• Fernanda Fernandes

Boa Vista 132 anos: O que está acontecendo com a nossa história?

Atualizado: 21 de jul.

Neste sábado (09) Boa Vista celebra mais um ano de história e a cada comemoração um pouco da memória vem sendo apagada por falta de cuidados com os prédios históricos


Por: Daniela Batista e Fernanda Fernandes

Imagem: Fernanda Fernandes

A capital Boa Vista era considerada um povoado que pertencia a Província do Amazonas. Após um decreto assinado em 09 de julho de 1926, pelo Governador Augusto Ximeno de Villeroy, ganhou-se o título de município.


Segundo o historiador Jacir Guilherme, essa região inicialmente não era muito desejada pelos portugueses, naquela época o litoral brasileiro estava bastante desenvolvido do ponto de vista da colonização.


“Teve uma cobiça pequena. Os portugueses começaram a repensar nela por volta do século XVIII, a partir do Marquês de Pombal, onde ele fez um projeto para que essa região entrasse no eixo do processo de colonização, no qual era de interesses dos holandeses, ingleses e espanhóis”, explica

A Fazenda Boa Vista, fundada em 1830, pelo capitão Inácio Lopes de Magalhães, existia um povoado, que em 1858 foi chamado de Freguesia de Nossa Senhora do Carmo. Já em 1887, passou a ser considerada como Vila de Boa Vista do Rio Branco.


Meu Cantinho - Imagem: Daniela Batista

A sede da Fazenda Boa Vista, após um período de tempo, passou a funcionar como bar e restaurante meu cantinho. Em 1996, foi reformada pelo projeto Raízes 7. O atual proprietário, Jorge Macedo de Figueiredo, relata que a sua família portuguesa é a terceira dona do estabelecimento.


“Meu avô era português e chegou aqui em 1890, comprou a fazenda em 1940. Desde então, meu avô teve a posse, que hoje é a nossa residência, onde moramos e eu trabalho. Esse restaurante foi inaugurado na década de 1968 e desde de lá estamos trabalhando em uma dinastia familiar, passou pelo meu avô, meu pai e agora está comigo”, completa

Ouça o relato do atual proprietário Jorge Macedo de Figueiredo


Além disso, o historiador ressalta que naquela época já havia uma grande quantidade de povos indígenas residindo nesta região.


“Inclusive onde está a Fazenda Boa Vista, os povos indígenas estava ali localizados e foram expulsos ao longo desse processo, nesse local se formos analisar tem vários sítios arqueológicos”, completa

Ouça o resumo da história da colonização de Boa Vista com Jacir Guilherme


Em conversa com o Diretor da Hutukara Associação Yanomami, Maurício Ye’kwana, relata que seus avós contavam que quando os portugueses chegaram tinham indígenas e com os quais faziam trocas de artesanatos.

"Eles levaram daqui redes e traziam “ralos”. Muitos indígenas daqui morreram e foram expulsos, também foram usados como escravos, para fazer construções, essas coisas”, ressalta

A antropóloga do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), Gilmara Fernandes, relata que ao observar a capital, dá para perceber que historicamente sempre negou a história dos povos indígenas.

“A gente infelizmente não temos nenhum monumento que possa simbolizar ou representar os povos indígenas aqui, ainda se tem grande trabalho para fazer na questão dos povos indígenas” conclui

Ouça o relato de Gilmara Fernandes


Maurício Ye’kwana, conta que a capital tem um monumento (Três Pioneiros), no qual faz simbolismo ao agricultor, indígena e ao garimpeiro.


“Como a pessoa pensou nisso, se ele não valoriza e reconhece o indígena. Por que ele coloca bem no meio o indígena? Como se tivesse tudo integrado e tudo bem”, expõe

Monumento Três Pioneiros - Imagem: Daniela Batista

Ouça o relato completo de Maurício Ye’kwana


Patrimônios Públicos


Na capital, atualmente ainda encontramos construções de prédios antigos que mantêm suas funções originais, e para a proteção e preservação desses patrimônios dentro do estado de Roraima existe a constituição Estadual de 1991, do mesmo modo como na esfera municipal temos a Lei n° 1.427, de 15 de junho de 2012, que institui o tombamento e os registros de bens.


Mesmo com a promulgação da constituição, e considerando que o patrimônio sequer havia sido tombado pela municipalidade, o que se observa é o descaso por parte da administração pública em relação aos bens pertencentes ao estado.

“Eles vão destruindo para assim, construir. Eles destruíram o beiral e construíram aquela praça que custou 320 milhões, e a verdade é que eles destroem os bens da cidade para superfaturar. Naquele local, foram destruídas construções, assim como relações de pessoas que moravam ali a 50 e 60 anos”, relatou Jacir Guilherme


Confira o vídeo da importância dos patrimônios públicos


Não há registros disponibilizados para a comunidade sobre os bens que foram tombados pelo governo municipal e estadual, há apenas decretos e leis com justificativas sobre os tombamentos.


O empresário Hélio Zanona da agência de turismo Makunaima, fala sobre a falta de acesso a esses documentos.


“Tombamento por Decreto já tem bastante, mas não vemos nenhum resultado efetivo nesse sentido, em Roraima mesmo ,temos poucas referências bibliográficas, principalmente na internet. E o que tem às vezes não é tão rico em informação, então, a gente acaba tendo um perfil de turista que chega até aqui desinformado”, Comenta

De acordo com o artigo 19 do Decreto nº 25 de 1937, os proprietários de bens tombandos devem protegê-los e fazer os reparos necessários por conta própria. No entanto, o Decreto nº 006/15, sancionado pela ex-prefeita Teresa Surita, regulamenta a realização de destombamento no município de Boa Vista-RR, destombando assim o antigo Hospital Nossa Senhora de Fátima.


Contudo, mesmo diante das recomendações do Ministério Público Estadual (MP-RR) e Federal (MPF-RR), para que o executivo municipal anulasse o decreto local , no dia 16 de fevereiro de 2015 o primeiro hospital de Roraima foi demolido.

Semelhantemente, por falta de manutenção, a Secretaria de Educação de Roraima, que foi tombada 1994, foi demolida por determinação da justiça do estado.

O professor e historiador Victor Mattioni discorre sobre a preservação, no que se refere ao patrimônio histórico cultural de Roraima.


“Existe uma luta intensa contra o poder público, para que esses patrimônios sejam preservados com o intuito de manter a história do município viva”, explica

Diante de tanto descaso, esse será o mesmo destino da Casa da Cultura Madre Leotávia Zoller?


A equipe tentou contato com a Prefeitura de Boa Vista e o Governo de Roraima, em busca de informações sobre a questão, mas até o fechamento desta matéria não obtivemos respostas.


Casa da Cultura Madre Leotávia Zoller - Imagem: Daniela Batista

Apesar da falta de políticas públicas para a manutenção, a capital ainda possui monumentos que são valorizados e que valem a pena conhecer.


Conheça a história de alguns monumentos


39 visualizações0 comentário