• Fernanda Mesquita

MIGRAÇÃO VENEZUELANA - O passo para a reconstrução de vidas

Bárbara Silva e Fernanda Mesquita

“Na hora que cruzei a linha, senti que estava deixando tudo para trás, abandonando meu próprio eu para começar tudo de novo”.


Aos 17 anos, geralmente já mudamos de casa pelo menos uma vez e, talvez, com sorte, alguns mudaram de cidade também, mas não é muito comum a experiência de viver sem os pais em outro país ou de ter que escolher entre viver ou sobreviver.


Nessa idade, nos sentimos imbatíveis e donos do mundo. Nós queremos apenas curtir o colegial com os amigos, ansiando a maior idade que está prestes a chegar, para nos reinventar como adultos.


No entanto, a personagem dessa história tivera experiências muito diferentes do que a maioria de nós. A vida aconteceu mais cedo para ela. E a crise em seu país veio como uma avalanche e chacoalhou o mundo de uma menina que mal tinha idade para ser dona de seu nariz.


Uma vida inteira construída sob certezas, perspectivas de futuro e sonhos foi abandonada na Venezuela sem mais nem menos. “Nunca passou pela minha cabeça ter que cruzar uma fronteira, deixar toda a minha história, família e país para trás”.

A menina que era apenas uma estudante, menor de idade, dona de sonhos e que vislumbrava um futuro em sua própria nação, teve que largar tudo o que conhecia para se aventurar em um mundo que ela não estava pronta para desbravar.


Eu deixei o meu lar e a minha privacidade para dividir o mesmo espaço com mais de 80 pessoas”.


Ao lado dos irmãos, ela teve que escolher entre comer ou continuar vivendo na Venezuela. Não havia opção, no final das contas. Ao cruzar a fronteira, Carmen Muñoz deixou tudo que conhecia para trás, incluindo ela mesma. Assustada, com medo do futuro e sem direito de escolha, ela chegou ao Brasil no dia 16 de abril de 2018.


Eu não queria vir pra cá. Primeiro por causa do idioma, depois porque achei que não conseguiria construir uma nova vida aqui. Não queria deixar meus amigos, nem família, mas meu pai nos buscou porque não tinha condições de permanecermos lá”.


Ao olhar uma foto com o irmão no marco da fronteira entre Brasil e Venezuela, Carmen diz que é impossível não reviver tudo que sentia naquele momento. “Eu queria chorar, estava com medo. Não sabia como ia conseguir me comunicar, nem o que ia acontecer. Na hora que cruzei a linha, senti que estava deixando tudo para trás, abandonando o meu próprio eu para começar tudo de novo”.


O RECOMEÇO


O Brasil estendeu a mão para Carmen. Não do jeito que ela merecia, mas do jeito que foi possível, no entanto isso não ajudou a menina de 16 anos a entender e assimilar todas as mudanças em sua vida, nem como as coisas jamais seriam iguais novamente.


Eu morava em uma barraca no chão, minhas roupas estavam todas espalhadas, tive de compartilhar um banheiro com 80 pessoas. Na escola, com dois dias que estava aqui, uma menina disse que ia esconder o celular porque eu podia roubar. Foi ali que senti o preconceito na pele”.


Apesar da pouca idade, da dificuldade de encarar e aceitar uma nova realidade, ela juntou os pedacinhos da menina que ela sempre foi e da mulher que quer ser para dar vida a quem se tornou hoje.

Carmen Muñoz

Eu olho para trás e entendo que não podia mais viver na Venezuela. Um ano se passou e, agora, eu me enxergo diferente. A situação mais difícil que já vivi me transformou completamente”.


Antes, Carmen tinha planos profissionais para trilhar em seu país. Encantada com o jornalismo, gostaria de ser uma das moças dos programas de televisão que assistia.


Aos 12 anos, via as mulheres na tv e queria ser como elas. Comecei a pesquisar e descobri que o que elas faziam era jornalismo. A partir daí, me interessei ainda mais por livros e comecei a escrever. Meu sonho é ser uma jornalista na televisão. Vou me preparar para prestar o vestibular e tirar os meus sonhos do papel”.

Carmen recomeçou no Brasil com o que a vida colocou em seu caminho. O sonho de cursar jornalismo deu forças à ela para se reerguer e seguir em frente. Pelos corredores da UFRR (Universidade Federal de Roraima), ela já ensaia como será quando for uma acadêmica.


Em outro país e em outro idioma, Carmen Muñoz ainda será uma grande jornalista de televisão.

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