Conflitos no Campo: mais mortes e escalada da violência na Amazônia
- Amazoom

- 29 de abr.
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Relatório da Comissão Pastoral da Terra revela queda de ocorrências em 2025, enquanto assassinatos dobram e expõem a intensidade dos conflitos, com impacto direto em Roraima e na região Norte.

O Brasil rural parece mais silencioso à primeira vista, mas é um silêncio enganoso, daqueles que antecedem o estrondo. É isso que revela o relatório Conflitos no Campo Brasil 2025, lançado pela Comissão Pastoral da Terra na última segunda-feira, 27 de abril de 2026, em Brasília, na sede da CNBB, com transmissão ao vivo e alcance nacional.
O documento mostra que o número total de conflitos caiu 28% em relação a 2024, passando de 2.207 para 1.593 ocorrências. Mas esse dado, isolado, não conta a história inteira. Ao mesmo tempo em que os registros diminuem, a violência se intensifica: os assassinatos dobraram (de 13 para 26 mortes), concentrados majoritariamente na região Norte, que se consolida como o epicentro da brutalidade agrária no país.
É nesse território – Amazônia Legal, fronteira em disputa entre floresta, capital e sobrevivência – que o conflito deixa de ser estatística e se torna corpo. Pará e Rondônia lideram o ranking nacional de assassinatos, com 07 mortes cada, e episódios como o Massacre em Vilhena (RO), em junho de 2025, evidenciam a escalada da violência organizada.
A lógica é clara, ainda que brutal: menos conflitos registrados, mais intensidade nos confrontos. A CPT interpreta esse cenário não como pacificação, mas como concentração da violência - menos casos, porém mais letais, mais organizados e mais direcionados.
Em Roraima, o retrato segue essa mesma ambiguidade. Os dados indicam uma redução de 43% no número total de conflitos (de 60 para 34 registros), mas o estado permanece entre os mais críticos quando o recorte é a violência contra povos indígenas. As disputas territoriais continuam sendo o principal motor das tensões, especialmente em áreas indígenas pressionadas por interesses econômicos e pela grilagem.
A violência contra a pessoa (ameaças, agressões e ataques diretos) segue como um ponto sensível. Mesmo com menos registros formais, o cotidiano de comunidades indígenas, ribeirinhas e camponesas continua atravessado por insegurança e vulnerabilidade.
No plano nacional, a disputa por terra permanece como eixo estruturante: 75% dos conflitos estão ligados à posse e ocupação territorial. Fazendeiros, empresários e grileiros aparecem como principais agentes das violências, segundo o relatório, enquanto povos indígenas, trabalhadores sem-terra e posseiros figuram entre as principais vítimas.
Outro dado que amplia o quadro é o crescimento do trabalho escravo rural, com aumento de 5% nos casos e quase 2 mil trabalhadores resgatados em 2025. A exploração se infiltra em atividades como pecuária, mineração e grandes lavouras, setores diretamente conectados ao agronegócio e à expansão de commodities.
O relatório também aponta para um fator estrutural que sustenta esse ciclo: a impunidade e a lentidão na regularização fundiária. Sem resolução jurídica e política, os conflitos se acumulam, se radicalizam e se tornam mais violentos.
40 anos de Denúncias
Produzido anualmente desde 1985, o levantamento da CPT é construído a partir de denúncias, documentos, reportagens e, sobretudo, da escuta direta de comunidades afetadas. Não é apenas um banco de dados: é um arquivo vivo de conflitos que muitas vezes não chegam aos grandes meios de comunicação.
Ao mesmo tempo em que denuncia, o relatório também registra resistência. Foram 502 manifestações de luta em 2025, protagonizadas em grande parte por povos indígenas, que seguem mobilizados contra projetos que ameaçam seus territórios: do chamado “marco temporal” a grandes empreendimentos de infraestrutura.
No fim das contas, o que o relatório revela é menos um retrato estático e mais um movimento: o campo brasileiro continua em disputa. E, na Amazônia - onde a terra tem dono, mas também tem memória - essa disputa está cada vez mais intensa, mais concentrada e mais perigosa.




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