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Maternidade: Os efeitos da ausência

A criança precisa ser acompanhada mais de perto por quem fica responsável por ela para que essa percepção de carinho atenue os efeitos causados pela ausência materna

Por: Kallryn Siqueira

A figura da mãe não é substituível, mas outros podem contribuir para o desenvolvimento saudável e seguro da criança (Foto: Kallryn Siqueira)

A primeira morada de todo ser humano é o útero materno, onde ali se desenvolve protegido e em segurança até estar pronto para o mundo exterior. E o núcleo familiar é o primeiro ambiente em que se envolve socialmente em grupo e acaba, na maioria das vezes, sendo a base para a construção da sua personalidade. E o que acontece quando uma parte dessa base falta?


Os filhos são o resultado da união de pai e mãe, logo, a ideia de estruturar um ser humano seguro emocionalmente e material deveria caber aos dois também, mas nem sempre é assim que as coisas acontecem. Diversas são as razões que fazem com que uma criança seja criada por outros membros da família, não experimentando o convívio materno.


A psicóloga Marcelle Grécia afirma que a presença da mãe na formação da criança é de fundamental importância, e que o rompimento desse laço em qualquer idade gera consequências, porém, que outras pessoas podem participar da construção da personalidade e emocional desse ser. Não necessariamente crescer sem a figura materna criará indivíduos frágeis emocionalmente e inseguros, cada caso é único. “A figura materna tem papel fundamental na vida da criança, a genitora tem um laço único com seu bebê. Certamente quebrar esse vínculo trará algumas consequências. Não há uma única resposta para esta situação, cada caso deverá ser avaliado de forma individual, pois existe uma rede de apoio que também contribui para a segurança e desenvolvimento emocional saudável”, disse Marcelle.


Ana Pereira de 19 anos é fruto de uma relação sem compromisso. Morou até os três anos com a mãe, uma irmã mais velha e com a avó materna até que essa avó faleceu. Após esse fato sua mãe foi embora, deixando as duas filhas menores. Sua irmã foi morar com uma tia e a avó paterna passou a cuidar de Ana desde então.


Ana contou que seu pai era distante não existindo entre eles qualquer relação afetiva, dessa maneira, cresceu sem pai e mãe. Relatou que com o tempo aprendeu a viver com a ausência da mãe, mas que sentiu a sua falta no decorrer do seu crescimento.


Revelou ainda que sente tristeza e rejeição quando pensa que sua mãe partiu sem levá-la junto e que por isso até hoje carrega traumas consigo. E disse que apesar de ter crescido sem mãe, sonha em se tornar uma e ser para o seu filho a mãe que não teve.


Ouça o que Ana diz sobre ter crescido sem mãe e como isso até os dias de hoje é uma constante em sua vida :


Sobre estreitar nos dias de hoje o contato com a mãe, Ana disse que não tem esse desejo por ter aprendido a viver sem ela. “Não tenho raiva dela nem rancor. Perdoei ela por tudo, porém não quero aproximação”, concluiu Ana.


Assim como Ana, Karen Rocha cresceu com outras pessoas do círculo familiar, mas sem a presença de sua mãe com quem conviveu até um ano e oito meses, aproximadamente. Após esse período foi cuidada pelo avô materno e a partir dos quatro anos passou a ser criada por um casal de tios até a idade adulta.


Hoje é uma mulher de 37 anos de idade e relatou que não ter a figura da mãe em sua vida lhe afetou, principalmente na idade dos 8 aos 20 anos. Sentiu que por não ter mãe não tinha o dever de obedecer a alguém. “Me sentia ‘diferente’, como se eu não pertencesse a ninguém e não tivesse a obrigação de obedecer, porque ninguém era a minha mãe e havia a uma mistura de várias emoções e sentimentos.” Relatou que quando criança falou raras vezes com a mãe por telefone, mas que nessas ligações quase não falava apenas chorava muito. Que viveu um curto período de rebeldia e que desejou e sentiu falta de abraços vindos de mãe em muitos momentos.


Karen contou que cresceu com os primos e nunca se sentiu inferior a eles ou a qualquer outra pessoa, mas admitiu já ter carregado um sentimento de rejeição e acredita que há diferença entre crianças que são criadas pelos pais e as que não. Segundo ela, a criança que cresce sob os cuidados dos pais é mais segura e se torna um adulto melhor e mais confiante pelo apoio recebido.


“Quem permanece na família também é parte importante para que essa criança se sinta acolhida. Logo, complexos de inferioridade ou rejeição podem estar relacionados a situações de desvalorização da criança, culpabilização, humilhações, dentre outros”, destacou a psicóloga.


Sobre maternidade o seu discurso é igual ao de Ana, mas diferente de Ana que ainda sonha em ser mãe, Karen já é e contou que procura ser para a sua filha a mãe que não teve, inclusive, diariamente dizendo que a ama. "Pra mim, eu acho que é o melhor. Quanto mais amor, melhor. O amor não estraga. Ao contrário, o que faz mal é a falta de amor, de carinho, isso sim", encerrou Karen.


Consequências

A falta materna pode gerar:

  • desequilíbrios emocionais

  • insegurança

  • sentimento de rejeição

  • complexo de inferioridade

  • irritabilidade

  • depressão

  • distúrbios do sono

  • a sensação de não pertencimento

  • dependência de relações amorosas

Porém todos esses resultados podem ser evitados ou minimizados, o que dependerá do tratamento e acolhimento que será recebido pela criança dentro do ambiente que está inserida.


Conforme palavras da psicóloga “a figura da mãe é insubstituível”, e por mais que a criança cresça cercada de cuidados, em um lar afetuoso e rodeado de tios, avós, primos, a figura da mãe é extremamente representativa, “pois é aquela que doou a vida.” Lembra ainda que confiança é estabelecida pelas vivências e relacionamentos, pela atenção, cuidados e respeito dispensado ao outro em amor. Que algumas famílias estão presentes fisicamente com essas crianças, mas há a ausência de carinho e atenção, o que gera sofrimento a mais além da falta da mãe.

"A falta também é um luto, perder alguém ou ser abandonado, pode sim trazer sofrimento. Quem permanece na família também é parte importante para que essa criança se sinta acolhida", pontuou Marcelle.

Marcelle falou que pessoas que sofreram com a ausência materna podem ou não agir da mesma forma, e do contrário também, depositando nos filhos toda a carga de amor e cuidados não vivenciados. E reforça mais uma vez que na falta do afeto materno, a base de construção da personalidade da criança será a vivência com as outras pessoas da família. “A ausência da figura materna impactará sim, mas a família, a rede de apoio, a comunidade, todos fazem parte da vida dessa criança e também são responsáveis por segurança, pelo afeto e cuidados básicos necessários em cada etapa da vida”, disse.


Acompanhamento especializado

Embora a criança cresça cercada por outros familiares em um ambiente saudável, bem estruturado e receba tudo o que necessita para o seu bom desenvolvimento até a vida adulta, algumas podem ter dificuldade em lidar com a ausência maternal. Sendo assim é aconselhável que se busque a ajuda de um profissional para auxiliar a criança com essa realidade, e, às vezes, até estender esse atendimento para a família com a finalidade de fortalecer essa rede de apoio e acolhimento.


“O acompanhamento terapêutico é muito importante para auxiliar a criança a trabalhar essa perda e/ou ausência. É essencial ainda que a família ajude, evitando falar de situações sobre as quais a criança ainda não está preparada, assim como, evitar falar de formas inapropriadas na presença da criança, pois ela registra tudo o que acontece ao seu redor. Em alguns casos a família responsável pela criança também necessita de terapia para que possa compreender o momento vivido e consiga entender o quanto estas situações tem afetado a todos, principalmente a criança”, concluiu a psicóloga.


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