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  • Foto do escritorCarol Domingos

"Os “brancos” chegam e dizem que é muita terra para os indígenas ”

Ana Julha é uma das jovens destaques na luta contra a tese do Marco temporal 


Ana Julha na mobilização contra o Marco Temporal. / Foto: Elane Oliveira

Pintada de jenipapo em seu corpo, Julha Wapichana percorreu 156 km até Boa Vista, capital de Roraima para unir forças com o seu povo. Ao lado do Monumento do Garimpeiro, ela grita e comemora a vitória dada aos povos indígenas contra a tese jurídica do Marco Temporal - segundo essa tese, os indígenas só poderiam reivindicar o direito sobre uma terra se já tivesse sido ocupado antes da promulgação da Constituição Federal, em 5 de outubro de 1988.


Em depoimento a Carol Domingos


Meu nome é Ana Julha de Oliveira Silveira, mas gosto que me chamem de Julha Wapichana. Tenho 13 anos e sou da comunidade indigena do Araçá, no município do Amajari. Meu pai se chama Adevaldo Silveira, ele é Coordenador Regional da Medicina Tradicional Indígena. Lá na comunidade, eu considero todos a minha família, então, eu já tive tios tuxauas.


Essa é a visão que eu tenho do meu povo. Eu já sei como é a caminhada de um líder, por que os meus parentes compartilham ideias e memórias, e assim eles sempre se mantêm unidos. 


Minha terra foi demarcada no dia 17 de fevereiro de 1982, um momento histórico para nós. Apesar disso, ainda estamos na luta para que todos os territórios que nos pertence, também sejam demarcados. Eu me preocupo com meus parentes e vou a luta junto com eles. 


Nós, como jovens, sempre escutamos das nossas lideranças mais experientes, que já somos uma liderança. Desde o momento em que enfrentamos uma batalha, que vamos a rua e que gritamos com força e garra “Fora Marco Temporal”. Então, eu sempre gosto de repassar isso para a juventude, que nós somos fortes, nós estamos aqui para lutar. Hoje estamos na linha de frente, pois temos vontade de dar continuidade na luta dos nossos ancestrais, porque eu sei que somos capazes. 


Ana Julha em entrevista ao Amazoom. / Foto: Elane Oliveira

Acompanhamos e participamos do movimento, mas em alerta, pois sempre estamos em perigo devido aos garimpeiros e fazendeiros. Recentemente, tivemos um casal que foi queimado vivo dentro de um território indígena. É doloroso escutar e ver que as nossas lideranças estão sendo queimadas apenas por viver a sua cultura. Já tive um irmão de consideração que foi baleado em uma mobilização, e esse é um dos motivos que vamos à luta. 


Só o nome “Marco Temporal" é doloroso. Esse nome lembra de vários combates e perdas que tivemos dentro da nossa comunidade. Conseguimos uma vitória mas não acabou, não vamos ficar parados. A gente sabe que os políticos estão zangados, porém, estamos seguindo firme e forte. 


Fazemos de tudo para proteger nosso território, sempre estamos nos mobilizando quando querem nos limitar dentro da nossa terra. Eu posso dizer que eu tenho uma enorme conexão com a natureza, eu sinto ela e ela me sente. Nos cantos dos pássaros e nas ondas dos rios. Vamos nos atentar, abrir os olhos e a mente, ouvir o grito de socorro da mãe terra, precisamos escutá-la. 


Os “brancos” chegam e dizem que é muita terra para os indígenas. Quem salva o Brasil são os povos indígenas. Ali não é só lavrado ou floresta. Os drones não mostram tudo. Lá dentro tem seres que somos nós, tem a nossa casa. Não é só brigar por um simples território, é a mãe terra. 


O que eu deixo hoje é o meu legado, agora estou participando da mobilização contra essa tese. É muito gratificante estar ao lado do meu povo. Ver a felicidade daqueles que eu amo é tudo para mim. Um dia eu quero acordar e enxergar a melhoria dentro do nosso território. Meu sonho é esse, um mundo sem guerra e meu povo em paz.


Daqui 15 anos, eu espero que as futuras gerações nunca percam a sua essência e não deixem a sua cultura de lado, pois cada um tem seu jeito único. Eu espero que esse saber de lutar e enfrentar os obstáculos, seja contínuo. Esse é o movimento indígena, é a união.

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