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Desafios e conquistas de mulheres esportistas roraimenses

Atualizado: Out 8

Apesar da sociedade contemporânea ser mais receptiva com a presença feminina dentro dos esportes e competições, muitas mulheres ainda enfrentam dificuldades e barreiras sociais


- Por Ana Beatriz Figueira


Foto: Ana Beatriz Figueira

Muitas mulheres enfrentam o desafio de uma carreira no esporte apesar do preconceito de gênero


Quando os Jogos Olímpicos surgiram na Grécia Antiga, por volta de 776 a.C., as mulheres não podiam assisti-los. Séculos depois, na Era Moderna, as mulheres eram proibidas de participar, pois acreditava-se que o esforço, além de "indecente", seria prejudicial ao “físico frágil”. No Brasil, o artigo 54 do Decreto-Lei n.º 3.199, de 14 de abril de 1941, proibiu durante quarenta anos a participação feminina em esportes taxados como não compatíveis com sua natureza.


Ainda há um longo caminho para alcançar a igualdade de gênero no esporte, mas mesmo assim, as mulheres vêm conquistando cada vez mais espaço nos tempos atuais. A roraimense instrutora de boxe, Hemilainy Moraes Franco, mais conhecida como Mila Franco, iniciou a prática incentivada pelo pai e nunca mais parou, levando medalha de ouro em 2017 e prata no ano seguinte, nos Jogos Abertos do interior de São Paulo.


Mila contou que a vida de uma mulher que pratica esportes de contato não é fácil, mas com o apoio da família e do treinador, ela se tornou a própria motivação.


"Meu treinador nunca me tratou diferente, sempre foi rígido visando minha melhora, a igualdade foi fundamental. O problema é que nem todos são iguais ao meu treinador, a diferença já começa aí, com o tipo de frase ‘pega mais leve com ela’. Atualmente eu olho para trás e vejo como fui otimista com todas as dificuldades impostas, as críticas. Levantei a cabeça e segui em frente, conquistei muita coisa com minha força de vontade”, declarou a boxeadora.


A presença feminina em esportes aquáticos também é motivo de orgulho para Roraima. A atleta de natação, Flávia Cantanhede, iniciou no esporte aos 7 anos de idade, como forma de auxílio em seu desenvolvimento físico. De lá para cá, ela se tornou multicampeã da categoria sênior e maior recordista estadual do Brasil. Flávia acredita que a valorização da mulher no meio esportivo fica mais forte conforme surgem inspirações para as novas gerações.


“Infelizmente, ainda não há igualdade no tratamento entre atletas homens e mulheres. Mas as mulheres têm alcançado o caminho dessa realidade. Eu vejo que nós temos demonstrado cada vez mais nossa força. E, naturalmente, o reconhecimento também vai sendo mais perceptível, mesmo que de maneira lenta. Temos grandes referências de mulheres no esporte. Sem dúvidas, é um abrir de portas para que mais meninas e mulheres se sintam em condições de representar a classe”, afirmou.

A estudante de educação física, Melissa Dandara de Oliveira, participou no último mês de uma competição de atletismo no nordeste com sua equipe, conquistando medalhas de prata nas modalidades 4x100 e 4x400. A atleta mostrou-se muito grata pela base e apoio familiar que incentivaram sua paixão pelos esportes, oportunizando seu crescimento na carreira.



Preconceito de gênero no esporte


Uma pesquisa sobre equidade de gênero realizada pelo Instituto de Pesquisa DataSenado, em parceria com o Observatório da Mulher contra a Violência (OMV), realizou 22 entrevistas com atletas no período de 07 de dezembro de 2019 e 05 de março de 2020. Segundo as entrevistadas, mulheres são menos valorizadas que os homens devido á percepção cultural de que os corpos femininos são frágeis e o potencial de desempenho seria reduzido em comparação com atletas do sexo masculino.


A ex-treinadora de vôlei, Priscilla Pereira, já passou por situações de preconceito no início da carreira. Priscilla, com apenas 21 anos na época, havia sido designada como técnica de uma equipe feminina universitária de voleibol, mas não exerceu o papel, pois as atletas recusaram seu treinamento.


“Na época eu não treinei o feminino, porque as meninas não queriam ser treinadas por mim, alegando que eu não era atleta de ponta. Meu coordenador da universidade disse que se elas não treinassem comigo, não era para levar elas [para os jogos universitários]. E aí foi o que aconteceu, elas ficaram com raiva, foi uma situação bem chata”, contou.

Segundo a professora e pesquisadora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Ana Carolina Vimieiro, situações como essa, em que mulheres são subestimadas por outras, acontecem em decorrência da opressão de gênero, que também pode ser exercida pelo sexo feminino.


“Desde nossa infância, aprendemos que, nós mulheres, não somos capazes de um conjunto de coisas. No âmbito do esporte, traz um tipo de compreensão de que as mulheres entendem menos. O papel de treinadora exige um conhecimento técnico e tático que envolve muita preparação, então acabamos desacreditando que mulheres sejam capazes, porque a gente cresce vivenciando na pele que o nosso lugar não é o esporte. Muitas vezes as próprias mulheres envolvidas no esporte vão duvidar da capacidade de outra”, explicou.