, interferindo em áreas significativas da vida, como o trabalho, amizades e relacionamentos afetivos, é hora de pedir ajuda.


4. Como Pedir Ajuda Contra a Ansiedade e a Depressão durante a pandemia em Roraima.

Em relação à saúde psíquica, “infelizmente ainda existe muita dificuldade de acesso a ajuda especializada na rede pública em Roraima”, afirma a psicóloga Glenda Dinelly. O preconceito quanto às doenças mentais ainda é grande, especialmente doenças silenciosas como a depressão. “Além disso, o cuidado com a saúde mental, psiquiatras, psicólogos, ainda é uma prestação de serviço elitizada e para poucos.”

O médico Gustavo Guerra atribui parte dessas dificuldades à corrupção: “o sistema de saúde de Roraima é um sistema combalido, é um sistema fraco, é um sistema vítima da corrupção de vários e vários anos, então para qualquer que fosse a doença, ou epidêmica ou pandêmica, o sistema ia sofrer, e a população consequentemente”. De acordo com ele, embora a doença, estatisticamente, não tenha uma mortalidade muito agressiva, tem o poder de levar muita gente ao mesmo tempo para o hospital, daí o hospital não suporta. O que, por sua vez, vai repercutir nas outras áreas do cuidado, como o psicológico, por exemplo.


O apoio comunitário, e uma rede de cuidados eficiente, estão entre os fatores que minimizariam os efeitos da ansiedade e da depressão no estado de Roraima. Uma rede de atenção à saúde mental funcionando, em conjunto com medidas de prevenção adequadas, como o distanciamento físico, o uso de máscaras de proteção, do álcool em gel, e ignorar conselhos de lideranças políticas que atuam contra as orientações da OMS, contribuirão para a melhoria do quadro da saúde no estado, aponta o médico.