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Mais do que moda: Cabelos são símbolos de luta e valorização da Identidade Negra

Atualizado: Out 22



"Hair Love": curta metragem que quebra estereótipos sobre cabelo crespo (Foto: Reprodução)

Após mais de meio século desde o surgimento do movimento “Black is Beautiful” liderados por afrodescendentes, nos Estados Unidos da América, em 1960, hoje em dia nunca foi tão necessário falar da estética negra como símbolo de representatividade e autoaceitação. O cabelo, por exemplo, diz muito sobre isso.


Dramaturgias como “A vida e história de Madam C. J. Walker” e “Histórias Cruzadas”, são umas , das várias produções retratam bem a realidade, que muitos negros passaram e ainda passam em nossa sociedade: discriminação, violência e racismo, é comum presenciar.


Em “Felicidade por um fio”, filme de comédia romântica, lançado em 2018, dirigido por Haifaa al-Mansour e escrito por Adam Brooks e Cee Marcellus, mostra a protagonista, Violet Jones (Sanaa Lathan), uma mulher negra, que busca ser perfeita o tempo todo, que precisa lidar com um processo de autoaceitação, após passar pela transição capilar, - Já que desde criança influenciada por sua mãe, ela aprendeu a odiar seu cabelo naturalmente crespo. O filme é baseado no "Best-Seller:Nappily Ever After" de Trisha R. Thomas e mais do que uma ficção, na história é possível reconhecer a realidade de muitos negros ao longo do tempo.



Trailer do filme "Felicidade por um fio" (2018), produzido pela NETFLIX. (REPRODUÇÃO: YOUTUBE)


O cabelo, assim como outras atribuições (pele, traços, cultura, etc.) ligadas aos afrodescendentes não começou a ser diminuído de um dia para cá. Durante a história da humanidade, além da violência, os negros foram ensinados a não gostar das suas próprias características fenotípicas. Esse processo começou assim que os negros foram retirados de suas terras e obrigados a serem escravos em colônias dominadas por brancos.


A estética do cabelo dos escravos negros, como o corte, a forma e os adereços, por exemplo, era rompida ainda a caminho das colônias. Na obra do pintor alemão, Johann Moritz Rugendas, denominada “Negros no fundo do porão” é possível identificar homens e mulheres em grande quantidade, algemados e nus, muitos deles já sem cabelo ou com ele curto. A famosa gravura mostrava as péssimas condições de um navio negreiro.



Negros no fundo do porão de Johann Moritz Rugendas, 1835. Reprodução fotográfica desconhecida.

Em registros como os livros, “Ser Escravo No Brasil”, de Kátia Mattoso, e “O escravo nos anúncios de jornais brasileiros do século XIX”, de Gilberto Freyre, mostram os africanos com a cabeça forçadamente raspada no momento que eram oferecidos à venda para os senhores dos engenhos.



Livros Ser Escravo No Brasil e O escravo nos anúncios de jornais brasileiros do século XIX. (Imagens: Amazon.com)



Para a Cientista Social e pesquisadora em Antropologia Social pela Universidade Federal de Roraima – UFRR, Regiane Dionizio Lima, esses processos afetaram, não somente a autoestima, mas também o “orgulho de ser negro”.

“Os padrões de beleza, comportamento e cultura estabelecidos pelo colonizador e que deu origem ao discurso de “raça” – aqui a raça é uma categoria discursiva e não uma categoria biológica – afetou a relação do indivíduo com a sua identidade étnica cultural”, explicou.

De acordo com a pesquisadora, esses acontecimentos influenciaram negativamente os negros a se afastarem, muitas vezes, forçadamente da sua cultura, e o sujeito – negro – se viu obrigado a “ceder” ao padrão vigente, caso ele quisesse alcançar algum espaço na sociedade.

“O preconceito (racismo) levou a um movimento de busca por alterações/apagamento das características culturais e físicas do negro, como por exemplo a busca por clarear a pele, alisar o cabelo, procedimentos estéticos e cirúrgicos, além de mudanças relacionados aos hábitos culturais”, relatou.