Cão acolhido por acadêmicos na UFRR é retirado do campus e alunos procuram novo lar para animal

Atualizado: 28 de jun.

Cachorro batizado de "Cleyton" precisou ser retirado da universidade em meio a polêmicas sobre a sua permanência.


Por: Caíque Rodrigues e Yara Ramalho





Cachorros são considerados "os melhores amigos do homem", mas mesmo com isso, muitos vivem abandonados nas ruas. É o caso do "Cleyton", um vira-lata que se abrigou em um dos blocos Universidade Federal de Roraima (UFRR) durante o período das aulas remotas e após o retorno presencial, foi acolhido pelos alunos de psicologia. Agora, retirado do campus, os estudantes procuram um novo lar para o cão.


Cleyton encontrou abrigo no bloco de psicologia e pedagogia (Ceduc) e, por conta da simpatia e carisma, acabou conquistando os estudantes de psicologia que retornavam após dois anos de aulas à distancia, devido a pandemia da Covid-19. Mas a presença de Cleyton - ou como é carinhosamente chamado, Cleytinho - gerou polêmicas no bloco, é o que conta o presidente do Centro Acadêmico de Psicologia (Capsi), Gustavo Andly, de 22 anos.



Foto: Arquivo Pessoal


Gustavo, que está no quinto semestre do curso, conta que o cão estava com aparecia debilitada e doente.


"O Cleyton apareceu no bloco de psicologia na primeira semana de aula nesse semestre de retorno das aulas presenciais. Eu acho que nos primeiros dias ele apareceu bem magrinho, bem cabisbaixo, tinha até uma mancha na pele que a gente achava que era sarna, ele não estava aparentemente muito bem de saúde", conta o presidente do Capsi.


Ele relata que, por coincidência, a presença do animal foi percebida na semana em que estava marcado uma assembleia do centro acadêmico, foi então que foi decidido criar uma comissão para cuidar apenas do que se tornaria o queridinho do bloco pelos alunos.


"As discussões eram para uma ajuda inicial. Com isso, criamos uma comissão formada por alunos que cuidariam do Cleyton. Foi disponibilizado dinheiro para comprar ração e então os alunos ficaram de cuidar dele, alimentar, dar remédio até ele se recuperar. Nesse processo, a gente acabou se apegando a ele e ele a nós, ele ficou criando raízes no bloco", relata Gustavo.


De acordo com o acadêmico, foi impossível não se afeiçoar pelo cativante animal e logo todos os alunos do bloco haviam "caído no charme de Cleytinho".


Mesmo com a simpatia, Cleyton demonstrava traumas por conta de maus-tratos sofridos no passado. Gustavo conta que o cão latia para algumas pessoas que ele "não ia com a cara" e que isso gerou polêmica em relação à permanência do animal no bloco.


"O laço entre os alunos e o cachorrinho foi criado, só que com isso, durante a convivência no bloco, ele começou a latir para algumas pessoas. Até então, ele não latia para ninguém, ele ficava lá, no canto dele, só que ele começou a latir para algumas pessoas específicas e alguns desconhecidos que não frequentavam o bloco, mas depois ele parava de latir. Acontece que para algumas pessoas ele continuava latindo mesmo com a rotina. Começou a se tornar um incomodo para essas pessoas".


"Ele nunca atacou ninguém, mas ele ficava naquilo de acompanhar a pessoa no bloco latindo e rosnando. Foi então que começou a gerar uma problemática do cachorro no campus", conta Gustavo Andly.


Foto: Arquivo Pessoal


O presidente do Capsi relembra que o único inconveniente envolvendo a presença de Cleyton no bloco foi um acidente. Uma aluna não viu o cachorro e acabou tropeçando nele.


"Os alunos lidavam muito bem com o Cleyton, ele nunca latiu para os alunos, ele sempre foi muito oferecido na verdade, aceitava o toque, a aproximação dos alunos, nunca foi arredio. A única coisa que aconteceu, que foi um acidente, foi que ele estava atrás de uma aluna e ela não o viu, tropeçou nele e caiu. Um acidente, mas nada que tenha demonstrado violência por parte do Cleytinho", relembra.


"Ele é muito afetuoso. Além dele ser um cachorro querido pelos estudantes, ele também gostava muito da gente".

Gustavo conta que o companheirismo de Cleyton era algo descrito por ele como "impressionante". O cachorro, de acordo com ele, esperava todos os alunos saírem do bloco para, só então, dar o seu "rolê" pela cidade.


"Quando todo mundo saia do bloco, o Cleyton ia dar o role dele em outros blocos e ficava passeando. Tem uma aluna que fica esperando os pais virem buscar ela até tarde, ela disse que o Cleyton não saia do bloco até a hora dela ir embora, ou seja, ela ficava sozinha naquele bloco afastado, escuro e sem proteção alguma e o Cleyton ficava lá fazendo companhia para ela".


Polêmicas dentro da universidade


Mesmo com a simpatia descrita, as latidas e rosnadas que o cão dava para estranhos no Ceduc começaram a incomodar professores e funcionários do curso de psicologia. As polêmicas foram tamanhas, que os estudantes penduraram um cartaz na frente do bloco informando que Cleyton é um cão simpático.



Foto: Reprodução/Redes Sociais


Com as reclamações, começaram o que o presidente do Capsi chamou de "coações". O cartaz, os potes usados para colocar a água e a ração de Cleyton foram tirados do Ceduc sem nenhum aviso aos estudantes, o que irritou os membros do centro acadêmico.


"Nós criamos um baner informando que nosso bloco tinha um cachorro, ele não é perigoso mas ele late... era muito informativo. Esse baner simplesmente sumiu e ninguém sabe onde está. Além disso, sumiu também um pote de ração e um pote de água. Eu fui lá na prefeitura universitária, as câmeras do centro não estão funcionando para verificar... eu particularmente entendo isso como uma coação".



Foto: Arquivo Pessoal


De acordo com Gustavo, os favoráveis a retirada do cão de dentro do bloco, resgataram uma resolução da UFRR de 2013 que proíbe qualquer ato que tornem "atrativa a permanência de cães no interior". Decisão essa desconhecida pelos alunos de psicologia que acolheram Cleyton.


"A UFRR tem uma resolução em que proíbe que os cachorros sejam alimentados, que qualquer condição em que promova a permanência dos cachorros, o mínimo de ação humana na verdade, você precisa ser desumano ao olhar esses cachorros abandonados, de acordo com a universidade".


"A gente desconhecia essa resolução e a partir do momento que começou a incomodar alguns professores, alguns funcionários, essa resolução, que era esquecida, foi resgatada".

O presidente do Capsi conta que tamanha era a polêmica envolvendo a estadia de Cleyton nas dependências da UFRR, que boatos começaram a ser criados a respeito da relação dos alunos com o cão.


"Para ter uma noção do clima de tensão que ficou no bloco por conta do Cleyton, surgiu um boato entre os professores de que nós, alunos, estávamos ensinando ele a latir para os professores. Olha só o nível de fantasia... a gente tentando ajudar um ser indefeso, distorceram até chegar nessa narrativa, transformando ele numa arma", conta Gustavo.


Com isso, segundo Gustavo, a diretoria do centro acadêmico foi notificada por funcionários para que o cão fosse retirado da universidade, pois ele "ele representava uma certa limitação, por conta do medo de andar nos corredores".


"Fora essas coações e ameaças de funcionários e professores, inclusive professores de outros bloco, a gente nunca foi notificado oficialmente pela Universidade de modo formal. O que teve foram as pessoas que se incomodavam com a presença dele e isso gerou um clima de tensão tão grande que a gente decidiu tirar ele de lá e levar ele para outro lugar".


A UFRR foi procurada pela reportagem, que informou que a situação de Cleyton deveria ser tratada com a Prefeitura Universitária. Por sua vez, a prefeitura informou que o assunto é de competência da reitoria da universidade.


Por fim, procurada novamente, a UFRR informou que deve-se cumprir a decisão de 2013 que proíbe "acomodação, alimentação ou criação de condições que tornem atrativa a permanência de cães no interior". A decisão também autoriza a "Administração da UFRR a tomar medidas necessárias à retirada de cães e outros animais abandonados do interior dos campus".



Foto: Arquivo Pessoal


Atualmente, Cleyton está se recuperando de uma cirurgia de castração custeada após uma vaquinha dos estudantes. Agora, ele aguarda ser adotado em um lar temporário disponibilizado por um dos alunos. Gustavo conta que em meio a tudo isso, o cão não retornará para as dependências da universidade, mesmo após recuperado e o clima é de triteza.


"Passando por tudo isso, eu sinto muita tristeza. Eu falo pela percepção que já ouvi não só de mim mas dos meus colegas também do quanto é triste essa situação. A gente realmente se apegou, as pessoas sentem falta dele, essa semana que ele não está lá as pessoas comentavam: ‘nossa, tô sentindo falta do Cleyton’. É revoltante pois é um cachorro muito carinhoso, tem fotos da gente com ele no colo, para ver o nível de carinho".


"As pessoas estão com saudade sim, eu particular sinto tristeza, pois somos um curso de psicologia, um curso que ensina como acolhe, como atende e ampara, não pratica o que prega. Mil coisas poderiam ser feitas antes de ameaçar e isso não foi feito. Tinha dias que eu não queria ir para a universidade, por indisposição mesmo, e eu pensava ‘eu vou pois eu vou ver o Cleytinho’, então na minha experiência pessoal, ele era até um motivo para sorrir no campus".

'O nosso dogcente'


Cleyton - que em um trocadilho era chamado de dogcente - era popular no Ceduc, conquistando o coração da maioria dos alunos do bloco. De acordo com o estudante do décimo semestre de psicologia, que acolheu provisoriamente o cão, Gabriel da Silva, de 21 anos, todo mundo gostava do cachorro.


"Todo mundo gosta do muito do Cleyton, qualquer um que conhece ele, acaba se apaixonando, mas por algum motivo ele não gosta de alguns membros do corpo docente. É engraçado pois é só com os professores, os alunos todos se davam muito bem com ele. Ele parece ter um histórico de maus-tratos, ele tem o comportamento de trauma, de quem sofreu muito. Isso é muito triste".


"O Cleyton era nosso mascote, mas os professores disseram que ele representava um risco para a saúde de todos, o que eu não concordo", conta Gabriel.

Gabriel destaca que Cleyton exercia a função de união entre os alunos do bloco de psicologia e sua falta é sentida por todos os acadêmicos.


"O Cleyton estava sempre lá para receber os alunos e ele criava um espaço de união e socialização entre os alunos, pois ele meio que era um ‘ponto de encontro’ entre os estudantes de psicologia".



Foto: Arquivo Pessoal


Acompanhando a situação do animal, Gabriel se ofereceu para ser o lar temporário de Cleyton enquanto ele se recupera da cirurgia. Por conta dos gatos e da ausência de alguém que cuide do cão, ele conta que não pode adotá-lo de forma permanente.


"Ele está aqui em casa já tem uma semana, eu estou cuidando dele, servindo de lar temporário. Ele é perfeito, melhor impossível! Muito educado, muito fofo, muito comportado... só tem coisas boas para se falar. Infelizmente não posso ficar com ele pois temos gatos aqui e não tem gente que possa ficar cuidando dele aqui em casa".

Para Gabriel, a retirada de Cleyton do bloco foi uma "injustiça". Ele destaca que o curso de psicologia tem outras situações mais urgentes do que a presença de um cão nas dependências do bloco.


"O curso de psicologia é bastante precarizado, jogado às traças tem muito tempo, com pouquíssimos professores, um bloco sem estrutura, alunos nas mais diversas situação de vulnerabilidade... um curso com muitos problemas. A presença de um cachorro no bloco é o último dos últimos dos nosso problemas".


A acadêmica do nono semestre de psicologia, Myrla Lima, de 28 anos, relata que, mesmo com medo de cachorros, foi impossível não se apegar à simpatia de "dogcente".


"A primeira vez que eu vi ele no bloco, eu pensei que era apenas mais um dos cachorros que vivem lá na UFRR. Eu vi uma das professoras chamando ele pelo nome ‘Cleyton’. Foi engraçado, pois enquanto eu esperava a professora chegar, eu via ele pelo pátio, as pessoas brincavam com ele, davam comida para ele, ele ficava deitado. Quando tinha um cachorro que vinha de fora era engraçado que ele ‘botava para correr’ como se fosse a casa dele", conta Myrla.



Foto: Arquivo Pessoal


Ela via a presença do cão como uma forma positiva e, inclusive, acredita que todos os animais que vivem de forma "clandestina" na UFRR deveriam ser cuidados pelos alunos e pela administração.


"Era uma coisa positiva para todos os estudantes. Nos grupos das disciplinas, as pessoas combinavam de levar comida para ele, revezavam... de forma geral, eu achei bem bacana essa ideia de cada bloco adotar um cachorrinho, pois tem vários vagando pela universidade, é até bom para aliviar as tensões".

Para o discente do nono semestre, Gabriel Taveira, de 24 anos, mesmo com o cachorro estranhando algumas pessoas, fazer amizade com Cleyton era algo quase que "natural.


"Esse movimento de tentar retirar o Cleyton do bloco é muito angustiante. Ele estava lá antes da gente chegar, pois com a pandemia ninguém frequentava o bloco que ele adotou como casa, então os intrusos para ele éramos nós. Isso é muito angustiante, deixa a gente chateado pois é muita falta de consideração com o animal".


Ele acredita que a administração, ao invés de combater a presença de animais no campus, deveria promover métodos que garantam o conforto de cães e gatos nas dependências.


"É muito comum no campus se deparar com cachorros de ruas transitando entre os blocos. Deveriam promover métodos que garantam conforto alimento e afeto para ele dentro daquele espaço, que é um espaço de convivência. Por qual motivo não podemos ter amizade e coleguismo também com os animais de rua da UFRR?".


"Ele é só um cachorro, um cãozinho dócil, ele brinca, ele cheira, ele faz carinho... ele já me puxou para fazer carinho nele, e foi a coisa mais fofa que eu vi algum cachorro fazer na minha vida inteira".

Presença de cães e gatos na UFRR


A reportagem procurou a UFRR e questionou se havia alguma alternativa para cuidar dos cachorros de rua que vivem no campus, se havia um quantitativo de cachorros e gatos vivendo nos blocos e se, em caso de retirada dos animais, era feito um processo de acolhimento e cuidado. A universidade novamente informou que o assunto deveria ser tratado com a Prefeitura Universitária.


Por sua vez, novamente a Prefeitura Universitária informou que o assunto é de responsabilidade da reitoria da UFRR. Procurados novamente, informaram que a universidade havia criado uma comissão para cuidar dos animais abandonados no campus e que a comissão era presidida pela servidora da parte administrativa da universidade, Isnelda Maizonave.


Isneida informou que foi convidada à pouco tempo para presidir a comissão e que alguns tramites burocráticos deveriam ser tomados antes de haver qualquer início de trabalho da comissão.


"O que acontece, para existir uma comissão, é preciso que saia uma portaria. Essa portaria não saiu ainda. É uma comissão tão nova, foi criada semana passada, só tiveram duas reuniões. Só me perguntaram informalmente se eu aceitava ser presidente da comissão e lógico que eu aceitei pois eu amo animais".


Para ela, foram feitos os mesmo questionamentos, mas ela informou que não poderia responder por não ter ainda os dados sobre os animais na universidade.


"Acontece que os questionamentos feitos como o quantitativo de cachorros de rua que moram no campus, uma maneira de resgatar e cuidar deles e tudo isso não podem ser respondidos ainda. Infelizmente, nesse momento não tem resposta. A portaria ainda nem saiu, a gente ainda não começou os trabalhos da comissão, vai sair a portaria, abrir o processo, iniciar tudo... depois disso, vai ser feito o levantamento, vai ser feito todo um trabalho para lidar com os cachorros".


"O que pode ser dito por ora, é que essa comissão está sendo criada, é tudo muito novo e assim que se iniciar os trabalhos, teremos resposta sobre a situação dos animais na UFRR".

Ela conta que farão parte da nova comissão acadêmicos e voluntários da causa animal em Boa Vista.


"Essa portaria vai sair pelo gabinete da reitoria da UFRR e essa comissão tem alguns membros da administração, tem ONGs, estudantes de medicina veterinária... agora, seria muito imprudente da minha parte responder qualquer pergunta a respeito".


Ela prevê que o primeiro passo a ser feito é catalogar quantos animais vivem abandonados na UFRR.


"O primeiro passo a ser feito pela comissão vai ser catalogar esses animais, saber quantos são, que situação estão, como se alimentam... a gente faz um trabalho como voluntário aqui dentro mas não há algo específico para isso. Estamos só no aguardo para começar a trabalhar".

Futuro de Cleyton





Cleyton não será levado de volta para a UFRR, ele irá aguardar a recuperação no lar temporário. Se não encontrar um lar fixo, será levado para um sítio da família de um dos estudantes de psicologia. De acordo com Gustavo, a prioridade é encontrar um lar com família dentro da cidade.


"A gente não queria levar ele para um sítio aberto com outros cachorros e outros animais. Queríamos uma família que adotasse ele dentro da cidade e desse muito amor para ele. Estamos a procura, com campanhas e divulgações".


Para adotar Cleyton, basta entrar em contato com Gustavo Andly pelo telefone (95) 98408 9287.






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