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Indígenas querem fundar a primeira Academia da Língua Nheengatu

Professores e escritores indígenas amazonenses se organizam para criar estratégias de ensino do Nheengatu para atingir comunidades e públicos na internet e no ensino superior.


A imagem acima mostra Edson Baré com livros em Nheengatu (Foto: Paulo Desana/Dabukuri/Amazônia Real)

Manaus (AM) – Professores e escritores indígenas amazonenses querem fundar a primeira Academia da Língua Nheengatu (conhecida como Língua Geral). O objetivo é valorizar a língua, que já foi proibida na Amazônia pelos colonizadores. Eles pedem a presença de cursos nas universidades brasileiras e se organizam para criar estratégias de ensino que devem atingir comunidades e públicos na internet.


“A Academia vem para dar visibilidade à língua, para pôr a língua em seu devido lugar, de onde nunca deveria ter saído que é justamente a língua mãe da Amazônia. Queremos trazer o retorno dessa língua”, explica o escritor indígena Yaguarê Yamã, do povo Maraguá.

A Academia deve agregar três ortografias da língua que foram desenvolvidas por povos indígenas da região do Baixo Rio Negro e do Baixo Rio Amazonas, no estado do Amazonas, e da bacia do rio Tapajós, no Pará. A iniciativa é coordenada por 21 membros de várias regiões da Amazônia, a maioria do Amazonas e do Pará. Entre os nomes em destaque estão: Dadá Baniwa e Edson Baré, George Borari, e Yaguarê Yamã.


Com estatuto em desenvolvimento, a Academia da Língua Nheengatu estabelece uma série de atividades a serem desenvolvidas que inclui, dentre outras: produzir e atualizar continuamente um Dicionário Unificado e Ortográfico da Língua Geral Amazônica no Brasil; Criar, alimentar e manter atualizada uma Biblioteca Digital de materiais históricos e atuais, científicos e didáticos sobre a língua Nheengatu; Promover e apoiar a produção de materiais didáticos para ensino da língua Nheengatu nas comunidades indígenas.


Dadá Baniwa (no centro das crianças) é mestre em linguística e línguas indígenas (Foto: Ana Hamdan/Amazônia Real)

Com reuniões sendo feitas desde junho de 2020, o grupo instituiu que a Academia será formada por patronos fundadores, sócios fundadores, entidades associadas e colaboradores.

“A gente se encontrou por meios virtuais e começamos a conversar e discutir de que forma as escolas, as instituições estavam trabalhando a questão da língua nheengatu no seu dia a dia. Percebeu que existem formações paralelas, feitas por indígenas e não indígenas, então a gente viu a importância de se organizar”, explica Edson Baré.


Apagamento da língua


Florêncio Vaz (Foto: acervo pessoal Florêncio Vaz)

Em 1835, quando a Cabanagem ocorreu na região do antigo Grão-Pará – Pará, Amazonas, Amapá, Roraima e Rondônia -, o Nheengatu foi severamente criminalizado. Indígenas eram proibidos de falar a língua, porque poderia ajudar os líderes da revolta. A Cabanagem só acabou em 1840, com centenas de indígenas mortos. Mesmo após o término, o Nheengatu continuou a ser a língua mais falada da Amazônia pelo menos até 1850-1900, de acordo com estudiosos.


Antes disso, o surgimento do próprio Nheengatu ocorreu através da proibição da língua nativa dos povos. Os missionários católicos criaram o Nheengatu misturando palavras em português e em tupi, para padronizar a linguagem com características dos colonos. Com isso, línguas nativas foram sendo substituídas.


Substituídas, mas não apagadas. É o que explica o professor Florêncio Almeida Vaz Filho, indígena do povo Maytapu, do Programa de Antropologia e Arqueologia na Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa). “As estratégias de sobrevivência são muito importantes, os indígenas continuaram (com a língua), eles falavam, contavam histórias aos filhos à noite. Se essa forma fluente da língua se perdeu, a lógica da língua foi preservada”, diz Florêncio.


O professor coordenou, de 2014 a 2017, um curso de extensão em Nheengatu para professores indígenas e tem pesquisas desenvolvidas sobre o tema. Ele explica que o Nheengatu é uma língua viva, que se adaptou e resistiu nas últimas décadas, por insistência dos povos indígenas. Em muitas áreas, como no Alto Rio Negro, ela é muito falada ainda. Em São Gabriel da Cachoeira, a presença dela é tão forte que hoje é uma das línguas indígenas oficiais.


“Os indígenas trouxeram para o português a calma, a cadência, e até o silêncio. A forma como nos comunicamos no português preserva muito o Nheengatu. Independente dos artistas, dos acadêmicos. O que importa hoje é que existem povos que falam fluentemente o nheengatu, e para esse povo não existe crise”, diz.


Florêncio cita, como exemplo da preservação dessa lógica, o costume de dar presentes e distribuir alimentos entre parentes. Em nheengatu, a palavra que expressa essa ação é “putáua”. Os indígenas capturavam os animais, empalharam e davam de presente para parentes.


“Somos frutos de uma longa resistência, resistência cultural. Nós não perdemos a nossa cultura. Quando vemos as pessoas nas ruas andando juntas, íntimas, próximas, tudo isso vem de uma lógica indígena que persistiu, ela é a nossa marca. Não somos iguais”, explica.


No ensino superior