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Pets não convencionais têm conquistado mais lares brasileiros

Segundo médico veterinário, antes de adquirir um animal exótico, o futuro tutor deve buscar se informar sobre a alimentação e comportamento do bicho que lhe interessa


Por: Camilla Salustiano e Cecília Veloso


Foto: Cecília Veloso


Cães, gatos e pássaros são alguns dos bichos que vêm à mente quando se pensa em animais domésticos, porém, em algumas famílias, porcos, iguanas e até vacas são chamados de ‘pets’. Para muitos tutores desses seres, eles podem ser considerados como integrantes essenciais da família.


Para a surpresa de muitos, esses animais são, sim, capazes de sentir afeto por quem cuida deles e estabelecer um vínculo de afeto. É o que explica o médico veterinário João Paulo Fernandes, que também é especialista em animais silvestres.


“Os animais possuem sentimentos e podem demonstrá-los através do seu comportamento. Muitos dos animais são retirados ainda filhotes do seu habitat, sendo privados do contato com os pais. O tutor supre a ausência paterna, estabelecendo um forte vínculo com o animal”, explica.

Murilo Zanquet, de 34 anos, é uma dessas pessoas que optou por um animal não tão convencional: um mini porco. O engenheiro civil conta que sempre sonhou em ter um porquinho, pois o animal é o mascote do time de futebol para o qual ele torce. Foi durante uma viagem ao Uruguai que ele decidiu comprar o animal.


“Eu fui para o Uruguai assistir ao jogo do Palmeiras e Flamengo no fim do ano passado, mas na volta eu perdi o voo para casa. Tive que ficar em São Paulo e vi que alguns torcedores do Flamengo amarram um porco em frente ao estádio, em protesto. A repercussão motivou empresas a realizarem campanhas contra o maltrato aos animais. Foi vendo algumas delas que eu encontrei uma empresa especializada na criação de minis porcos e cabras”, conta o engenheiro.

Foto: Cecília Veloso


Com o dinheiro que ele havia recebido da companhia aérea, cujo valor era exatamente igual ao de um mini porco, Murilo adquiriu Deyvinho Malvadão, como o bicho é chamado. O nome é em homenagem ao jogador do Palmeiras, Deyverson Brum.


“Quando o Deyvinho chegou, ele tinha medo de tudo, até para sair da casinha foi bem complicado. No segundo dia de adaptação, ele tinha tanto medo que vivia grudado em mim e só dormia no meu quarto. Ele é muito apegado a mim, mas eu não imaginava que teria tanto apego a ele também”, relata.

O afeto com Deyvinho é tanto que o porco tem até perfil no Instagram, que conta com mais de 100 seguidores e é um sucesso entre amigos e familiares do engenheiro. Segundo Murilo, uma das características mais marcantes do porquinho é que o animal é muito resmungão e encrenqueiro. “Ele só é muito genioso. Se empurrar ele, empurra de volta, fica encarando, fica bravo quando briga, parece que fica resmungando”, comenta.


Escute a entrevista com Murilo Zanquet na íntegra: https://soundcloud.app.goo.gl/2XEQvuM5gXV2gc9m6


O médico veterinário esclarece que, antes de adquirir um animal que lhe despertou interesse, o futuro tutor deve procurar conhecer, por exemplo, o comportamento, a alimentação e o manejo requerido pelo bicho.


“O acompanhamento médico-veterinário é indispensável, pois esse profissional poderá orientar corretamente sobre os cuidados gerais que cada espécie necessita, agindo também na prevenção, controle e tratamento de doenças, incluindo as zoonoses transmitidas por animais silvestres”, explicou.

Ele ainda enfatiza que o processo de domesticação pode ser lento e que o tutor deve estar atento aos cuidados necessários para manter o bem estar do animal. Caso contrário, o bicho pode agir como reservatório de microrganismos e parasitas capazes de infectar outros animais domésticos e o homem.


“O tutor poderá responder pelo crime de maus-tratos, caso fique caracterizado. O animal privado de contato social e espaço físico adequado, por exemplo, poderá exibir alterações comportamentais como estereotipias e automutilação nos casos mais graves. A alimentação inadequada é um problema muito comum na clínica médica de animais silvestres, sendo responsável por diferentes quadros de doença”, afirmou.

Foto: Arquivo Pessoal


Apesar das expectativas de domesticar um bicho de cerca de um metro e maio de comprimento, Maria Fernanda de Souza, 23, conta que a Pintadinha, como chama seu lagarto, gosta de ficar em seu próprio canto.


“Meu pai sempre gostou de criar animais e meu irmão seguiu o mesmo caminho, mas com animais exóticos. Um conhecido nos deu o lagarto e adotamos ela. Meu lagarto é muito na dela e bem mais independente, além de não gostar muito de contato. A gente deixava a comida lá e via se ela tava viva, isso quando não estava hibernando”. Conta Maria Fernanda.

A moradora do Rio de Janeiro explica também que Pintadinha gosta de pegar sol, e com isso ela e família fazem atalhos para que o lagarto consiga subir no telhado. “Colocamos comida todo dia, como folhas e ovos, e fazemos vários abrigos para ela se esconder quando quiser. Como ela é gordinha, a gente cria um tipo de ponte pra ela conseguir pular no telhado para pegar sol, porque ela gosta” disse.


Para a militar, a adaptação do lagarto em casa não influenciou em muitas coisas na rotina dela, só algumas surpresas que o animal fazia depois de acordar da hibernação.


“Ela tem uma personalidade muito defensiva e observadora, a adaptação dela não mudou em nada, só os sustos que ela dá quando acorda da hibernação, porque ela aparece do nada. Ela é muito independente”, completa a dona.

Cuidado mútuo


Desde quando tornou-se vegetariana, há sete anos, e começou a estudar sobre a causa, o desejo de ter uma vaca de estimação vinha crescendo em Otacília Brito, 27. Porém, foi só em setembro do ano passado que a advogada conseguiu adotar a Pipoca, que agora tem cerca de um ano de idade.


“A pipoca morava em uma fazenda no interior do estado, onde ela provavelmente seria utilizada para reprodução e produção de leite, ou até mesmo abate. Minha mãe conheceu o dono desta fazenda e pediu dele uma bezerra. Ela chegou em casa de madrugada com a Pipoca na carroceria do carro e eu, que nem sabia, fui pega de surpresa e fiquei apaixonada”, lembrou.

Foto: Arquivo Pessoal


Segundo a tutora, o animal “convive tranquilamente com os outros animais da casa, entre gatos e cachorros. É muito afetuosa, carinhosa e inteligente. Me reconhece de longe e vem pra perto quando chego, apesar de ser meio desastrada e inconsciente da sua grandeza”.


Entretanto, a relação entre Otacília e Pipoca vai além disso. A advogada também ressalta a importância do animal no seu processo de cura da depressão. Nessa situação, uma cuida da outra.


"A Pipoca fica no quintal de casa, então se eu quiser ficar com ela, tenho que sair do quarto e ir lá fora, em contato com a natureza. Ela também me ensina muito sobre paciência e construção de confiança. É um amor”, revelou.

A psicóloga Brenda Sena explicou que ter um animal de estimação pode proporcionar, sim, apoio emocional ao seu tutor em situações de crise, além de ajudar no controle da ansiedade e depressão, se aliado a outras alternativas de tratamento.


“Ter um bichinho ajuda a desviar de focos de estresse, como: trabalho, estudo, pandemia, luto, finanças, entre outros. A companhia dele pode fazer com que a pessoa não se sinta sozinha. Isso gera um sentido de vida e é importante, principalmente para quem tem depressão, porque o ato de cuidar do animal, se responsabilizar por ele e construir uma relação mútua ajuda na melhora da condição da saúde mental”, comentou.

A profissional aponta que as interações com o animal e o vínculo que construído com ele resulta na liberação de ocitocina,um hormônio que promove sentimentos de amor e sensação de bem estar, e “isso ajuda demais na remissão de sintomas da depressão”.










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