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  • Foto do escritorElane Oliveira

A saga da readaptação dos imigrantes de Roraima e o processo de interiorização para outros estados

Atualizado: 24 de ago. de 2023

Como a interiorização muda o rumo da vida de venezuelanos que buscam abrigo no Brasil


Por: Carolayne Piá, Elane Oliveira e Maria Cantuário



Pessoas venezuelanas participam da estratégia de interiorização, sendo deslocadas de Boa Vista/RR para outras cidades brasileiras. Foto: Rafael Zart/ ACNUR-OIM/Divulgação

Em 2015, os imigrantes venezuelanos começaram a entrar no Brasil em busca de melhores condições de vida, por causa da crise socioeconômica, política, humanitária e migratória. O país vive nessa crise desde o governo de Hugo Chávez, e para lidar com a situação foi criada a missões bolivarianas.


Com o agravamento da crise já no atual governo do presidente Nicolás Maduro, os cidadãos do país passaram a imigrar para os países vizinhos em busca de melhores condições de vida. Dados do Sistema de Registro Nacional Migratório (Sismigra) mostram que, de 2018 a 2022, o número de mulheres venezuelanas em Roraima cresceu 183%. E muitas delas enfrentam tanto a xenofobia quanto o machismo quando chegam no Brasil.


Como foi o caso de Maury Emperatriz Pinto, que deixou a cidade de Anaco, no estado Anzoátegui da Venezuela, em março de 2018. A vendedora de limão, na época, não hesitou em pedir uma interiorização para outro estado.


"Eu esperei apenas um mês para ser transferida, tinha muita gente que estava na fronteira esperando para ser interiorizada, o que não foi o meu caso. Não precisei pedir refúgio na fronteira, fui acolhida por alguns venezuelanos que conheci aqui”, explicou Maury.


Maury em sua formatura. Foto: Arquivo pessoal

Ela conta que o intuito de pedir a interiorização surgiu por conta das condições de vida que ela levava no Estado.


“Um dos motivos de pedir interiorização é que eu não tinha condições em Boa Vista. Como tinha muitos venezuelanos, de certa forma falavam mal, tinha muita xenofobia, principalmente com as mulheres. Não tinha emprego suficiente e eu não tinha trabalho fixo ", comentou Maury.

A maioria dos migrantes venezuelanos entraram no Brasil pelo município de Pacaraima, fronteira com a Venezuela. Muitos entraram ilegalmente, sem dinheiro para passagens e comida, percorrendo mais de 214 km para chegar até a capital de Roraima, Boa Vista.


Em muitas reportagens, inclusive, a do programa Fantástico, é possível ver, muitos que vieram a pé, carona, e bicicleta, escondidos até no Entroncamento, nome dado à região localizada na divisa entre o município de Uiramutã, Pacaraima e Boa Vista.


Segundo os dados da Fundação das Nações Unidas para Criança (UNICEF), em 2021, mais de 30 mil venezuelanos residem em Roraima, e no Brasil, cerca de 365 mil. Para atender essa demanda, a Operação Acolhida (OP) foi criada em 2018, coordenada pelo Governo Federal com o apoio de entes federativos, agências da Organização das Nações Unidas (ONU), organizações internacionais e da sociedade civil e entidades privadas. O projeto atende as pessoas que buscam refúgio no país e conta com barracas temporárias.


No Brasil, o intenso fluxo de refugiados e migrantes venezuelanos observados a partir de 2017 fez com que em 2018 o governo lançasse um decreto federal, que reconheceu a situação como sendo uma crise humanitária. De acordo com a Agência da ONU para Refugiados (UNHCR), entre julho de 2017 e outubro de 2020, mais de 260 mil venezuelanos foram acolhidos no país.


As estimativas mostram que a maioria entrou e se estabeleceu na região norte, em Roraima (50%) e no Amazonas (19%). Diante dessa situação, o governo brasileiro implementou o processo de interiorização, com o objetivo de realocar essas pessoas para outras regiões do país, buscando aliviar a pressão no estado e proporcionar melhores condições de vida aos imigrantes.


Do extremo norte ao extremo sul do país


Com a transição de um estado que fica no extremo norte do país, para outro que fica bem ao sul, o completo oposto, o estudante Maikol Manuel Rodríguez, de 22 anos, viu sua rotina mudar. O estudante conta que o caminho para outro estado foi complicado devido a mudança de clima. Ele explica como foi a viagem de Roraima para o Rio Grande do Sul.


“Quando viajamos, ficamos parados por um tempo no aeroporto de Campinas (SP). Estávamos com roupas comuns e lá estava fazendo muito frio, pegamos essa mudança climática bem agressiva. A nossa situação piorou mais quando chegamos no nosso destino final, em Pelotas, que fazia muito frio, e tivemos ajuda dos vizinhos com roupa. Eu andava na rua com várias camisetas grossas para poder me aquecer,” comentou Maikol.

Maikol com o seu pai. Foto: Arquivo Pessoal

Quando se estabeleceu na cidade a sua adaptação com o clima continuou.


“A gente morava em um clima tropical em Roraima. Já em Pelotas, quando eu ia sair para rua era com cinco camadas de roupa, com cachecol, camiseta, suéter, touca e luvas. Lá em Boa Vista jamais faríamos isso”, conta Maikol.

Com a mudança de cidade, o cenário mudou e sua adaptação ficou mais fácil. “Eu não conseguia me aquecer o suficiente. Aqui onde eu tô agora, em Santa Catarina, não faz muito frio, porém consigo me aquecer quando estou cozinhando”, disse Maikol.



Agora Maikol mora em Santa Catarina. Foto: Arquivo pessoal

Além disso, Maikol comenta sobre as diferenças culturais que experimentou enquanto estava morando no Rio Grande do Sul (RS).


"Os gaúchos têm um comportamento diferente. O fato de aprender um novo idioma é extraordinário, porque o pessoal de Roraima tem suas gírias e sotaques. O roraimense tem costume de falar “pão massa fina ou massa grossa” aqui é só pão francês. A mesma coisa com a macaxeira e a mandioca que é aipim. Graças a Deus que o pessoal nos recebeu bem e ajudaram e doaram muitas roupas de frio” relatou Maikol.

Segundo a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), existem várias modalidades de interiorização, entre elas, a Interiorização por Reunificação Familiar, para aquelas pessoas que têm família em outro estado com comprovação familiar e que possuem condições financeiras. A outra modalidade é a Interiorização por Reunião Familiar, que condiz quando a pessoa tem algum amigo ou conhecido para acolher em outro estado. E por fim, a interiorização por Trabalho é quando o imigrante vai ser contratado por outra empresa no local de destino.


O processo de interiorização ocorre em seis fases. A primeira etapa é quando o imigrante passa pelo Posto de Interiorização e Triagem em Pacaraima ou Boa Vista. Na segunda fase, o abrigo se associa com o planejamento logístico da Estratégia de Interiorização, para organizar e verificar os voos disponíveis para cada modalidade de interiorização.


Já na terceira parte, os abrigos e o espaço emergencial dão orientações que são repassadas pelos coordenadores e encaminhamento para os abrigos, principalmente no Rondon 2, realizando os mapeamento para a realocação. Na quarta fase, os abrigos orientam como funciona o processo. No quinto, as pessoas são cadastradas no Registro de Sistemas de Casos da ACNUR e complementação das interiorizações. E por fim, a viagem.


Após chegar no seu destino final, os refugiados são redirecionados para os abrigos, tendo suporte por três meses. Como foi a situação de Luis Enrique Aristiguieta Guzmán, de 40 anos, que foi para Pernambuco com a sua esposa Yurky Coromoto Moreno, de 31 anos e os seus três filhos, Susej del Valle Salazar Moreno, de 13 anos, Jesús Javier Salazar Moreno, de 11 anos e Johana Leticia Aristiguieta Moreno de quatro anos.


"Antes de ser interiorizado eu fui para dois abrigos para ser selecionado. A partir daí eu e minha família fomos para Pernambuco e lá a situação foi um pouco difícil. Fiquei mais seis meses sem emprego devido ao início da pandemia que estávamos vivendo em 2020. Com isso, eu recebi ajuda da ACNUR Brasil, Cruz Vermelha Brasileira e Cáritas durante esse processo” explicou Carlos Henrique.

De acordo com a ACNUR, ao todo são cerca de 930 municípios brasileiros que recebem os refugiados de dez estados: Amazonas, Bahia, Distrito Federal, Espírito Santo, Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Paraná, Paraíba, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e São Paulo.


A interiorização teve resultados significativos na redução da pressão migratória em Roraima e no acolhimento dos venezuelanos. E contribuiu para a integração dos imigrantes nas cidades de destino, com relatos de casos de sucesso na obtenção de emprego e reconstrução de suas vidas, assim como no início de carreira, como o caso de Maury.


“Eu tenho formação em Direito. Eu estudei aqui em Minas Gerais, e me formei em dezembro de 2022. Ganhei uma bolsa no Centro Universitário Mário Palmério (UNICAMP), uma universidade que me deu apoio para estudar. Consegui me formar em quatro anos e meio, um curso de cinco anos, através do reaproveitamento de disciplinas. Entrei quando meus colegas estavam cursando o segundo semestre”, relatou Maury.

Hoje, Maury trabalha no mercado local e diz que seu sonho é passar na prova da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).


“Estou trabalhando atualmente como representante comercial e ganho muito bem. Meu sonho é passar na prova da OAB ainda este ano, e abrir o meu escritório de advocacia. Acho que o Brasil foi muito acolhedor e me deu muitas oportunidades, tenho muito o que agradecer ao país” relatou Maury.

Matéria desenvolvida durante a disciplina de Redação Jornalística IV, com a supervisão da professora Antônia Costa e monitoria de Fernanda Fernandes e Paola Carvalho.



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