• Fernanda Fernandes

Banco de leite humano: Doação que pode salvar vidas

Realizar a doação de leite materno ajuda a salvar vidas de bebês prematuros da UTI neonatal, que não podem ser amamentados por suas mães


Por: Daniela Batista e Fernanda Fernandes

Foto: Daniela Batista

A doação do leite humano é considerada fundamental para a evolução do tratamento de crianças que estão internadas nas Unidades de Terapia Intensiva (UTI) neonatais, especialmente bebês que nasceram prematuros e/ou com baixo peso. A Rede de Banco de Leite Humano (rBLH), ressalta que qualquer mãe que esteja saudável e não tome medicamentos incompatíveis com a amamentação pode se tornar uma doadora.


Dados levantados pelo Ministério da Saúde, mostram que a amamentação pode reduzir a mortalidade de menores de cinco anos em até 13%, salvando cerca de 6 milhões de vidas a cada ano, à medida que as taxas de amamentação aumentam para 6 meses. Além disso, são considerados suficientes para proteger crianças de várias categorias de doenças. Por essa razão, é de extrema importância a realização da doação, já que o mesmo não pode ser produzido artificialmente.


A coordenadora substituta Doutora Franciane Werlang do Banco de Leite Humano Dra. Marilurdes Albuquerque, localizada no Hospital Materno Infantil Nossa Senhora de Nazareth, relata que o leite doado é fundamental para a recuperação dos bebês prematuros da UTI neonatal, pois são crianças sensíveis, consideradas em grupo de risco, em que precisam de proteção, imunidade, anticorpos, nutrientes passados através do leite materno.


"O leite materno salva vidas, ele é tão importante quanto uma doação de sangue. Nós comparamos com uma doação de sangue, porque salva vidas, assim como o sangue. O leite materno é considerado o melhor alimento do mundo, sendo o alimento número um do mundo, não existe alimento que se compare a riqueza e as propriedades do leite materno, só nele existem mais de 250 substâncias para poder nutrir e alimentar esse bebê." Explica

A mulher que decide se tornar doadora de leite materno, visto que um dia já foi beneficiada com a doação, consegue compreender que qualquer quantidade de leite humano importa. É o caso da mãe Elizabeth Viriato de 21 anos , que conta sua experiência com o banco de leite. Além de ser uma ex-doadora, sua filha foi uma das bebês internadas na UTI neonatal do Hospital Materno Infantil que recebeu a doação do leite materno.


“Minha filha Maelly passou um mês no hospital, sendo 21 dias na UTI e com isso ela não mamava direito. Então eu fui ao banco de leite da maternidade e perguntei como eu poderia doar, meus exames deram ok, e eu poderia doar e doei. Quando eu saí da maternidade continuei doando até oito meses, porque eu tinha bastante leite, tive que parar de doar porque não estava tendo mais produtividade o suficiente para dar para minha filha.” ressalta

A ex-doadora conta, que além da sua filha nascer prematura, ela ficou sem produzir leite durante cinco dias, com isso a sua única alternativa de alimentar a sua filha era através do banco de leite e compartilha o motivo da sua doação.


“Por mais que a minha filha estivesse mamando da maneira errada, eu continuava doando. Porque lá tem quem precisa de leite materno. Eu mesma presenciei duas crianças que a mãe faleceu e não tinha leite materno e só tinha no banco de leite e às vezes nem no banco de leite tinha leite, por falta de doação. Foi aí que, a meu ver, passei a doar, porque tanto a minha filha, quanto outras crianças precisavam do meu leite.” concluiu a mãe

Ouça o relato da Elizabeth


A atual responsável pelo Bando de Leite em Roraima, Doutora Franciane Werlang, relata que em 2020 por conta da alta da pandemia da covid-19, houve uma queda na doação do leite humano.


“No início da pandemia caiu bastante, mas depois nós recuperamos. Foi um susto, todo mundo estava com medo. Nós restringimos, quem tava com caso positivo, nós não recebíamos, nós ficamos com medo de um bombeiro pegar e ir para outra casa e passar. Então, nós fizemos uns bloqueios e realmente trabalhava com um estoque baixo.” explicou

Além disso, a Doutora Franciane Werlang, ressalta que o leite doado nunca dá para todo mundo.


“A UTI neonatal está cheia de recém nascidos e a prioridade desse leite vai ser sempre os prematurinhos da UTI. E a demanda sempre é muito grande. Então sempre o destino do leite doado é para os prematuros da UTI neonatal." concluiu

Imagem: Daniela Batista e Fernanda Fernandes

Segundo a Rede Brasileira de Bancos de Leite Humano (rBLH- BR), o número de doadores entre janeiro e maio de 2022, estão variando entre 95 a 145 doadores mensalmente, gerando no total 612,2 litros de leite coletado.


Já nos últimos cinco anos, 2018 foi o ano que teve mais doadores de leite humano, sendo 1.577 mães que realizaram a doação, gerando no total 1.463,7 litros de leite humano.


DOAÇÃO


Para realizar a doação a mãe tem que amamentar e ter excedente de leite, ou seja, qualquer mãe que amamenta e tenha leite sobrando, que mesmo o bebê mamando e ainda sinta o seio cheio e consiga ordenhar o excedente de leite independente da idade do bebê, ela pode se tornar uma doadora, é o que orienta a Doutora Franciane Werlang.


“Se por um acaso você amamenta e seu filho tem um ano ou mais de dois anos você pode doar, basta ter o excedente. O primordial é ter o excedente de leite. Nós nunca vamos pedir para mãe tirar o leite e faltar para o filho. Apesar que isso não acontece. Leite materno é igual amor. Quanto mais você tira, mais você tem. Então o principal é a mãe fazer a ordenha do excedente de leite independente da idade do bebê.” explicou

Além disso, a mãe tem que ser uma mulher saudável e os exames de sorologia devem estar atualizados e com resultado negativo.


Caso a doadora não tenha feito recentemente o exame de sangue de sorologia ou se tiver um exame antigo, que já esteja vencido, será convidada a realizar novamente os testes. Esses exames podem ser feitos tanto no Banco de Leite, quanto na UBS mais próxima da sua casa. Portanto, esses resultados de exame são critério para realizar o cadastro.


A Doutora Franciane Werlang ressalta que hoje a doação de leite no Banco de Leite Humano Dra. Marilurdes Albuquerque está bem sistematizada, ou seja, utilizam a tecnologia a favor do banco.


O banco de leite possui um número de telefone, em que a mãe pode entrar em contato pelo WhatsApp, por meio do número (95) 98414–0772. Após o envio da mensagem do doador, será enviado automaticamente um link e através dele será feito todo o cadastro do doador, ou seja, todo o cadastro é feito de maneira virtual.


“Chegando para gente esse formulário preenchido, a equipe do banco de leite tem uma pessoa responsável por isso. Ela vai realizar esse cadastramento e vai entrar em contato com a mãe para fazer a busca dos exames.” explica

Judith Azevedo foi uma das doadoras do Banco de Leite durante quatro meses, em que relata o seu prazer por realizar as suas doações durante esses meses.


“Logo quando o meu filho nasceu eu comecei a ser doadora, procurei o banco de leite e fiz a minha inscrição para poder ser doadora. Eu quis ser doadora de leite por ter medo de não amamentar o meu filho e ver que isso foi um processo tão tranquilo e tão lindo. E ver que graças a Deus eu consegui amamentar, isso é uma forma de ser grata por tentar ajudar outras crianças.” concluiu

Ouça o relato da Judith


A doação é feita de forma voluntária, a qual a única recompensa é saber que através de um gesto uma vida poderá ser salva. No entanto, como forma de agradecimento às mães doadoras ativas, pode-se agendar uma consulta de rotina com a pediatra do banco de leite.


“Atualmente o banco de leite conta com uma pediatra na equipe, que dá esse suporte esse apoio às mães doadoras. Basta ela ser uma doadora ativa e já ter realizado a primeira doação.” explicou a responsável pelo banco de leite

COLETA


A coleta é feita por uma equipe de bombeiros com parceria com o Banco de Leite, em que são responsáveis por realizar a busca do leite congelado e deixar um novo frasco nas residências das doadoras. Mas isso só se tornará possível caso a doadora resida em Boa Vista.


O soldado Wendel do corpo de bombeiros descreve que a coleta é realizada uma vez por semana na casa de cada doadora, sendo intercalada por bairros. Ao realizar o cadastro no banco de leite, a doadora recebe informações sobre a data da coleta.


“O bombeiro hoje é responsável pela parte externa da coleta. Os responsáveis pelo banco de leite fazem a rota onde eu e o servidor civil Armando, ficamos responsáveis por realizar as coletas nas residências. A rota é separada por microrregiões, que são separados os bairros próximos e cada semana fazemos um bairro diferente, sendo realizada de segunda a sexta-feira.” explica

A Doutora Franciane Werlang relata que um dia antes dessa busca é enviada uma mensagem para confirmação se o bombeiro pode ir coletar.


"Não é toda semana que a mãe consegue coletar e congelar, pode ter uma situação onde o bebê ficou doente, gripou, mamou mais ou ela teve que se ausentar e fez uma viagem. Então existem situações que impeça a mãe de tirar leite toda semana, por isso existe essa confirmação um dia antes, no caso ela não teve a oportunidade de tirar, o bombeiro não passa.” completou

O ideal do processo de coleta é que a doadora espere o bombeiro buscar o pote na sua casa, pois irá com os equipamentos adequados para realizar a busca e manter a temperatura adequada para a conservação do leite.


O manual do Branco de leite, instrui que leite deve ser armazenado em um frasco de vidro, com a tampa de plástico e com a “boca” larga, assim o leite não perderá as suas propriedades. O leite deve ser congelado imediatamente após a ordenha com a validade de 15 dias, o frasco deve ser identificado a data da ordenha, ou seja, pois possui um prazo para chegar no banco de leite, para iniciar o processo de pasteurização.


Vale ressaltar que todas as mães que tenham excedente de leite e queiram doar, mas ainda possuem dúvidas sobre o processo de doação devem entrar em contato com o banco de leite de Roraima, e os que querem ajudar de alguma forma podem doar frasco de nescafé nas unidades do corpo de bombeiro ou na própria maternidade.


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