• Amazoom

Política: Debate Necessário

Atualizado: 26 de jul.

O assunto foi levantado depois que um desentendimento, resultou em uma pessoa morta e outra ferida

Por: Kallryn Siqueira


Promulgada há quase 34 anos, a Constituição Federal do Brasil (CFB) foi um passo importante para o processo de redemocratização do país após 21 anos de ditadura militar. Segundo ela, o Brasil é um país livre e democrático, garante a todo cidadão a liberdade de professar suas crenças, expressar suas ideologias e pensamentos, sem danos, inclusive, ideais políticos, já que resguarda a criação de partidos políticos e associada à liberdade de expressão, temos aí o exemplo de democracia.


Para fazer valer o que a Constituição Federal instituiu em 1988, a educação política seria princípio fundamental para que de modo, inteligente e pacífico, o diálogo fosse realizado sobre as diferentes vertentes existentes no país. Atualmente há o registro legal de 33 partidos. Dessa maneira, são 33 linhas de pensamentos distintas e cada uma com uma figura representativa. Como exemplo, pode ser citado o pré-candidato à presidência, Luiz Inácio Lula da Silva, que é “a cara” do Partido dos Trabalhadores.


Segundo Vilso Junior Santi, doutor em Comunicação e professor da Universidade Federal de Roraima, toda tentativa de formação de educação política é um processo de longo prazo, que deveria ter início cedo e ter continuidade dessa construção de ideias de pensamentos da importância da política em nossas vidas e o quanto nos afeta, até a fase adulta e não mais parar, pois é um erro imaginar que por ser adulto já não há mais nada para aprender sobre. “Começar cedo e não abandonar essa construção depois de ‘grandes’, quando achamos que já estamos completos. Pois quando achamos que estamos completos, pensamos que não precisamos aprender mais nada, que não precisamos mais discutir nada, que não precisamos ouvir mais nada e não precisamos considerar o argumento diferente do nosso. E isso é perigoso”, completou.

Vilso Junior Santi falou que é impossível se fazer política sem debate e que o debate construtivo é fundamental (Foto:Kallryn Siqueira)

O professor falou também do papel fundamental da escola nesse processo, argumentando que ela poderia fazer um levantamento para identificar a melhor fase da criança e do adolescente para iniciar debates sobre o assunto. Afirmou que a escola é o primeiro ambiente, fora de casa, no qual se constroem as primeiras relações sociais, embates, decepções, e nesse contexto, deveria dar abertura para discussões de cunho político, ideológico e que culminem na escolha eleitoral, na decisão de candidatos ou partidos. Vilso frisou mais uma vez a importância da construção contínua do tema e do ponta pé inicial ser dado ainda na formação escolar.


O debate é fundamental, segundo Vilso, ouça:


A professora aposentada, Raimunda Carvalho, que lecionou por mais de 30 anos para crianças, adolescentes e jovens adultos na rede pública de ensino, acredita que política deveria ser apresentada nas escolas ainda na pré-adolescência. A iniciativa poderia plantar a semente da discussão do que é melhor para o próprio futuro, incentivando a abertura desse diálogo pautado sempre no respeito à opinião do próximo. “Acredito que deveria existir a preocupação com as nossas crianças em serem inseridas nesse assunto desde cedo. Educá-las mesmo sobre isso e para isso (política), mostrando a elas que o outro pode diferir dela e que isso é normal, é saudável. Discutir as diferenças, levando em consideração o raciocínio do outro, e principalmente, praticar o respeito, é fundamental para aplicar na prática o senso de democracia” – disse a professora.


A professora também falou sobre não possuir mais a obrigatoriedade de votar, já que possui mais de 70 anos (o voto é facultativo para alguns grupos de pessoas), mas que ainda exerce seu direito como cidadã por suas filhas e netos, já que julga essencial a participação de todos na decisão que norteia a vida do bebê que ainda está na barriga até aos que, como ela, já se aposentaram. “Eu já estou caminhando para a morte, mas tenho filhas e netos que ainda viverão muito e eu desejo que, para eles, todas as políticas públicas e setores do nosso país, funcionem bem. Por isso, faço questão de votar, de somar na escolha que sei que interfere na vida deles”, finalizou.


A Espetacularização de Personagens


Segundo o professor Vilso a forma como o sistema é organizado leva à personalização, em que o candidato é visto como um “galã”, um personagem, que, de fato, representa o papel de uma figura que ele não é, necessariamente, na sua vida particular. Tal peso da representatividade do personagem leva, muitas vezes, a sociedade a elegê-lo. Sendo assim, eleito a personagem e não o cidadão, desconsiderando completamente propostas e ideias.


A ideia de pertencimento de parte da construção de algo e a identificação emocional representado em determinada figura é decisivo na tomada de escolhas. Dessa maneira, o eleitor passa para a defensiva daquele personagem e não de suas ideias programáticas ou partidária.


Episódios de violência


Um episódio recente que terminou com uma pessoa morta e outra que, ainda se encontra internada em estado grave, aconteceu em Foz do Iguaçu, no estado do Paraná. O guarda civil municipal e também tesoureiro do PT, Marcelo Aloizio de Arruda, foi morto durante a comemoração do seu aniversário com a temática do Partido dos Trabalhadores e imagens do pré-candidato à presidência, Lula, pelo policial penal federal, Jorge José da Rocha Guaranho, defensor das ideias do atual presidente, Jair Bolsonaro (PL).


A polícia civil concluiu o inquérito apontando que a morte do petista se deu por uma discussão habitual e corriqueira do cotidiano, após Marcelo Arruda jogar areia e pedrinhas no veículo de Jorge Guaranho. A ação não foi classificada como crime de ódio por motivo político pela delegada do caso, Camila Cecconello, apesar de, testemunhas oculares afirmarem que, o desentendimento teve início por provocações político-ideológicas.


Em relação a situações como essas que, Vilso Santi reafirma a importância de se debater política na sociedade, independente de grupos. Que todo embate deve ser feito no campo das ideias e de maneira alguma na esfera física, pondo em risco o bem maior do ser humano que é a vida, pois ela é inegociável.


Ouça o que Vilso Santi diz sobre:


Sobre ações violentas geradas por discussão política ou por figuras do meio, a professora Raimunda lamenta e considera tristes tais ações, por acreditar que a ignorância cultural e de conhecimento somada à falta de interesse em buscar entender o processo e participar dele, atinja níveis que saiam do controle racional. Segundo ela, isso não promove a igualdade social e nem equilibra o sistema, mas gera ainda mais violência e perpetua a ignorância. “Acredito mesmo que preparar nossas crianças para a realidade da política, a gente tenha adultos racionais e pé no chão o bastante para lidar com respeito e decência sobre isso, e não agindo com instinto de animais. A violência não é porta para solução de nada e o ‘dialogar’ ainda é o melhor caminho.”


A violência que leva à morte por motivações políticas não é fato constatado somente entre eleitores, mas entre pessoas do próprio cenário político, como pré-candidatos, candidatos e políticos já efetivados. Posturas que instigam a questionar a conduta humana diante dessas atitudes, onde deveria caber o debate inteligente, promissor, e acima de tudo, respeitoso para serem exemplo para a sociedade de como conduzir o diálogo e agir diante da apresentação de ideias divergentes.


Uma base sólida desde jovem sobre temas político-ideológicos pode atenuar embates físicos e evitar o resultado morte, mas o debate segue sendo necessário para tomar o melhor rumo que ajude na solução de problemas ou na diminuição das mazelas sociais, que privilegie todas as camadas da sociedade e fortaleça o país.


2 visualizações0 comentário