top of page

Amazônia no Sul Global: PPGCOM–UFRR integra pesquisa internacional sobre desigualdades na pós-graduação

  • Foto do escritor: Amazoom
    Amazoom
  • 30 de jun.
  • 4 min de leitura

Com participação do Amazoom e do PPGCOM/UFRR, projeto coordenado pela UFS reúne Brasil, México, Argentina e África do Sul para investigar como gênero, raça, etnicidade e território atravessam trajetórias acadêmicas na pós-graduação.


Encontro dos representantes brasileiros da Rede Alteridades na UFS. Foto: Arquivo pessoal.
Encontro dos representantes brasileiros da Rede Alteridades na UFS. Foto: Arquivo pessoal.

A pós-graduação do Sul Global vai ganhar outro mapa feito não apenas de fronteiras e indicadores, mas também de travessias, silêncios, deslocamentos, maternidades, pertenças, ausências e resistências. O projeto “Alteridade nos sujeitos de pós-graduação: um estudo comparativo entre Brasil, México, Argentina e África do Sul” foi aprovado na Chamada Pública MCTI/CNPq nº 16/2025 e vai investigar como desigualdades de gênero, raça, etnicidade e território atravessam as trajetórias de estudantes e egressos da pós-graduação em áreas das Humanidades, com eixo central na Comunicação Social.


Coordenado pela professora Renata Barreto Malta, do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Sergipe (PPGCOM/UFS), o estudo amplia internacionalmente a atuação da Rede Alteridades, já desenvolvida no Brasil com apoio da CAPES. A rede reúne programas de pós-graduação em Comunicação da UFS,UFMS, UFPA e UFRR, com atenção especial aos chamados “Brasis preteridos” do Norte, Nordeste e Centro-Oeste – regiões historicamente menos concentradas em recursos científicos, tecnológicos e informacionais.

“Estamos extremamente felizes com essa conquista. É o reconhecimento do trabalho sólido que já vínhamos desenvolvendo na Rede Alteridades. Esse financiamento nos permite agora levar para o contexto internacional do eixo Sul Global a discussão sobre as desigualdades interseccionais que atravessam a pós-graduação em prol de um ambiente acadêmico mais igualitário”, destaca Renata Malta.

 

Presença da UFRR

 

Pela Universidade Federal de Roraima (UFRR), a pesquisa conta com a participação do professor Vilso Junior Santi, do Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM). No projeto, o PPGCOM e o Amazoom aparecem como grupo de pesquisa parceiro da Rede Alteridades e é apresentado como espaço de cooperação, experimentação comunicacional, cultural e jornalística voltado aos territórios e territorialidades da Amazônia e do Caribe.


A presença da UFRR no projeto é estratégica porque desloca o olhar da pós-graduação para uma região onde a vida acadêmica também se escreve em fronteiras, rios, migrações, povos indígenas, comunidades tradicionais, deslocamentos geográficos e desigualdades históricas. Em Roraima, a universidade não está no fim do mapa: está em uma das suas bordas mais vivas. E é justamente dessas bordas que o projeto pretende fazer nascer novas perguntas sobre quem acessa, quem permanece e quem ainda precisa ser reconhecido na produção científica.


Para o professor Vilso Junior Santi, a participação do PPGCOM e do Amazoom fortalece a presença da Amazônia no debate internacional sobre ciência e desigualdade.

“A participação da UFRR nesse projeto mostra que a Amazônia não é periferia do pensamento, mas lugar de produção de conhecimento sobre o Sul Global. Quando falamos de pós-graduação em Roraima, falamos também de território, fronteira, deslocamento, diversidade cultural e das condições concretas que moldam a permanência de estudantes e pesquisadores na universidade”, afirma o professor.

 

O campo internacional

 

O projeto será desenvolvido entre 2026 e 2027 e terá campo internacional em três instituições: a Universidad Autónoma de Yucatán (UADY), no México; a Universidad de Buenos Aires (UBA), na Argentina; e a University of the Witwatersrand (Wits), em Joanesburgo, na África do Sul. A proposta é comparar os dados já produzidos no Brasil com as realidades desses países, observando aproximações, diferenças e boas práticas relacionadas às políticas de acesso, permanência, acolhimento e equidade na pós-graduação.


A metodologia combina Teoria Fundamentada em Dados, perspectiva interseccional e abordagem cartográfica. Na prática, isso significa que a pesquisa não vai partir apenas de estatísticas gerais, mas das experiências concretas de estudantes e egressos. Serão analisados documentos institucionais, aplicados questionários e realizadas entrevistas em profundidade. Depois, os dados serão organizados de forma comparativa para identificar como gênero, raça, etnicidade, classe, território, maternidade, saúde mental e deslocamento geográfico aparecem nas trajetórias acadêmicas.


Um dos pontos mais fortes da proposta é a criação de cartografias socio-comunicacionais georreferenciadas. Esses mapas interativos vão mostrar deslocamentos, trajetórias e produções de estudantes e pesquisadores no Sul Global. Mais do que localizar pessoas no espaço, a ideia é revelar como as geografias também pesa sobre a vida acadêmica: de quem precisa sair de sua cidade para estudar, quem cruza fronteiras, quem enfrenta ausência de bolsas, quem carrega filhos, línguas, territórios e identidades dentro da mochila da pós-graduação.


O estudo também prevê a elaboração de protocolos de bem-estar e acolhimento para a pós-graduação, além da produção de artigos científicos, livro trilíngue, site em português, espanhol e inglês, podcasts, vídeos curtos e materiais de divulgação científica. A proposta inclui ainda bolsas e missões de estudo para fortalecer a cooperação entre pesquisadoras e pesquisadores brasileiros e estrangeiros.


Encontro dos representantes brasileiros da Rede Alteridades na UFPA. Foto: Arquivo pessoal.
Encontro dos representantes brasileiros da Rede Alteridades na UFPA. Foto: Arquivo pessoal.

Para todos o projeto abre uma janela importante: a possibilidade de participar de uma discussão internacional sem abandonar o chão amazônico. A pesquisa dialoga diretamente com os trabalhos desenvolvidos pelo PPGCOM/UFRR, especialmente nas discussões sobre Comunicação, Memória e Identidades, Mídia, Território e Processos Comunicacionais, etnocomunicação, movimentos sociais, epistemologias críticas e saberes amazônico-caribenhos.

No fundo, o projeto pergunta algo simples e imenso: que universidade estamos construindo quando ainda existem trajetórias acadêmicas mais difíceis do que outras por causa da cor da pele, do gênero, da maternidade, da origem territorial, da classe social ou da distância em relação aos grandes centros de poder científico?

 

Ao levar essa pergunta de Roraima a Sergipe, do Brasil ao México, da Argentina à África do Sul, a Rede Alteridades transforma a pós-graduação em território de escuta. E, nesse território, o Amazoom e o PPGCOM/UFRR ajudam a lembrar que a ciência também pode nascer das margens, falar com sotaque de fronteira, caminhar com os pés no barro amazônico e, ainda assim, conversar com o mundo.

 

Comentários


bottom of page