• JB Fernandes

Neuber Uchôa, Cruzando Fronteiras.


"Muito prazer, estou aqui pra dizer Que canto pra minha aldeia, sou parte da teia Da aranha sou par E como o rio que me banha e que te manha É branco do mesmo trigo Eu sou o cio da tribo E posso até fecundar". (Cruviana- Neuber Uchôa)

Uma figura ímpar. Compositor, cantor, artista, músico, poeta...macuxi, roraimeira, sem fronteiras... Tive um prazer imensurável de poder entrevistar esta criatura singular, para um trabalho da faculdade e me encantei mais ainda com seu jeito simples e direto de falar.

Seja em companhia da família ou de amigos, o sorriso fácil e a conversa mansa, cheia de ensinamentos e causos dos mais diversos. Se possível ele falaria por uma semana e mais dois dias. Mas, nossa prosopopeia durou pouco, porém, o bastante para enaltecer ainda mais a boa imagem que eu já tinha deste menestrel do serrado.

Neuber Uchôa E Sua Influência Na Música Regional Como Ferramenta De Aprendizado Cultural.

Foto: Divulgação/Youtube

Segue detalhes da entrevista:

Nome Completo: Neuber Francisco Melo Uchôa.

Nome Artístico: Neuber Uchôa. “Surgiu da ideia do mesmo não se tratar de um nome comum e também a influência dos amigos”.

JB: Como surgiu o seu interesse pela música? Ou, como a música surgiu em sua vida?

Neuber Uchôa: "Eu costumo dizer que quando eu nasci, eu não chorei, eu cantei. Comecei a cantar com 3 anos de idade. Desde novinho, por influência da minha mãe, eu já cantava em programas de auditório que tinha aqui na região, de um grande comunicador, Jaber Xaud¹. “Aos treze anos a minha voz foi mudando, na fase de adolescência, então eu parei de cantar, fiquei com vergonha. Foi daí que passei a conhecer os instrumentos e passei a compor também, foi o meu purgatório para que cinco anos mais tarde, eu fazer o que eu consideraria minha primeira música, aos 18 anos de idade”.


JB: E como você vê a influência da música em sua educação na infância e no homem que você é hoje?


NU: “Quando eu comecei a cantar, só tinha uma rádio AM e fechava as onze horas da noite (23h.) junto com a energia que acabava. Aos 15 minutos para as onze da noite dava uma piscada, que anunciava que as pessoas tinham que pegar suas lamparinas, velas...esse era o meu universo. Eu ouvia muita música de rádio, Roberto Carlos, Martinho da Villa, cantores populares do rádio dos anos 60. Então posso dizer que fui muito bem influenciado para a formação do homem que sou hoje”.

JB: Quando criança, você se imaginava ser o músico que é hoje?

NU: “Quando eu fiz 33 anos de idade, juntava os amigos e fazia uma curtição que virou uma tradição, todo ano fazer um show no meu aniversário. Então, quando eu fiz 50 anos eu reencontrei um grande amigo (quando éramos crianças morávamos perto da orla do rio) e me lembrei de quando brincávamos, tinha aquela coisa de um perguntar para o outro, o que você vai ser quando crescer e eu dizia: -eu não vou ser, eu já sou um artista. Eu não me imagino sendo outra coisa. Já fui escrivão de polícia, professor, eletricitário, bancário, taquígrafo..., mas eu sempre soube o que eu queria ser desde cedo. Formei minha personalidade muito cedo”.

JB: Quem ou quais foram as maiores influências do início da carreira? E ainda o são hoje?

NU: “Meus ídolos continuam firmes e fortes, quase todos beirando os 80 anos, Chico (Buarque), Caetano (Veloso) e Gilberto Gil, são minhas referências principais e há 45, quase 50 anos, os caras fazem a minha cabeça. Mas também existem outros, Lenine, Chico César, Zeca Baleiro. Inclusive, eu, como artista, aprendo muito com esta nova geração, tem uma frase de Caetano que ele escreveu há 50 anos atrás, “da música Tropicália, que eu gosto muito, que reflete bem isso. Eu me vejo envolvido com esta juventude, eles andam na minha casa, eu me alimento de tudo isso. Tenho muito orgulho disso”.

JB: Sendo um cantor e compositor do extremo norte do Brasil, que canta as belezas da região e, principalmente do Estado de Roraima, diferente de muitos artistas, você resolveu ficar por aqui mesmo. Por que você não escolheu ir para o eixo Rio de Janeiro ou São Paulo, onde se concentram os grandes artistas?

NU: “Isso foi uma coisa pensada e repensada durante o núcleo do Movimento Roraimeira, desde 1984, a gente não tinha nem disco, não tinha nada, nem eu, nem Zeca Preto² , nem o Eliakim³ e, quando a gente se deu conta, que ao optarmos pelo regionalismo, a gente tinha notado que havíamos trocado o logos da prosperidade, pelo logos da posteridade, a gente sabia que não ia ganhar dinheiro com essa p..., então, foi uma opção mesmo ficar por aqui, eu poderia estar fazendo canções românticas para algum cantor aí, emplacar. Eu passei quatro anos no Rio de Janeiro, no início da década de 2001 a 2005, tentando me lançar como compositor, fiz uma Networking muito legal, conheci muita gente bacana, me dispus a ouvir mais do que falar. Foi um período muito bacana. Daí eu voltei para lançar um disco aqui, aí eu vi um movimento forte da juventude, que preencheu uma lacuna que eu deixei durante o tempo em que estive fora e, são umas pessoas com quem me relaciono bem”.

JB: No dia a dia a mídia noticia atos de violência motivados por algum tipo de preconceito. Em sua carreira, você passou por situações do tipo? Houve preconceitos?


NU: “Muito! Quando a gente optou pelo regionalismo, há 35 anos atrás, em 1984, o objeto de nossa arte que a gente assumiu a partir daquele momento, tinha a ver com acultura indígena, que por si só já era discriminada. A minha música é carregada de referências indígenas e caribenhas, porque nós concluímos que a nossa história é feita de pajés e corações de cada canto do mundo e não só da região, então a gente deve reverencias aos índios porque são nativos, já estavam aqui quando chegamos, desde a colonização. E olha como é bacana que a gente vive num estado que faz fronteira com dois países de línguas estranhas, línguas diferentes, Sui generis, uma completamente inglês e a outra hispânica, mas como são pobres, ninguém liga prá isso”.

JB: Você tem uma excelente discografia, três álbuns com ótima repercussão: Muito Prazer; Eu Preciso Aprender a Ser Pop e Damurida e, inclusive um trabalho de 1977. Logo, não é de hoje que você vem perpetuando o seu nome e levando a cultura do povo macuxi ao resto do país e porque não dizer ao mundo. Você acredita que a chamada era da globalização foi um bom resultado para os chamados artistas regionais? E em que isso pode ajudar no campo cultural?